terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Como assassinar pombos e ser poético

É a vida que está além da arte o que interessa. E o bufão italiano Léo Bassi descobriu sua vocação para o ofício aos sete anos, na medida em que foi acometido de um ódio mortal por pombos, aos quais tinha de alimentar, como uma obrigação de infância, todos os domingos com a família na praça de Milão. Amarrar um rojão nos pombos, explodi-los, assassiná-los. Eis a alternativa encontrada para se vingar daquela suposta tranquilidade, daquele inquietante silêncio que a ordem, em suas microestruturas cotidianas, tenta nos impor. 


Léo Bassi: uma doçura. Foto: Celso Pereira
Ser um provocador. Iniciada a carreira, há 53 anos, Léo Bassi traz ainda um sabor de novidade em seu já antigo espetáculo, “Instintos Ocultos”, que abriu com chave de ouro a décima edição dos Anjos do Picadeiros, um dos maiores encontros mundiais de palhaços, na noite dessa segunda-feira (05/12). Não foi preciso nenhuma manchete de jornal para o Teatro Nelson Rodrigues ficar abarrotado de gente, cerca de 350 pessoas. 

O jogo lançado pelo artista é aparentemente simples e direto. Ele mesmo avisa: “agora os pombos são o público”. Como o próprio título da peça sugere, a tarefa empreendida pelo bufão é despertar na plateia os sentimentos instintivos de medo, prazer e sadismo, isto é, uma tentativa de fazer com que nós vejamos o quanto há de crueldade em nós mesmos. 

Os recursos cênicos utilizados para isso são um capítulo a parte, herança de séculos de bufonaria da tradicional família Bassi. O espetáculo ainda nos leva a refletir sobre as estratégias usadas pelos donos do poder para manipular as massas, inserindo-lhes medo e, por consequência, paralisia. É o “medo que esteriliza os abraços”, como diria Drummond.

Se, por um lado, a dimensão política do trabalho de Léo Bassi já deixou empresários com um nó na garganta, por outro, é justamente por esse aspecto, por essa busca de liberdade, que o artista consegue arrebatar milhares de pessoas mundo afora. 

A poética do artista reside em revelar com graça e sarcasmo o labo obscuro e errôneo da alma humana. É possivelmente isso que o aproxima da genialidade, no sentido de passear entre a comédia bufanesca e a tragédia, unindo-as num só personagem. E para quem acha que falta doçura em sua peça, o bufão se lambuza praticamente nu com quatro litros de mel. 

Haveria ainda muito mais a se dizer. Mas, tomando novamente o poeta mineiro, “é preciso tirar da boca urgente / o canto rápido, ziguezagueante, rouco / feito da impureza do minuto” para registrar aqui as rápidas impressões de um espetáculo que certamente ficará por muito tempo na memória de quem assistiu. 

Resumo da ópera: arte se faz com provocação, com choque, com espanto! Que o digam os próximos espetáculos dos Anjos do Picadeiro que vêm pela frente.

Por: Fernando Gasparini

2 comentários:

Anônimo disse...

COMO É DIFÍCEL LIDAR COM OS INSTINTOS INFANTIS (MUITOS PERVERSOS EM DECORRÊNCIA DA BURRICE CULTURAL DOS PAIS), DEPOIS COM OS INSTINTOS TRANSFORMADOS EM DEMÔNIOS (COMO ANJOS CAIDOS) EM DECORRÊNCIA DA OPRESSÃO DA CULTURACA CADUCA MATERIALISTA, HIPÓCRITA E ALIENÍGINA DA REALIDADE, E DEPOIS DESTAS PROVAÇÕES TODAS, VIRAR UM "ANJO DOCE COMO UM MEL E BRANCO DE ASAS QUE VOAM POR SONHOS DE UM MUNDO MELHOR, MENOS MERDA! ESTE ITALIANO É FODA! ASSISTI 2 ESPETÁCULOS DELE E UMA PALESTRA SOBRE A HOLOCASTO DOS PALESTINOS. DE TÃO GRANDE QUE É ESTE CARA, EU, UM ANÃO EXISTENCIAL, POR ENQUANTO, SINTO INTIMIDADO PERANTE A SUA GRANDEZA...

Anônimo disse...

NÃO SE INTIMIDE! POTENCIALIZE-SE! ESSA É MENSAGEM DE LÉO BASSI E DOS VATES!