quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Rio, logo existo

“Estamos aqui para cumprir a nossa missão, que é a de não fazer porra nenhuma, só se divertir. É o momento de se transformar”, anuncia o palhaço na concentração da Palhaceata, ontem à tarde, no Largo de São Francisco. Sem perguntar à polícia militar, calculo que umas 300 pessoas, a maioria fantasiada, se enfileiraram pelas ruelas do centro da cidade, cantando e dançando e brincando, até se expandirem na Praça XV, ao som da Orquestra Voadora.

Um imenso dragão chinês feito de bolas de gás em vermelho e laranja acompanhou o cortejo (foto: Celso Pereira). Para a mitologia chinesa, esse animal representa a recriação do universo, uma vez que teria sido convocado pelos deuses para cumprir tal objetivo. A imagem não poderia ter sido mais apropriada, no ano em que os Anjos do Picadeiro se consolidam em sua décima edição, reafirmando a prerrogativa palhaçal da transformação, do reconhecimento de si, da aceitação, do riso, do amor e da alegria.
Não é mesmo para se levar a sério. Do chão da rua, os palhaços gritavam alto para quem estava nas janelas dos edifícios: “Pula! Pula! Pula! Pula!”. O desafio parecia ser encantar os transeuntes, arrancar-lhes um sorriso. E os artistas, em uníssono, entoavam seu grito de guerra: “um, dois, três / quatro, cinco, seis / sete, oito, nove / dez, onze, doze”.
“Vamos gritar! Vamos gritar”, anunciava outro palhaço, dando o tom orgíaco da festa. Uma bagunça organizada, diga-se de passagem, com pernaltas sinalizando o trânsito, acompanhamento da polícia e água distribuída aos “manifestantes”.
Catarse  
A Palhaceata é a catarse coletiva mais marcante dos Anjos. São muitos narizes vermelhos juntos e na rua, que é o lugar por excelência de ação e subversão do palhaço. É o momento propício em que os mestres, os profissionais, os amadores, os aprendizes e os intrometidos na arte da palhaçaria se aproximam através da brincadeira e se reconhecem como iguais.
“O Rio é da rua” é um dos slogans da atual edição. Conforme lembrado por João Artigos na abertura do festival, a programação de 2011 privilegiou as apresentações em locais públicos.
Embora aparentemente non sense, a palhaceata (cujo termo naturalmente se origina de passeata, isto é, um protesto político) traz também consigo as suas reivindicações públicas: o direito ao riso e à alegria.
“Rio, logo existo” era um dos cartazes do movimento. A sentença poética é um diálogo e um franco desafio à máxima anunciada pai da ciência, René Descartes, há 400 anos: “penso, logo existo” – o aforismo fundador da filosofia moderna e que ecoa até os dias de hoje, ligando a nossa consciência como sujeitos ao ato de pensar. Em outras palavras, eu só poderia existir se fosse um ser pensante e racional. Fora disso, não haveria existência.
Assim se criou esta civilização, baseada na racionalidade, nas ações corretas, no civismo, na conduta ilibada, na produtividade e, consequentemente, na condenação ao ócio, ao erro, à diversão.
E aonde é que ficam os loucos, os bêbados, os trôpegos, os palhaços? “Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!”, já questionava o poeta Fernando Pessoa. Aliar o riso à nossa condição de existência, como sugere o cartaz da Palhaceata, soa uma alternativa vigorosamente mais viável e sensata para este início de milênio, em que se presencia a falência completa de um modelo cartesiano de sociedade que nos conduziu ao medo e à tristeza, entre tantas outras coisas terríveis.

Por Fernando Gasparini. 

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