sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Contra o monopólio do Cirque du Soleil


Entre outras premiações, as Noites de Parangolé de ontem, dentro da programação dos Anjos do Picadeiro, elegeram quem seria o palhaço mais polêmico do encontro. Primeira opção: Léo Bassi e a melancia. Segunda opção: Léo Bassi e o pato. Terceira opção: Léo Bassi e a cruz.

Benção ou maldição, a energia elétrica do espaço pifou justamente no momento em que se anunciava os concorrentes, levando a plateia, desvairada, a gritar: “Léo Bassi! Léo Bassi! Léo Bassi! Léo Bassi!” Se toda unanimidade é burra, e se errar é unânime, não tem mesmo pra ninguém: o bufão italiano é de longe o palhaço mais controverso do festival.

A aula que o artista ofereceu na manhã de ontem a cerca de 120 pessoas, no mesmo espaço onde ocorreu a pequena pane elétrica, apenas corroborou a dimensão política, transgressiva, utópica e revolucionária de seu trabalho, o que já virou motivo de piada entre os colegas. “O Léo Bassi vai me matar se vir tomando essa coca-cola”, disse Chacovachi durante o espetáculo de gala de rua, ocorrido ontem à tarde, na Praça XV, cuspindo fora o refrigerante símbolo do capitalismo.

Léo Bassi falando sério: o riso é a arma. Fotos: Celso Pereira

Foi de cara limpa que Léo Bassi recebeu seus “alunos”. Sem fazer muitas piadas, falando sério basicamente o tempo todo, o bufão criticou duramente o que chamou de “monopólio do Cirque du Soleil”. Como exemplo, citou o caso da palhaça Pepa Plana, que apresentou nos Anjos o espetáculo “L’Atzar”, e que, conforme o bufão, vai integrar em breve o maior – e único – circo do mundo.

Bassi destacou o trabalho singular de Pepa e o seu humor peculiarmente feminino. Ainda lembrou que mulheres de nariz vermelho eram coisa rara até poucas décadas. Considerando a legitimidade do artista de trabalhar aonde quiser, afinal precisamos de dinheiro para pagar as contas, o bufão lamentou, contudo, que os traços peculiares da palhaça vão se perder diante da linguagem homogênea / uniforme do Cirque du Soleil.

Independência

Não é um caso isolado. O grande circo de Moscou, que recebera altos investimentos do poder comunista e que passou por maus bocados na década de 1990, agora está financeiramente a salvo pela mesma multinacional. Assim é com dezenas de outros circos espalhados mundo afora. 

“Se você vai na África e fala sobre circo com uma criança, ela imediatamente lembra do Soleil. Nunca na história existiu um monopólio mundial do circo”, comentou Bassi. Isso é desafiador para o artista que insiste em manter uma linguagem própria e independente, questionadora do poder instituído. “Esse é um momento único. Mais do que nunca a gente precisa procurar e manter o nosso público”, afirmou, reiterando que a piada e a ironia são armas contra a opressão.

Daí a necessidade do artista estar atento e observar as demandas que as pessoas e a ocasião oferecem. O bufão relembrou quando criou o seu conhecido número de hipnose, depois que uma apresentação no circo de Moscou praticamente não deu quórum por conta de um pretenso hipnotizador recém-chegado à cidade.  O “concorrente” estava lotando os teatros com números de hipnose que surpreendiam as pessoas mas que eram claramente combinados. A solução: Léo Bassi arrumou uns quatro ou cinco atores, fez o número de hipnose na rua, encantou a todos e depois revelou a farsa. Resultado: casa cheia nos seus espetáculos.

“Se a gente não correr atrás do nosso público daqui a pouco vai ser mais interessante [para o empresário] patrocinar o Cirque de Soleil do que os Anjos do Picadeiro. O público é o maior aliado para nossa sobrevivência”, defendeu.

E ainda chamou atenção para o que viu durante a Palhaceta, oportunidade de envolvimento direto com as pessoas nas ruas. O lado positivo foi a confraternização entre os narizes. Mas, por outro lado, a menos de 50 metros da manifestação, os transeuntes nem se ligavam no que estava acontecendo. Isto é, os palhaços se divertiram entre si, mas se esqueceram que o objetivo maior era seduzir o povo na rua.

É evidente que os Anjos do Picadeiro são uma resistência provocadora para as ordens morais vigentes e se mantêm como um espaço de liberdade de ação e reflexão. A autocrítica feita por Bassi (afinal, ele também divide com o festival o mesmo desejo) nos deixa de orelha em pé e nos leva a focar na tarefa primordial: angariar novos públicos e consequentemente, novas formas de autofinanciamento. Uma solução que só pode ser encontrada coletivamente.

Por Fernando Gasparini.

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