sábado, 28 de novembro de 2009

Pudicos e Devassos, ou "o palhaço é um poeta que é também um orangotango".*



A organização do anjos está de parabéns pela sensibilidade de colocar Avner e Loco Brusca a se apresentar na mesma noite. A princípio vindos de universos completamente diferentes (para começar, um americano e um argentino), e com humores também distintos, os dois excêntricos estão ligados pela apresentação de um universo cênico e pessoal, pós humano, mediado pelo trabalho intenso com os elementos de seus espetáculos.

Avner trabalha com calma, escuta, inocência, leveza, aproveita cada uma das qualidades dos objetos que apresenta, que todo o tempo lhe trazem problemas com a gravidade (chapéu que cai, cigarros, copos...).
Loco Brusca violentamente desfila um certame de personagens para contar uma história trash com mortes, agulhas enfiadas no olho, braços e cabeças perdidas e motoristas de ônibus drogados.
Se por um lado o meigo Avner desfila seu humor inocente, cuidadoso, contido, limpo e em confronto com a não estabilidade das coisas, por outro lado temos um Loco Brusca agressivo, excessivo, suado e esquizofrênico, com uma turma de personagens que lhe ultrapassa, e até um iluminador que não sabia onde iluminar corretamente devido ao frenesi das imagens. Talvez não seja tão inocente a morte de todos os personagens no final (e o próprio Loco, provavelmente, encontra-se também esgotado).
Loco Brusca vai muito alem do que pode um corpo, e aqui evocamos o esgotamento inspirado em Beckett como um dos inícios do ato de criação. Loco enfrenta um trabalho violento em seus espetáculos, lutando com os personagens que seu corpo cede espaço para desenhar. Assim como Avner que cede seu corpo para desenhar toda a ilusão que cria no espaço, toda a busca por ultrapassar o cotidiano e nos colocar diante de algo que já não podemos dizer que ainda são pessoas...

Avner no trabalho ao extremo do possível em relação com a gravidade. Loco no enfrentamento dos personagens que o desafiam (o homem esquizofrênico).
Ambos com a traição de si, especificidade do palhaço que luta com um mundo muito maior do que ele... Duas possibilidades de ultrapassagem do meramente humano.
Isso ainda são pessoas?

Como resultado, espetáculos de um vigor artístico surpreendente. Impossível sair de algo assim sem receber o baque da visão ao vivo desse tipo de confronto estético.


Juliana Dorneles
* a clown is a poet who is also an oragotangus (Steve Lindsay)

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