quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

De qual vício você conseguiu escapar?

"Inaptos..." Fotos: Celso Pereira
Me sinto inapto pra escrever qualquer coisa em torno dos vícios, eu, um viciado em tantas coisas inconfessáveis. Mas certamente alguns dos meus vícios, e dos seus também, foram revelados de uma forma particularmente escrota em “Inaptos – a que se destinam”, a nova peça do Grupo Teatro de Anônimo, apresentada ontem durante os Anjos do Picadeiro.
Quando se ouve falar em vício, as primeiras vozes que chegam é a da família e da repreensão. Temos o poder público e as instituições de saúde com discursos rigorosos, além de certas religiões relacionarem qualquer dependência química ou psíquica ao diabo. Por outro lado, há os poetas com defesas ensandecidas e às vezes espantosamente lúcidas do ópio, como Baudelaire; do tabaco, como Fernando Pessoa; e da vodca, como Bukowski.
Tamanha é a paixão despertada pelos vícios que é francamente difícil encontrar quem aborde o assunto sem chegar aos extremos da condenação indissolúvel ou da aceitação fatal. O que chama atenção nesse espetáculo é a construção de uma terceira via, um caminho do meio, ao revelar a humanidade do ser viciado e o seu consequente lado caricato, cômico, exagerado. Uma leitura inspirada no livro “Vícios não são crimes”, de Lysander Spooner, entre outros.
“Inaptos...”, dirigido por Adriana Schneider, não apresenta uma condescendência nem uma apologia aos vícios. Não acredito que ninguém saia dali com vontade de se drogar. Mas caso isso ocorra, também não seria de todo estranho. O fato é que os três palhaços, Fábio Freitas, João Carlos Artigos e Shirley Britto, metem o dedo na ferida, criando alegorias para os mais variados tipos de mau hábito: cigarro, maconha, cocaína, dieta, vídeo game, televisão, jogos de azar, traição, cirurgia plástica, punheta... de qual desses você conseguiu escapar?
Em muitos momentos, os palhaços soam melancólicos, desavisados. A iluminação, a trilha sonora e o cenário corroboram a ideia de algo nebuloso e sombrio no ar. Não é um espetáculo para morrer de rir, embora haja cenas impagáveis, em que qualquer adicto se identificaria, como por exemplo acender três cigarros de uma só vez ao lado de um não fumante ou cheirar uma imensa carreira de pó com um aspirador.
Por: Fernando Gasparini

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