segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Palhaços de Campinas invadem ‘clownferência’


Palhaços e pesquisadora de Campinas integram a oitava edição do Anjos do Picadeiro em Florianópolis
Escrito por Tiago Gonçalves para
o Caderno C, do Correio Popular
(Campinas/SP)
Zabobrim está de malas prontas. Não só ele, como também Jasmim, Tanguito e Espaguete. Com hora certa para viajar, esse quarteto da graça já fez a escolha do melhor nariz vermelho a ser usado, lustrou os sapatos de bico avantajado e lavou dois ou três pares de meias multicoloridas. Na cuca, os quatro levam números circenses de deixar qualquer homem sisudo com cara de menino arteiro. Anjos do picadeiro que são, rumam entre nuvens brancas ou em meio à poeira da estrada a Florianópolis. No Litoral de Santa Catarina, integram a oitava edição do Anjos do Picadeiro — Encontro Internacional e Nacional de Palhaços, que começa nesta segunda-feira (23) e se estende até 29/11.

Não dá para falar de Anjos do Picadeiro sem gargalhadas, como não tem jeito de mencionar essa “clownferência” sem a participação de palhaços radicados em Campinas. Em todas as edições, a palhaçaria campineira foi bem representada. Alguns nomes são carimbados no passaporte da graça: Esio Magalhães (Zabobrim), Lily Curcio (Jasmim) e Abel Saavedra (Tanguito). Há quem vai pela primeira vez: Joel de Oliveira (Espaguete); como existem clowns que já foram: os do Lume Teatro. E tem até quem não faz palhaçada, mas pensa o palhaço de forma séria: Erminia Silva, doutora em história e autora do livro Circo-teatro: Benjamin de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil.

Nessa oitava edição, além do quinteto campineiro, o “clownselho” de palhaços recebe figuras do picadeiro como Bebé, Biriba, Biribinha e Serelepe; das ruas entre os quais o argentino Chacovachi; e do teatro: o norte-americano Avner Eisenberg e sua mulher, Julie Goell. Isso sem mencionar a clown suíça Gardi Hutter e Loco Brusca, radicado na Espanha.

Na cola dessa trupe, a convite do Teatro de Anônimo do Rio de Janeiro, organizador do evento; a reportagem do Caderno C desembarca em Florianópolis para a cobertura do Anjos do Picadeiro 8. A missão de transformar as pilhérias dos clowns em textos poderá ser conferida diariamente no Correio e no CosmoBlog durante os dias de “clownferência”. Ou melhor, de palhaçadas.

ON-LINE

Além das matérias publicadas no Caderno C , os interessados em acompanhar o cotidiano dos palhaços nacionais e internacionais em Anjos do Picadeiro 8, bem como as discussões sobre a arte clownesca, poderão acessar os blogs CosmoBlog (cosmo.uol.com.br) e Picadeiro Quente (picadeiroquente.blogspot.com); e o site Circonteúdo (www.circonteudo.com.br).
Antes mesmo das graças
Enquanto Jasmim e Tanguito esbanjavam irreverência com suas traquinagens, Lily Curcio e Abel Saavedra, os responsáveis por darem vida aos dois primeiros; atendiam ao telefone, traduziam texto e até mesmo serviam como motoristas. Foi desse jeito, se desdobrando dentro e fora da cena, que a dupla de argentinos fundadores da companhia Seres de Luz Teatro atuou nas primeiras edições do Anjos do Picadeiro. “Colaborávamos em tudo”, lembra Lily. Dada a confiança de anos, os dois foram convidados a integrar em 2009 o Palhaçaria: rede de difusão da arte do clown, circuito de espetáculos que antecede o festival; com o duo A-la-pi-pe-tuá.

