terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Texto a partir do seminário "A alegria é a prova dos nove: o lugar social e crítico do riso na cultura brasileira.


Pensar a cultura brasileira através do riso faz parte da dificuldade de pensar o riso enquanto potência. Difícil por que o riso se inscreve em lugares mais ou menos marginais à dita cultura oficial.
Pensar no riso é pensar na potência política dele, no poder festivo e libertador. Rir a “bandeiras desfraldadas”, como disse Erminia Silva citando Machado de Assis, é um lugar de descontrole, porém um descontrole que renova o social, que fala aos sentidos e afetos, que traz um momento de liberdade utópica. Podemos sim falar de um “descontrole da turba”, porém os descontroles tão requisitados durante séculos não podem ser ignorados: o indivíduo precisa do riso e da alegria. Ainda sob às palavras de Erminia, o riso vaza pois não tem modelos e, por não ter modelos, há sempre a tentativa de controlá-lo.
Hoje temos uma nova onda de seriedade, um choque de ordem (um nome bem risível) vem se espalhando pelas diversas comunidades da cidade do Rio de Janeiro, cidade que cedia o Anjos do Picadeiro desde 1996, evento este que está em sua 11ª edição. As favelas vêm sendo ordenadas e as ruas do centro e da Zona Sul também (bem, tenta-se). Além disso, o número 11 é o primeiro número que não pode ser contado nos dedos das mãos, logo ele foge ao controle delas. Ele também é um atrás do outro, fugindo também do controle dos mais conservadores. Bem, os conservadores tentam reter com suas mãos (e muros) tudo aquilo que foge de seu controle, tudo aquilo que não pertence à sua ordem, às suas regras.
É função do riso e da festa, da fantasia e da brincadeira, do cômico tão ameaçador criarem novas redes sociais que tragam à tona a dimensão subjetiva de pertencimento da turba através do descontrole, acessando o prazer e a utopia genéricos, intrínsecos a todo indivíduo. O riso não pode dividir, o riso identifica todos que pertencem a um mesmo grupo. “O riso não é forma exterior, mas uma forma interior essencial a qual não pode ser substituído pelo sério, sob pena de destruir e desnaturalizar o próprio conteúdo da verdade revelada por meio do riso. Esse liberta não apenas da censura exterior, mas antes de mais nada do grande censor interior, do medo do sagrado, da interdição autoritária, do passado, do poder, medo an corado no espírito humano há milhares de anos” (Bakhtin).

 Júlio Castro - integrante do observatório do Anjos do Picadeiro 11

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