terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Friburgo floresce


 
O número 11 vem roubando o prestígio do 13 no que diz respeito a maus agouros. Além do famoso 11 de setembro de 2011, há outros 11s de setembro como a tomada da ditadura no Chile em 1973 e também o atentado nas olimpíadas de Munique em 1972.  O tsunami no Japão foi num 11 de março. 





A tragédia em Nova Friburgo, internacionalmente conhecida, ocorreu em 11 de janeiro de 2011.

Por capricho dos números (e porque dizem que Deus criou tudo a peso e medida), no ano do fim do mundo a 11ª edição dos Anjos do Picadeiro aporta exatamente nesta cidade!

“Porque é primavera!”, nos explica o profeta Tim Maia, cantado aos berros por João Artigos durante a subida do Rio pra Nova Friburgo, no último sábado, no afã de chegar a tempo da estreia da versão serrana dos Anjos do Picadeiro, que ocorreu na praça Demerval Barbosa (a famosa pracinha do centro da cidade).

Sim, chegamos a tempo... de ver o último número da tarde, apresentado pelos Grandes Seres da Montanha! Tempo de tirar fotos e botar no instagram, tempo de encontrar o poeta Flavio Nascimento, de ser recebido por Beto Grillo, de prestigiar Marta Carbayo no Teatro Municipal logo mais à noite, de dar uma pinta na Praça do Suspiro, de ouvir hip-hop e samba e testemunhar um relato apaixonado de Ivan Prado e João Artigos sobre o grandioso Nani Colombaioni (a mesma história que foi rapidamente contada ontem por João na palestra do Teatro de Anônimo no Teatro Nelson Rodrigues – mas esse é um outro e mesmo assunto!).

Se Friburgo é a cidade das flores, e se a flor é o coração do palhaço, e se falando merda a gente aduba a vida, é claro que o solo friburguense é um esterco fértil para girassóis como Cia Arteira, Grandes Seres da Montanha, Circo a Céu Aberto, Palhaçarte, Abelhito e Sucata, Trupe Família Clown... e muitas outras trupes que fazem da cidade um celeiro incrível de palhaçaria.

Friburgo, inclusive, criou uma tradição de palhaços, porque, minha gente, é muito palhaço que mora lá, hein? Não consigo nem começar a listar... fora os que nasceram lá e moram no Rio e vivem fazendo essa ponte, não só na cidade mas em toda a região. Me parece um caso singular.

É também curiosíssimo e instigante que, num caso único de poesia, Carlos Drummond de Andrade descreva Nova Friburgo em um único verso, lá pelos idos dos anos 40: “Esqueci um ramo de flores no sobretudo.”

A nossa região serrana é assim: florida e fresca!, repleta de gente bacana, um lugar de intercâmbio de artistas de todo o mundo e que inspira arte e amor à natureza. A memória da tragédia ocorrida recentemente e o medo que as pessoas ainda guardam da necessária chuva precisam ser sobrepujados pelo sentimento de esperança, de reconstrução, de amor e respeito ao próximo, em última análise, de alegria.

Os Anjos do Picadeiro investiram na energia do encontro! Levar o Festival para aquela cidade é apostar na vocação natural que ela tem de receber e abrigar pessoas.







 
E gente pra rir junto, graças a Deus, não faltou, principalmente nos eventos da praça, mostrando a vocação natural do palhaço para este lugar. Boa parte do público foi pega de surpresa. Os sorrisos foram espalhados! Intercessões artísticas como essa contribuem pra resgatar a autoestima do povo, alguém duvida?

E como será bom quando as autoridades municipais acordarem pra isso e compreenderem que só poderemos fazer alguma coisa se fizermos coletivamente! Trair o outro é trair a si mesmo. Pior que a tragédia da natureza é a tragédia da corrupção (de verbas que deveriam ser destinadas à reconstrução da cidade).

Mas não tem nada, não! O fim do mundo está aí! E pode saber: vai dar merda! E vai feder! E vai florir!

Parafraseando o meu guru Waldo Motta, “Desejo que o mundo acabe em estrondos e suspiros. De gargalhadas e alívio dos que restarem”.



Fernando Gasparini - do Observatório dos Anjos do Picadeiro

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