Sempre com uma história de antigos Anjos na ponta da língua, Lily antecipa o número que executará ao lado de Abel na Noite de Gala do festival (sábado, às 20h), que será dirigida pelo mímico Álvaro Assad do carioca Centro Teatral e Etc e Tal. Trata-se de Spaghetti, cena cômica criada pelo ícone da palhaçaria italiana, o clown Nani Colombaioni. “Ele fez esse número a vida toda. Depois que morreu, nem mesmo o filho dele, Leris, chegou a executar. Hospedado em casa, Leris nos deu Spaghetti de presente.”


Clown com carteirinha carimbada
Se existem ratos de bibliotecas, também há ratos de Anjos do Picadeiro. Um deles é o Palhaço Zabobrim, criação de Esio Magalhães, do Barracão Teatro. Participou de todas as edições como convidado, sejam com números (O Pintor e O Homem Mais Forte do Mundo), espetáculos (WWW para Freedom e A Julieta e o Romeu) ou como professor (oficina O palhaço o que é?). Antes de Zabobrim chegar a Florianópolis, Esio percorre cidades como Blumenau, Brusque e Rio do Sul com Circo do Só Eu, espetáculo escolhido para integrar a Palhaçaria.

Para a Noite de Gala, Zabobrim guarda três números na manga: O Homem Mais Forte do Mundo, Verdadeira Mágica (estrelado ao lado da palhaça Claudia Zucheratto, mas que no Anjos contará com a participação de outra clown, caso seja escolhido) e Um Brinde ao Público, fragmento do espetáculo A Marvada Calombina. O último, um dos mais cotados, Zabobrim embriagado revela seus amores e ódios por uma bicicleta cor-de-rosa de nome Calombina. “Em São Paulo brindo com cachaça, em Floripa ainda não sei...”, brinca Magalhães.


De espectador à atração
O desbaratinado Palhaço Espaguete, vivido pelo ator Joel de Oliveira, aterrissou no Anjos do Picadeiro 3 como aprendiz. De tanto ouvir falar do festival, resolveu participar do encontro por meio de uma oficina ministrada pelo inglês Bim Mason. Ainda aproveitou a estada no Rio de Janeiro, sede da terceira edição, para assistir aos clowns internacionais Leo Bassi e Chacovachi. “Foi um divisor de águas. Foi um refresco para mim. Pude perceber o quanto é rica a expressividade do palhaço”, diz Oliveira.

Cinco edições posteriores, Espaguete volta ao encontro como artista convidado. Está feliz da vida. No ano passado, tinha participado por acaso de uma roda com o Palhaço Biancorino de Salvador, mas se apresentar sozinho tem outro peso. “É uma alegria grande estar lá entre os grandes.” Para o festival, preparou o número Golfe (Que esporte é esse?), podendo ser apresentado tanto na rua quanto numa sala. “Espaguete chega para jogar, mas não consegue. Nisso, ele convida a plateia para ajudá-lo. Com a participação do público passa a criar outro jogo.”


Palhaçada é coisa séria
Na infância, apesar de pertencer à quarta geração de família circense, Erminia Silva não quis saber das cambalhotas, nem tampouco ser palhaça. Décadas se passaram e, desde 1985, Mina, assim tratada pelos circenses mais próximos, dedica-se a pesquisar com afinco o circo. Das oito edições do Anjos do Picadeiro, participou de cinco. Em todas elas, conduziu mesas de discussões, e, nas quatro últimas, colaborou como comentarista do blog Picadeiro Quente e articulista das revistas anuais do encontro.

Sua permanência em Florianópolis terá mais uma vez a função de mediar e discursar sobre a arte dos seus antepassados. Ao lado de André Carreira (Santa Catarina), Oscar Zimmerman (Chile) e João Carlos Artigos (Rio de Janeiro); falará sobre circo-teatro dentro do tema Matrizes Latino-americanas da Comicidade. Ainda conduzirá o Encontro da Tradição, composto por convidados de peso como os palhaços Bebé, Serelepe, Biribinha e Biriba. “Essas discussões são muito importantes porque pautam o restante dos debates posteriores sobre circo no Brasil. Servem como multiplicadoras”, avalia a pesquisadora.

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