segunda-feira, 27 de abril de 2009

Alice Viveiros de Castro entrevista Kuxixo

Nesta entrevista você poderá entrar na intimidade de Hudson Rocha, o palhaço Kuxixo, que conta como começou, relembrando aí o trabalho no circo-família e como foi construindo seu estilo sempre em busca de autenticidade. Alice Viveiros de Castro, conhecedora da trajetória de Kuxixo, soube dar o tom de conversa à entrevista concedida na sétima edição do Anjos do Picadeiro, no Rio de Janeiro.
Confira!


Alice - Kuxixo, de onde vem este nome?

Kuxixo - Eu sou quinta geração circense da minha família. O circo no Brasil começou como circo teatro, então a minha família é do circo-teatro. O meu avô, vovô Pirulito, não é meu avô de verdade, mas acabou por criar minha mãe, que chegou no circo aos 6 anos e saiu com 21 para se casar com meu pai. Então o vovô que eu tive foi ele. Tinha uma peça no circo que se chamava Rosa e a nossa Senhora e ele fazia o cômico da peça. Ele usava uma peruca que era em pé, cabelo todinho em pé. Cada vez que ele entrava, fazia a gag dele, todo mundo falava: “você só fala bobagem, vai procurar o Kuxixo”. O Kuxixo era um burro, só que esse burro nunca aparecia, então ele falava: “que que é isso?” “Vai trabalhar vagabundo! Vai procurar o Kuxixo”, era a resposta. Então vinha o arremate: “tudo eu”, “tudo eu”. “Ô Kuxixo, ô Kuxixo!” e saía chamando... Quando nasci, minha mãe ficou três dias desacordada e quando me viu pela primeira vez, eu tinha o cabelo igual à peruca do vovô Pirulito. Ela olhou pra minha cara e falou “ô Kuxixo!” História de palhaço...

Alice - Teu pai tem uma história engraçada também, porque ele diz que não é palhaço, que é cômico...

Kuxixo - Caipira! O estilo dele é aquela coisa do antigo, hoje em dia a gente fala o nome dele com o adjetivo: Fedegoso Palhaço Caipira. Foi difícil, ele aceitou, não se convenceu. Mas hoje em dia ele deixa a gente chamar assim.

Alice - Como você tem toda essa relação de tradição de comicidade, fala um pouco dos nomes. Eu lembro que quando comecei a entrar mesmo na área de circo, já há vinte e tantos anos, aprendi algumas coisas. Por exemplo, chegava um pessoal no canto e dizia “não fala corda-bamba”, no circo ninguém usa “corda-bamba”: é arame! Não se fala palhaço. Se o cara chegar no circo pedindo emprego e disser que é palhaço, ninguém dá. Tem que dizer “eu sou cômico”. Então, essas nuances estão claras na fala sobre seu pai. O que é comediante, o que é cômico? Fala pra gente um pouco de como você vê isso.

Kuxixo - Criou-se já há muito tempo, esse negócio do clown e de palhaço, que eu acho uma idiotice. Em uma oficina de palhaço, aí do nada, um aluno falou: “qual é a diferença do clown e do palhaço?” Isso me irrita um pouco. “Você fala inglês?” perguntei e ele respondeu que não. Minha pergunta seguinte foi: “como se fala clown em português?” “Palhaço”. Então acabou! Cada um tem seu tempo e seu estilo. Dentro de um circo, mesmo ele não sendo, vamos dizer, um clown, recebe o nome de clown para um palhaço mais teatral. Mesmo se dentro do circo seja palhaço, existem vários tipos de comicidade e de estilo. O meu pai pende para o humorista caipira, meu avô Pirulito era palhaço, com um estilo mais ingênuo. O seu Aleixo Remelexo Vicente Corrêa entrava com seu: “Agora vem aí a alegria do circo, um humorista diferente Aleixo, Remelexo, balança o seixo e entorta os eixos”. Ele era negro, a maquiagem era umas pintinhas brancas, só que tinha umas pintinhas pretas também, e ele não entrava se não fizessem as pintinhas pretas. Meu pai falava: “Vamos Aleixo!” E ele: “Calma que falta um detalhe, as pintinhas pretas.” E o meu pai enchia o saco dele: “Quem é que vai ver?” “Eu mesmo”, ele respondia. Era mais malandro. E cada um também tinha um tempo de trabalho, um tempo pra comédia. Mas se alguém perguntava: “Quem é o palhaço do circo?” Dizia-se: “O cômico da companhia é tal”. Usava-se o palhaço do circo, mas se complementava, emendando: “O cômico da companhia é tal”.

