terça-feira, 6 de dezembro de 2011

dois avanços e um debate

Pode-se dizer que nesta nova edição do Seminário Anjos do Picadeiro pesquisadores e público avançaram um pouco a discussão em dois pontos que sempre retornam nas reflexões, seja em questionamentos do público ou mesmo como proposição dos participantes das mesas de debates.

Um desses pontos diz respeito à quentíssima questão de se há ou não uma especificidade na comicidade feminina. Na primeira mesa, sem a pieguice que muitas vezes acompanha esse tema, Mariana Rabelo em sua fala sucinta defendeu que a mulher palhaça faz graça de maneira diferente desde o corpo diferente que tem. Assim, sua caída não é como a do palhaço homem, os locais a proteger não são os mesmos. A defesa, portanto, da especificidade da graça feminina não passa apenas por questões abstratas de sensibilidades e interesses diferentes.

Também os estudos sobre o assunto não enfocam apenas o lugar político a ser ocupado pela mulher no picadeiro. É política, mas acima de tudo é uma defesa estética de que a mulher pode ter temas próprios, piadas diferentes, outra relação com o corpo. Na entrevista aberta, a catalã Pepa Plana aprofundou um pouco mais a reflexão sobre gênero na arte da comicidade reivindicando um olhar novo sobre e a partir da graça que fazem as mulheres: que não se acomodem nos temas da maternidade, do amor, do fofo, mas que lembrem que cada palhaço é diferente, homem e mulher. Não seria necessário delimitar temas e territórios, mas abrir-se à diversidade libertando e apurando o olhar sobre as atuações. Pepa encerrou sua fala convidando o público a experimentar rir com a mulher no lugar de rir da mulher.

A discussão teria muito a andar, ainda mais que entraria nas questões do politicamente correto. João Carlos Artigos lembrou do texto de André Bueno, que participou do encontro em 2008 e escreveu um belíssimo artigo na Revista Anjos do Picadeiro 7: "Há o riso que se identifica com a violência e a opressão, colocando o espectador no lugar de zomba dos mais fracos. É um riso fácil. É um riso vil. Não passa de uma linha auxiliar dos aparatos de poder e opressão." Recomendo, claro, a leitura completa desse texto, que é sempre muito atual e lúcido. Deveríamos ter essa fala do André Bueno em todos os Anjos!

Entrevista Aberta por João Artigos com Pepa Plana (ES) e
Palhaço Tomate (AR). Foto: Celso Pereira
O outro ponto que merece uma reflexão mais demorada é a conceituação de "palhaço latino-americano". Todos que participam do Anjos já ouviram algo parecido aqui e ali, refletido principalmente na autodenominação de Chacovachi: palhaço terceiro mundista. No ano passado outro palhaço-bufão que escreveu um excelente texto para a revista do Anjos, Andrés del Bosque, falava um pouco em uma das mesas de debates sobre a matriz diferente desse palhaço, a linhagem, digamos assim, dos palhaços sagrados, herança ainda hoje visível nas culturas das comunidades indígenas. Conhecemos em 2006 o hotxuá Ismael, que comandou uma roda lindíssima na Fundição Progresso. Pois bem, na mesa de ontem, Victor Ávalos, o palhaço Tomate, trouxe à cena a lembrança de que o clown, a teoria do clown, digamos assim, herdada da Europa não é a única matriz dos palhaços das américas. Esse palhaço pensado pela Europa chegou bastante distorcido ao pensamento daqui e recebeu influências de um pensamento mais recente e que mistura a matriz europeia e a latina. Talvez valesse a pena uma conversa maior sobre isso. Veremos se na próxima edição!

Hoje a discussão continua com o segundo dia do Seminário de Comicidade Anjos do Picadeiro.

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