quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma comicidade latino-americana?

No Anjos de 2009, André Carreira participou da mesa "Matrizes latino-americanas da comicidade" juntamente a Oscar Zimmerman (Chile)Raquel Sokowocz (Argentina)e João Carlos Artigos. Aquela conversa resultou neste bonito texto que foi publicado na Revista Anjos do Picadeiro 2009|2010. Para quem ainda não tem a revista, aqui vai uma amostra dela:

Com a palavra, André Carreira, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC):


Este texto nasceu do diálogo estabelecido no contexto de uma mesa de discussão realizada durante o encontro Anjos do Picadeiro em Florianópolis, cujo propósito foi refletir sobre uma possível “comicidade latino-americana”. Naquela oportunidade nos perguntamos se existiria uma comicidade específica da América Latina e, se caso existisse tal comicidade, se seria possível identificá-la de forma clara e delimitando-a de modo a que isso nos ajudasse a compreender nosso trabalho criativo, propiciando a construção de um campo artístico relacionado ao humor.

Sabemos que nosso registro histórico dominante sempre teve como foco a tradição europeia. No que se refere à história do espetáculo isso é ainda mais claro pois, via de regra, nos esquecemos como a formulação das nossas falas cênicas são resultado das misturas de fontes, da justaposição de matrizes e referenciais.

Habitualmente, quando pensamos um teatro olhamos em primeiro lugar a Europa, pois fomos educados para observar as matrizes clássicas da Grécia como se fossem o único berço de nossa cena. A Poética de Aristóteles é nosso livro fundante, e parece que muitos ainda acalentam o desejo de encontrar alguma cópia perdida de A comédia, conforme sonhou Umberto Eco em O nome da rosa.

Então, neste contexto, e dialogando com um festival de palhaços, a pergunta pertinente seria: só podemos rir com a máscara da Europa?

Não há dúvida de que a cultura hegemônica europeia definiu o centro de nossas formas cênicas canônicas, mas é preciso observar que não podemos pensar que rimos e fazemos rir sem repercutir as tramas das culturas africanas e indígenas. Essas duas matrizes culturais – fundamentais na conformação do quadro cultural do continente – são pródigas em manifestações do riso.

Nas tribos do Alto Xingu rir é um hábito frequente. Ri-se de tudo, de um tropeção, de um estranho que chega, de um medo. A cultura afrodescendente também é dada ao riso e à diversão, sobretudo como forma de resistência. A gozação e as burlas sempre estiveram relacionadas às inversões simbólicas. Colocar o mundo de ponta cabeça e rir dos poderosos é um modo de conquistar espaços de liberdade.

Podemos constatar que como herdeiros de um mundo híbrido, feito do belo e do feio de três mundos que se relacionaram de forma complexa, não podemos rir apenas a partir de uma matriz cultural. Devemos pensar nosso riso, nossa comicidade, como resultado dessas fusões, por mais que reconheçamos a prevalência das formas eurocêntricas, e por mais que muitas vezes estas apareçam mimetizadas como repercussão de matrizes relacionadas a um imaginário coletivo ancestral.

Sempre estudamos a comicidade de Aristófanes, de Menandro, de Plauto; nos debruçamos sobre os canovacci da Commedia dell’Arte, sobre os textos de Molière e de Shakespeare; nos espelhamos nos joglares, nos palhaços dos tempos do circo de Philip Astley, nos cômicos do cinema mudo como Charles Chaplin e Buster Keaton. Essas estão entre nossas referências fundamentais, mas devemos perceber que, como cultura edificada no processo da colônia, existimos como um tecido multifacetado, e por isso estamos obrigados sempre a pensar nossas falas artísticas como algo que resulta do diálogo entre os diversos vetores culturais que nos fazem ser o que somos.

Empreender essa tarefa não significa apenas contemplar a diversidade, mas, sobretudo, representa a possibilidade de entrar em contato com o que concretamente encontramos no nosso dia a dia de artistas. Perceber a multiplicidade das referências é também descobrir as vias de aproximação com potenciais novas formas de construção de comicidade.

Nesta discussão consideramos o universo da América Latina como um espaço cultural particular, ainda que não homogêneo, onde não se pode identificar uma matriz única. Cada país ou região desse vasto continente que se define principalmente como território linguístico constitui um universo particular, ainda que estes guardem relações estreitas entre si. Mesmo quando pensamos apenas no Brasil, sabemos que aqui convivem modos, formas e ambientes criativos muito variados, o que dificulta o estabelecimento de uma identidade bem delimitada.

Temos um palhaço, um cômico, um entreteneur, um clown que caracteriza nosso continente cultural? Obviamente não. Somos muito diversos. Mas isso não implica dizer que não nos reconheçamos fazendo humor, ou que não possamos construir um humor, um riso, que nos aproxime como zona cultural.

Percebemos a América Latina como um território que sempre se definiu como subalterno e por isso mesmo como resistente, ou pelo menos propenso a resistir. E isso nos faz valorizar a busca de uma identidade latino-americana. Mas, resistimos? Resistimos a quê? Nosso riso emergiria dessa condição de resistentes, ou da condição de subalternidade? Talvez ter respostas pontuais a estas questões seja menos importante do que considerar que há elementos de identificação quando falamos de América Latina e que isso já significa propor encontros e compartilhamentos de experiências.

Uma tarefa pendente para aqueles que trabalham com o humor é aprofundar a reflexão sobre as formas de produzir riso que permeiam nossas matrizes culturais de modo que possamos estabelecer um ambiente de diversidade. Isso também representa um desafio no que se refere a perceber como as diferentes minorias culturais e de gênero interferem nos padrões hegemônicos, deformando e redefinindo esses referenciais. Precisamos ler aquilo que vem da nossa tradição europeia com um olhar crítico e dar visibilidade ao riso de todos os que fazemos parte dessa vasta e complexa rede cultural que é a América Latina.

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