Alice - Você acha que o estilo é pessoal ou não é, por exemplo, da Companhia, do tipo de repertório?

Kuxixo - Acho que é um conjunto de coisas. Eu tenho uma coisa que é minha. Até meus 18, 19 anos trabalhei com Ricardo, com o cômico. E sempre gostei do Chaplin, que tem esse parâmetro entre o circo e o teatro. Você ri com ele o tempo todo, só que todo o tempo ele é gracioso. Ser gracioso é ser diferente de ser engraçado. Eu já gostava muito dele e na minha família sempre teve a tradição do cômico acrobata, que é o estilo em que o palhaço faz tudo, tem que fazer um pouquinho de todos os números, tem que ter uma forma física boa e utilizar a acrobacia pra tudo. Então, meu pai mesmo, embora seja diferente o estilo dele, era acrobata. Ele era mais ou menos assim como o Mazzaropi. Imagina o Mazzaropi fazer, do nada, um mortal. Isso não era uma técnica que ele usava, mas era uma técnica que ele sabia e entregava na hora certa. Agora, pela família da minha mãe, sou descendente de Polydoro. E ele, como todo mundo sabe, entrou para o circo olímpico porque era ginasta e se tornou acrobata. O que tem uma pequena diferença... De acrobata ele se tornou palhaço, de palhaço ele se tornou ator... A geração do Polydoro começou a brilhar assim. Como venho do circo tradicional, existe uma coisa que é o “ir fazendo”. E no circo-teatro você que tem que fazer mesmo de tudo. Então, uma hora você faz o palhaço, outra hora você faz o galã. Você acaba aprendendo e utilizando isso. Se você faz o galã à noite, é uma coisa. Se você faz um galã na matiné, você é o príncipe, o Jerônimo, você é o Zorro. Então, você tem que saltar, tem que lutar. O circo-teatro é muito completo. Eu adoro circo de variedades, tanto é que esta foi a minha opção. Sou palhaço porque tenho a opção de usar minha técnica de atuar. Mas quando vou pra casa... Meu pai tem o circo na Prefeitura de Sorocaba. Na década de 60, o Circo Guaraciaba bagunçou Sorocaba. Tanto que quando o circo mudava de um lugar pro outro, a própria Prefeitura se encarregava de colocar uma linha de ônibus que deixava o povo na porta do circo. Quando o circo, se tivesse uma existência ainda, comemoraria 60 anos, a Prefeitura de Sorocaba montou um circo novo e deu o nome de Circo Guaraciaba, e meus pais estão trabalhando lá. Quando eu vou pra lá ainda participo dos espetáculos.

Alice - Você está falando uma coisa muito interessante, falando do circo-teatro. Essa relação do palhaço com o ator é muito importante. É verdade, o palhaço tem que ter um lado ator muito forte. E o que acho interessante no seu trabalho é misturar isso com a acrobacia, com a gag física, que é uma coisa que exige domínio da técnica e que você faz muito bem.

Kuxixo - Eu gosto da sutileza, só que tem que ter o contrapeso. Você precisa saber fazer tudo.

Alice - Quanto tempo tem o número que você faz agora no Beto Carrero?

Kuxixo - Depende. De uns dez anos pra cá, trabalho muito com essa coisa de buscar platéia. No Brasil, um dos primeiros a fazer isso, fui eu, adotar o apito pra tudo e trazer a platéia, que é diferente uma da outra. E o público de fora é muito diferente do brasileiro, que é engraçado, é faca de dois gumes. É a platéia mais calorosa que tem pra trabalhar, o que você faz agrada, e ao mesmo tempo, é muito exigente. Aqui você tem que ter começo, meio e fim; lá fora você não tem que necessariamente ter o final, e muitos não tem nem o começo. O palhaço entra, vai desenvolvendo, são palhaços muito bons, e o público começa a rir. Quando acaba, o cara vai olhando... e sai. Aqui não, aqui tem que ter começo, meio e fim e o final tem que ser paulada. Muita gente chega pra mim e fala: “você é palhaço? Conta uma piada”. Não é que palhaço não conte piada, mas a especialidade dele é fazer palhaçada. É colocar o chapéu, é fazer a cascata, fazer uma acrobacia, jogar malabares. Então, o palhaço não conta piada, ele faz piada...

