sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Anjos da Picagrossa


           O título resume os últimos dias do Anjos. E se a coisa é pica dura, pouca merda não sai.
Se antes as mesas discutiram a função política – nos diversos níveis do entendimento da palavra política – da figura do palhaço em um nível intelectual, vemos agora as potências sendo empregadas nas ruas e nos palcos.
            Começando pela palhaceata que atravessou as estreitas vias públicas, interrompendo os fluxos, gerando curiosidade, aborrecimento – para aqueles que não têm mais tempo para brincar – e alegria – para os que ainda se permitem abrir espaços – em plena tarde de quarta-feira. No fim do dia, tivemos a apresentação do palhaço Tortell Poltrona, trazendo sensibilidade, transgressão e técnica capazes de emocionar o público. No dia seguinte, mais um espetáculo de tirar o fôlego com o ator Heinz Limaverde, misturando autobiografia, stand-up e palhaçaria.
            Na rua ou no teatro, o palhaço surge como uma figura potente, instigante, trazendo uma injeção de sensibilidade aplicada diretamente no glúteo esquerdo. Não há pensamento crítico, há compreensão sensível. Sejam os arrombos de uma passeata brincante, o equilíbrio de dez cadeiras ou a história de um artista errante. Nas praças, o palhaço atrai a atenção sem fazer o menor esforço, ele gera uma interrupção no tempo-espaço dos passantes, uma outra lógica na vida daqueles que vivem correndo ou dos que dormem nas ruas de concreto. A grande potência política do palhaço é dar maleabilidade aos espíritos endurecidos, seja aborrecendo, seja fazendo sorrir ou chorar em qualquer momento do dia.
            Claro, é necessário muito trabalho, muita técnica, muito saber, muito viagra. Esses souberam em diferentes escalas e de diferentes formas, e outros também. Cada um tem sua forma de seduzir, de praticar seu freelovinho e, quando você menos esperar, te cutucará profundamente.

Julio Castro, do Observatório Anjos do Picadeiro

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