O clima nublado deu uma trégua
para um lindo domingo azul. No último dia dos Anjos do Picadeiro os rostos não
pareciam cansados, pelo contrário, estavam incrivelmente suaves. E como a Praça
Tiradentes ficou linda sem aquelas grades. Uma praça com grades é uma praça
aprisionada. Libertem as praças de suas grades! É o que a Praça Paris e tantas
outras gritam.
A praça recém-inaugurada (com um
gostinho de novidade pra muitos cariocas), o céu azul... o tempo-espaço
corroborou para um emocionante desfecho do festival, na apresentação de “O
Pregoeiro”, com Márcio Libar, reunindo cerca de 500 pessoas.
Se o clima estava favorável por
um lado, por outro foi desafiador silenciar e concentrar as agitadas crianças,
advindas de um dia inteiro de circo e que atravessavam a toda hora o picadeiro.
Não foi problema. A cada investida o artista de rua ganhava e no final a maior
parte delas acabou vidrada.
“Estou aqui para amar e ser
amado!”, sintetizou o palhaço. A narrativa da peça envolve aos poucos (e de
forma distraída, desprevenida) o público a fim de deixar uma mensagem resumidamente
clara como água: tudo o que a gente faz é porque quer ser amado, tudo o que a
gente sabe fazer, em última análise, é amar e ser amado. E desenvolvemos os
mais elaborados argumentos para fugir dessa verdade última.
Com os recursos e o instrumental
da palhaçaria, Márcio Libar convence a plateia que só podemos amar se nós nos
aceitarmos como nós somos, isto é, aceitar os erros (a tendência é errar muito
mais do que acertar) e as perdas inevitáveis da vida. “Viva a liberdade de ser
o que se é”, bradou o artista, segurando uma enorme bandeira negra de pirata,
com um inusitado nariz vermelho.
Eis uma mensagem direta e
profunda e anunciada de forma lúdica e brincante. É a prova de que o palhaço,
como arquétipo do ser humano, é um personagem fundamental para o
desenvolvimento de uma nova forma de conviver socialmente, baseada em trocas
generosas e solidárias.
Sonhos
O espetáculo é uma autobiografia,
noticiando os sonhos do jovem artista, as tentativas frustradas de ser um pop
star, a negritude, a busca por um virtuosismo circense, as dificuldades de quem
vem de uma família pobre... e a superação de tudo isso com a aceitação de tudo
isso, a aceitação do merda que se é, através da máscara do nariz vermelho. Nesse
aspecto, torna-se evidente que o palhaço é um personagem de si mesmo. Para ele
o palco e a vida são dimensões de uma mesma experiência humana, em essência não
se diferem.
Creio que “O Pregoeiro” é uma
fotografia de um momento importante de transformação artística de Márcio Libar.
A julgar, contudo, pelas mais recentes descobertas do palhaço, o envolvimento
com a linguagem pirata, o universo quântico, o vídeo-game, o RPG, além de
leituras de Osho e outros babados, é de se imaginar que venham outras surpresas
por aí.
O dia foi repleto de
apresentações, desde as 11h, no Teatro Nelson Rodrigues e na Praça Tiradentes,
onde BNegão fechou a festa encontrando um público quente e disposto a dançar. Uns
gatos pingados permaneceram depois bebericando pelos bares e fazendo uma
batucada na praça, banhados por uma imensa lua cheia. Antes do tom de saudade e
nostalgia ir se instalando, ainda houve tempo para uma numerosa roda se formar,
com todos juntos gritando: “aaaaaaaaaaaaaaxé!”
E um sorriso bobo vai ficando no
ar, como despedida! Até a próxima!
Por Fernando Gasparini.
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