Espaço interativo com acesso irrestrito para todos os palhaços do mundo que queiram mandar seu recado, trocar conhecimentos e afetos ou registrar sua passagem (ou a de outro) no Anjos do Picadeiro. Use as tags no fim da página para facilitar a navegação por histórias de outras edições do festival. Acesse, escreva, leia e comente!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Por último,...


O clima nublado deu uma trégua para um lindo domingo azul. No último dia dos Anjos do Picadeiro os rostos não pareciam cansados, pelo contrário, estavam incrivelmente suaves. E como a Praça Tiradentes ficou linda sem aquelas grades. Uma praça com grades é uma praça aprisionada. Libertem as praças de suas grades! É o que a Praça Paris e tantas outras gritam.

A praça recém-inaugurada (com um gostinho de novidade pra muitos cariocas), o céu azul... o tempo-espaço corroborou para um emocionante desfecho do festival, na apresentação de “O Pregoeiro”, com Márcio Libar, reunindo cerca de 500 pessoas.

Se o clima estava favorável por um lado, por outro foi desafiador silenciar e concentrar as agitadas crianças, advindas de um dia inteiro de circo e que atravessavam a toda hora o picadeiro. Não foi problema. A cada investida o artista de rua ganhava e no final a maior parte delas acabou vidrada.

“Estou aqui para amar e ser amado!”, sintetizou o palhaço. A narrativa da peça envolve aos poucos (e de forma distraída, desprevenida) o público a fim de deixar uma mensagem resumidamente clara como água: tudo o que a gente faz é porque quer ser amado, tudo o que a gente sabe fazer, em última análise, é amar e ser amado. E desenvolvemos os mais elaborados argumentos para fugir dessa verdade última.

Com os recursos e o instrumental da palhaçaria, Márcio Libar convence a plateia que só podemos amar se nós nos aceitarmos como nós somos, isto é, aceitar os erros (a tendência é errar muito mais do que acertar) e as perdas inevitáveis da vida. “Viva a liberdade de ser o que se é”, bradou o artista, segurando uma enorme bandeira negra de pirata, com um inusitado nariz vermelho.

Eis uma mensagem direta e profunda e anunciada de forma lúdica e brincante. É a prova de que o palhaço, como arquétipo do ser humano, é um personagem fundamental para o desenvolvimento de uma nova forma de conviver socialmente, baseada em trocas generosas e solidárias.

Sonhos

O espetáculo é uma autobiografia, noticiando os sonhos do jovem artista, as tentativas frustradas de ser um pop star, a negritude, a busca por um virtuosismo circense, as dificuldades de quem vem de uma família pobre... e a superação de tudo isso com a aceitação de tudo isso, a aceitação do merda que se é, através da máscara do nariz vermelho. Nesse aspecto, torna-se evidente que o palhaço é um personagem de si mesmo. Para ele o palco e a vida são dimensões de uma mesma experiência humana, em essência não se diferem.

Creio que “O Pregoeiro” é uma fotografia de um momento importante de transformação artística de Márcio Libar. A julgar, contudo, pelas mais recentes descobertas do palhaço, o envolvimento com a linguagem pirata, o universo quântico, o vídeo-game, o RPG, além de leituras de Osho e outros babados, é de se imaginar que venham outras surpresas por aí.

O dia foi repleto de apresentações, desde as 11h, no Teatro Nelson Rodrigues e na Praça Tiradentes, onde BNegão fechou a festa encontrando um público quente e disposto a dançar. Uns gatos pingados permaneceram depois bebericando pelos bares e fazendo uma batucada na praça, banhados por uma imensa lua cheia. Antes do tom de saudade e nostalgia ir se instalando, ainda houve tempo para uma numerosa roda se formar, com todos juntos gritando: “aaaaaaaaaaaaaaxé!”

E um sorriso bobo vai ficando no ar, como despedida! Até a próxima!


Por Fernando Gasparini.

0 comentários: