terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A arte de obrar


            Começo este texto pelo que queria que fosse o fim, citando a fala de uma pessoa do público: “Todo mundo faz coco”.
            A partir desta frase claramente filosófica, pontuando um niilismo pós-moderno, contudo não menos cômico, assim como a figura do palhaço (uma figura vista duplamente de forma melancólica e alegre, não é isso?..) continuo uma discussão acontecida no dia de hoje através da maneira que tenho de me expressar, que é a escrita neste espaço.
            Segundo a fala de Adriana Schneider, o Anjos do Picadeiro é um espaço específico fundamental na legitimação do palhaço no Brasil e no mundo, visto que é um evento de proporção internacional. O Anjos potencializa a discussão em torno dessa figura e se faz um lugar de troca de saberes intelectuais (da ordem do pensamento) e práticos (da ordem do fazimento), levando essas discussões a sério. Pois bem, falando dessa forma parece haver uma busca por uma técnica, quase na necessidade de construção de uma poética da palhaçaria na consolidação do palhaço.
            Para alguns muitas dessas discussões parecem não levar a nenhum lugar a não ser conduzir para um beco intelectualóide. Há um formato anterior que desconheço do encontro, porém durante esses dezesseis anos ele vem consolidando-se da forma como vim a conhecer. Por quê? Por que não uma grande arena onde todos possuem a palavra? Por que não há apenas oficinas, para que o conhecimento prático seja passado? Por que aquelas quatro (respeitosas; repito, respeitosas) figuras devem ficar atrás de uma mesa, acima da plateia, falando através de microfones?
            Não posso responder nenhuma dessas questões, nem outras tantas, de maneira objetiva. Posso apenas colocar que, se é dessa forma, isso se dá pelas diversas solicitações dos diversos atravessamentos que perpassam aquilo que nomeamos “Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 11: A alegria é a prova dos onze?”. O encontro atrai a atenção de diversas pessoas não pertencentes ao mundo da palhaçaria e reverbera nas várias individualidades ali presentes e, desta forma, nas não presentes também.
            Claro que esse formato também detona com um formato anárquico (em um sentido político, ou não; como vocês acharem melhor), até porque se o encontro se inscreve como um lugar de legitimação, o faz na tentativa de se justificar perante o sistema vigente, se legalizar para a sociedade atual, tornar o ofício político no círculo das políticas.
            Bem, cada um tem suas convicções. O encontro é uma multiplicidade de convicções que se sobrepõem, se amalgamam, se destroem e se constroem. O encontro também tem suas convicções. Elas se constituem entre caos e ordem, se constroem nos encontros e nas turbulências. Se dão em obras escritas, faladas e atuadas, exigem espaço e tempo; exigem dispersão e união; exigem formatos, descolamentos, desfazimentos, repaginações e porque não, muita merda.
            O que seria do palhaço, ou melhor, o que seria do humano (olha a bosta do humos aí), se não se falasse tanta merda. Jogado o esterco no ventilador, foi impossível não pensar. Qual é, afinal de contas, a função do palhaço? Qual a função desse encontro? Onde estou? Quem sou eu? ...e todas aquelas outras diversas perguntas úteis para uns e inúteis para outros. Uma coisa é certa: todo mundo caga. Até a Madonna. Até a Xuxa. Até o Justin Bieber (meninas, podem acreditar). E cagar é o melhor remédio.
           
            Obs.: Para não perder o costume, vou enfiar-lhes uma citação abaixo: “A partilha do sensível é o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do comum fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. [...] A partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço que essa atividade exerce. Assim, ter esta ou aquela ‘ocupação’ define competências ou incompetências para o comum. Define o fato de ser ou não visível num espaço comum, dotado de uma palavra comum etc.” (Rancière)


Julio Castro - integrante do observatório do Anjos do Picadeiro 11

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