terça-feira, 3 de março de 2009

Sérgio Machado entrevista Tchesco, o sensacional


Sérgio: Meu sonho é andar de sunga, com um cartão de crédito.
Tchesco: Ilimitado...

Sérgio - É um prazer inenarrável estar aqui entrevistando hoje um grande amigo e um excepcional palhaço. Um dos poucos palhaços que me faz rolar no chão de rir. Um palhaço que tinha tudo pra ser ruim, mas é um dos melhores palhaços que conheço, que é o meu grande amigo Tchesco. Uma piadinha, logo de cara?
Tchesco - Você sabe por que tem cama elástica no Pólo Norte?
Sérgio - ?
Tchesco - Pro “urso polar”.

Sérgio - Tchesco, fala um pouco da tua origem, do teu nome...
Tchesco - Bem, tudo começou quando eu tinha três anos de idade. Eu era um menino pobre que morava na favela e o meu brinquedo era o meu corpo. Dava cambalhotas, era meio louco, pulava de cima do muro... E eu queria mais, sempre almejava fazer mais acrobacias, cada vez com maior grau de dificuldade. Até que um dia, eu conheci um artista de rua chamado Tigre, que fazia show na Cinelândia. Bateu uma afinidade com ele e a gente começou a fazer shows juntos. E logo em seguida eu conheci o mestre Aporine e o mestre Mestiço que eram acrobatas, faziam kung-fu na rua. E eu ficava enlouquecido com as acrobacias que eles faziam e fiquei freqüentando, uma hora pegava uma aguinha, levava uma bolsa pra eles, e no finalzinho eu dava meus saltos, e ganhava um dinheirinho no final do dia. E um belo dia o Aporine me levou na Escola de Circo, na Praça da Bandeira, aqui no Rio de Janeiro. E eu fiquei encantado pelo mundo do circo. Vi as técnicas de acrobacia, como era a postura, o braço esticado. Porque eu saltava, mas não tinha a técnica. Eu tinha facilidade, mas não tinha a técnica. E quando fiz 17 anos optei por sair da rua e freqüentar a escola de circo, porém não consegui, porque eu não tinha nenhuma renda. Pra ganhar dinheiro era só fazendo show na rua. Durante o dia, da hora do almoço até à tarde eu ia pra Escola de circo e da tarde pra noite eu fazia roda na rua. E aí fui fazendo Escola de circo, frequentei quatro anos, fiz o curso completo. Eu tinha um número aéreo muito legal, com duas assistentes. Quando faltava um ano pra terminar a escola, uma casou e outra foi trabalhar numa empresa e aí eu fiquei sozinho, foi aí que me dediquei mais ao palhaço. Até então eu levava o palhaço só como um esporte, uma brincadeira. Aí eu descobri a minha veia cômica, que eu tinha essa afinidade com o público, essa facilidade.

Sérgio - E hoje em dia como você diria que é o palhaço Tchesco?
Tchesco - