sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


Não se trata de fazer rir para pensar, mas de pensar para fazer rir

O palhaço sempre teve a função de fazer rir, comover e fazer pensar. Esse fazer rir, esse comover e esse fazer pensar – sua função de crítica social – alcançam o outro por meio de sua arte. É em cena que ele pode exercer sua função, seja no palco, no picadeiro ou na rua.

A questão é: sua atitude política se torna visível pelos materiais (o uso da tradição, o próprio discurso, a escolha do que dizer com os números que escolhe fazer) reunidos em sua apresentação, ou seja, em sua ação, em seu mostrar-se ao público.

Seu corpo e sua fala são sua porção política quando ele sabe, entende, o que está fazendo diante do seu público. Se ele não entende, nnao sabe porque faz o que faz, ele é um palhaço inocente, ingênuo (e não por opção) ou, ao contrário, um palhaço que apenas quer tirar proveito de um lugar que ocupa sem consciência: a profissão de palhaço, neste caso, ocupa o mesmo sentido da de vendedor.

Se tirarmos do palhaço o lugar da apresentação pública (de números, de gags, de espetáculo) o que sobra do palhaço? Sobra um SER em relação com o mundo. Como sou eu, como é qualquer pessoa que não estudou as ferramentas, não treinou e não desejou ser palhaço.

Quando há uma defesa do palhaço sem número, sem cena, temos aí uma mudança de definição do palhaço ou um testemunho de uma mudança na própria história social. Por que digo isso? Porque também na literatura há essa necessidade de ser escritor, de ser poeta, sem ter livros, sem escrever. Interessa mais a figura pública (o ser alguma coisa) do que o trabalho em si. “Trabalhar cansa...”, como já disse Césare Pavese.

Há também uma necessidade de se justificar a pesquisa sobre o palhaço ou a ação mesma do palhaço num edital ou num projeto de pesquisa na capes ou no cnpq, agências financiadoras das tão desejadas bolsas de pesquisa. Como dizer que o projeto visa ao financiamento de uma pesquisa que só tem interesse no campo individual do pesquisador de aprender o palhaço ou de mantê-lo vivo, alimentado por mais um ano? É mais fácil ganhar bolsa ou edital dizendo que o projeto vai beneficiar outras pessoas...

Se aparece tanto a figura do palhaço sem número, do palhaço que faz o discurso do coração, deve ser porque há uma necessidade de ajudar-se e de ajudar o outro num mundo doente, num mundo sem ideais, sem utopias grandes. Mas será preciso ser palhaço para ajudar o outro? Será preciso que o palhaço ajude o outro dando aquilo que ele acha que o outro quer? Quais são as formas que o palhaço poderia inventar para ajudar-se e ao outro? Não será um vício fácil o discurso da ajuda? O palhaço só pode ajudar quando sabe como fazer rir, comover, tocar etc. Então, primeiro a construção, o trabalho, e depois ele estará pronto para ajudar. Não?

 Ieda Magri, do Observatório Anjos do Picadeiro

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