quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A dimensão sagrada do ofício

Até que nem tanto esotérico assim... ou não?
A tônica na mesa de debates que reuniu ontem os palhaços Márcio Libar, Alexandre Casali e Ivan Prado durante o III Seminário de Comicidade, no Teatro Nelson Rodrigues, girou em torno da ação mística, ou mágica, ou encantada, ou curativa, que envolve o simples ato de mover os músculos faciais para cima, e sorrir.
Papo de maluco: “assumir nossa condição de humanidade nos faz indestrutíveis”, disparou o galício Ivan Prado (foto abaixo: Celso Pereira), que organizou nada menos que um festival de palhaços em pleno campo de guerra na Palestina. O baiano Alexandre Casali, por sua vez, sintetizou: “palhaço é autoconhecimento”, e relacionou à sua prática artística a aprendizagem de yoga taoísta, leituras de Castañeda e outros quibandos.
Casali relembra um segredo ensinado pelo tikun (uma espécie de automedicina chinesa, entre muitas outras coisas) há mais de três mil anos, como alternativa real de cura: imaginar-se sorrindo para os órgãos do corpo.
Outro importante dado relembrado pelo artista, sendo informação básica para os iniciantes em magia, é: a espécie humana já ascendeu um dia, isto é, já fomos nos primórdios espiritualmente mais avançados, já habitamos um paraíso nesta terra, e parece que temos uma vaga lembrança disso. Esse pensamento nos leva a agir, isto é, a lutar para alcançar um lugar que já nos pertenceu um dia.
Em síntese, com Ivan Prado, “o palhaço é a afirmação de nossa potência”. Este ser esquisito executa um papel precioso na retomada de uma nova consciência da humanidade. Daí a ideia do “palhaço sagrado”, que tem o dever de subverter a ordem, quebrar o protocolo, revelando o ridículo das máscaras e condicionamentos sociais. Ainda com Ivan: “o sorriso é o melhor argumento para a esperança”.
Merda
Já o mérito de Márcio Libar (foto: Celso Pereira) foi jogar merda no ventilador, isto é, incluir no discurso até então mais ou menos comportado dos palhaços (afinal, tratava-se de um “seminário”) os termos chulos conhecidos de todos. E a merda foi o principal deles.

A começar pela origem etimológica da palavra “homem”, que tem a ver com “húmus”, isto é, merda de minhoca, o adubo mais poderoso do mundo. “Por que é que homem vem de húmus, quem inventou isso? O que isso quer dizer? Dorme com isso na cabeça”, provocou o palhaço.
A merda é o resultado de uma digestão e, simbolicamente, está ligada a aceitação de algo que já foi feito e que é irremediável. “Eu caguei para o que vocês pensam de mim, ou seja, eu me aceitei. Esse é o lugar da graça”, afirma.
A defesa do palhaço é que a graça é semelhante a um combustível, em outras palavras, a graça se produz. Duvida? Libar pede ao público que feche os olhos, inspire fundo e solte um ahhhhhh. Pronto. Um sorriso, quase que instantâneo, brota da face dos cerca de 50 participantes do encontro.
A aceitação de si, a expansão da consciência, a descoberta da graça, tudo isso nos leva a romper com os códigos morais sérios e dominantes. “Se você é uma pessoa bem educada, mais cedo ou mais tarde você vai se rebelar contra a família, depois contra o sistema, e agora chegou a hora de se rebelar contra si mesmo”, completou o palhaço. Ao invés de apontar a tirania política dos outros, Libar diz estar preocupado com sua própria tirania.
O olhar para si envolve se deparar com os nossos mais terríveis defeitos (ou idiossincrasias, pra sermos eufemísticos) e talvez o maior desafio seja rir deles, não só rir, mas zombar, zoar, ralhar, gozar, gargalhar. A mensagem deixada pelos artistas é que nisso aí reside um gesto sábio, e que releva a dimensão sagrada da palhaçaria.
Por Fernando Gasparini.

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