Alice - É piada!

Kuxixo – Cair e levantar é uma coisa que ilustra perfeitamente o que é palhaço. Quando trabalhava no circo-teatro se falava baixo cômico, que é o humor menos sutil usado em peças na hora certa.

Alice - Tirando seu pai, quais palhaços você cita como influência na sua carreira?

Kuxixo - É difícil falar porque na família eu tive um monte de exemplos e ninguém se atrevia a fazer palhaço com a idade que eu fui fazer. Meu pai, que tinha um estilo muito diferente, o compadre do meu pai, tio Jaime, Chupeta, também foi uma influência, mas ele fez uma coisa que briga dentro de mim. Ele parou por achar que seu tempo tinha passado e que a platéia não conseguia mais acompanhar o modo de trabalho dele. É que o circo-teatro foi ficando cada vez mais marginalizado e, na sua atuação como palhaço o público não entendia o tempo dele, não chegava na piada que ele estava fazendo. Seu Aleixo, meu primo, que também tem um estilo bem diferente. Tio Pimpão, que é meu compadre. Acho que todo mundo já ouviu falar do italiano David. Acho muito bom, mas não porque é engraçado, ao meu ver ele é gracioso porque é técnico, ele sabe fazer a graça na hora certa e tem uma imaginação... Mas a minha referência e influência é Chupetinha: ele fala, ele cai, e nem é tão acrobático assim. E tem outro palhaço que eu adoro, ele já é acrobático, o Tintin. É chileno. Mas está aqui há muito tempo e é tão brasileiro. Antigamente os palhaços eram todos bons porque tinham que ser atores também, que saber o palhaço e ainda fazer dois números. Ele tinha que ter sempre algo a mais. Por isso que eu falo pra você, antigamente o ruim era o bom, os outros eram os melhores. Esses melhores não faziam só palhaço. E só palhaço, no circo-teatro, significa que ele canta, dança, sapateia, atua, faz um monte de coisas. Já no circo de variedades, você tem que ter o seu número e fazer o palhaço, ou então sua mulher entra pra dançar no palco... O Chupetinha, desde que eu conheço, era só palhaço...

Alice - Ele valorizou o palhaço profissionalmente...

Kuxixo - Ele mostrou o que era e foi valorizado, porque quando apareceu já era uma época em que o palhaço tinha decaído.

Alice - Era difícil você ver um número de palhaços, só entradas...

Kuxixo - Você podia fechar os olhos e ouvir: todos estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Eram reprises de gags, o palhaço entrava, trepava, sentava na cadeira e caía. Ele era o enchedor de lingüiça... Que são necessários e podem ser bons. De repente, quando ele apareceu, mostrou que podia ser valorizado só como palhaço. Porque no circo o palhaço pode ter o mesmo valor que o globista, que o domador, que o elefante... Adoro ele.

Alice - Os bons palhaços acabam sendo únicos, você pode ver o Biriba, o Biribinha, o Chupetinha, com a mesma reprise, e a graça é você ver como cada um tem seu tempo pra desenvolver uma coisa nova no número. Um usa um jeito de falar, uma voz diferente, cada um faz de um jeito. Mas se você simplesmente se acomoda, simplesmente quiser fazer um esquete que vai agradar, agrada, mas não marca, não fica.

Kuxixo - Não pode faltar ao palhaço a identidade. O elo entre os palhaços hoje é muito maior que o antigo, é que o antigo era muito mais forte, era difícil de ser quebrado. E o palhaço buscava alguma coisa nova a partir do aprendizado que vinha com os antigos, mesmo dentro da família. Antigamente demorava pra você ser palhaço e mais ainda pra ser reconhecido. Hoje, a gente começa cada vez mais cedo e tem muita informação. Agora, no final das contas, quem vai definir se o trabalho está correto, por mais que tenha críticos, é você mesmo. E procurando a sua verdade, o palhaço encontra autenticidade.

2 comentários:

Pacho disse...

Parabéns pela entrevista, mto boa!!

Pacho
http://palhacaria.blogspot.com/

Alex Nunes disse...

Parabéns pela entrevista ,o Kuxixo apresentou um pouco da origem desta espetacular figura cômica e a tradição do circo.Sou fã