quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Depois do Biriba


No segundo dia do Seminário de Comicidade, depois da apresentação sobre os documentários que realizamos com o Teatro Biriba, o Sebastião, colega de Itajaí, me perguntou sobre as possíveis mudanças que o encontro com o Biriba causou em mim.

Confesso que fui pego de surpresa por essa questão, que há muito já vinha martelando na minha cabeça. Na hora da resposta, não me lembro direito, mas certamente desfiei alguma sequência de clichês sobre a nobreza da arte do circo-teatro, evidentemente desprovida de algum valor concreto.
Não possuo a fórmula certeira que resulte em um panorama comparativo da minha pessoa e do meu trabalho antes e depois do Biriba, muito menos alguma teoria formada que possa servir de parâmetro para atores interessados em se relacionar com o circo-teatro e dele apreender técnica e procedimentos poéticos que possam ser aplicados ao seu trabalho pessoal.
Tudo que eu falo sobre a experiência, que não esteja no âmbito da linguagem fílmica documental, tende a soar abstrato e metafórico, talvez romântico e apaixonado demais para os limites de um seminário de pesquisa.
Mas o fato é que essa aproximação com a Família Passos, e com o trabalho das duas companhias-irmãs que levam o nome Biriba em Santa Catarina, me muda, a cada novo encontro, por completo.
Faz-me entender e respeitar a tradição, e me envolve em memórias, imagens, falas, textos guardados em um velho baú cheio de histórias prontas para serem recontadas. Esse mergulho historiográfico me conecta com uma longa linhagem de artistas admiráveis e deles aprendo sobre o ofício.
Ajuda-me a estabelecer com o público uma forma direta e afetuosa de comunicação e esperar dele a resposta mais sincera.
Em cena me faz repensar os modelos formais de interpretação e a recuperar certo grau de liberdade expressiva, inventar uma presença ao mesmo tempo profunda e ingênua. Leva-me a ser de novo um jogador e um brincante e redescobrir a alegria do palco e o prazer perigoso do improviso.
Em termos estéticos, posso dizer que o encontro me faz ainda adquirir repertório de gêneros populares, que todo o tempo releio nas encenações que crio, me ajudando a moldar um estilo, destilar poéticas, definir algum caminho autoral, ainda em formação.
Também me ensina a empreender, tomar conta de mim, buscar viver da arte a que me propus, pois não há beleza maior que a dignidade do trabalho desses artistas.
Por fim torna-me um ator mais alegre. Possivelmente um ser humano mais feliz.

Depois da inesquecível apresentação de Biribinha Contra o Monstro de Frankenstein, escrevi:
Quando o palhaço sobe ao palco o jogo é alucinado, febril. Sinto soprar ao seu redor um vento que é graça e liberdade. Sob a lona da trupe andante reencontro uma certa ligação ancestral que une a nós atores numa tradição tão antiga quanto o ofício: a de não pertencer a lugar algum.
A opção radical pelo risco de ser artista.
Renato Turnes

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