sábado, 10 de dezembro de 2011

Palhaços botam o pau (e a bunda) na mesa

Depois da mágica entrada do palhaço Xuxu, inaugurando ontem o espetáculo de gala nacional dos Anjos do Picadeiro, em um número clássico de seu repertório, junto a uma criança da plateia, ficou mesmo difícil para os palhaços que vieram logo depois segurarem a onda na mesma sintonia.
Xuxu traz consigo a força da cultura popular brincante de inspiração nordestina, de muita zoação com a cara das pessoas, fazendo perguntas que, em outro tom, acabariam mal. “Você é feito assim mesmo, é? (...) Nasceu com essa cara? Ah... foi ficando pior. (...) O sujeito nasce uma vez só na vida e tem uma cara desse jeito”. Ficou um gostinho de quero mais.
Depois, o público, mesmo que disposto, parecia um pouco cansado. Bem diferente do estado de espírito do gala internacional de quinta, quando todos estavam agitadíssimos. Seria um mormaço de tantas apresentações consecutivas? Ou não?
Salve, Sérgio Sérgio! Cruzando o palco entre um número e outro, o palhaço poderosamente arrasou, dando uma aula de liberdade sexual, ensinando-nos a falar bem bichescamente: “oi zénti! Tudo gom?”.
Excêntrico
Os artistas aproveitaram a comemoração do décimo aniversário dos Anjos para botar o pau na mesa, isto é, expor as suas excentricidades sexuais até o limite da bizarrice. Que o diga a palhaça Lily Curcio, que vagarosamente tirou da calça um pênis gigantesco, inimaginável e, sem dúvida, chocante. Freud explica.... explica? Mais extremo ainda foi o palhaço Pepe Nuñez tomar os excrementos deixados pelo cacete no palco com catchup e maionese.
Pelados, João Artigos, Hugo Possolo e Chacovachi escondem as partes baixas com um pequeno balão de gás. Em seus bumbuns logo mais aparecem a referência à comemoração do décimo aniversário do encontro. A nádega esquerda de João continha o número 1 e a esquerda o número 0. Cabe a eleição: qual a bunda você achou mais bonita?
Tórrido, grotesco, ridículo... a presença explícita em palco das seis bandas de três bundas arrebatou, incomodou, chocou, provocou. O espetáculo poderia acabar ali mesmo. Foi deveras desafiador para a palhaça Naomi Silman entrar no palco posteriormente bem composta (isto é, com roupas) e ter de segurar o público com um carrinho de controle remoto e uma caixa de papelão.
O encerramento foi uma homenagem ou um plágio ou uma referência ou uma bricolagem o um patchwork ou uma ressignificação do espetáculo de Jango Edwards, que veio aos Anjos em 2009. Os palhaços (agora sim, com asas de anjinhos feitas de bolas de gás) cantaram a famosa canção dos Beatles, “All you need is love” (“Tudo o que você precisa é amar”), numa língua bem apropriada para os artistas brasileiros.
É certamente o amor que supera as dificuldades, como bem lembrado por João Artigos na ocasião da abertura do festival. E a décima edição do gala nacional, que rendeu um belo e emocionado “Parabéns pra você”, deu o recado: que venham os próximos! Que venham mais dez! Que venham cem! Que venham mil! 

Por Fernando Gasparini

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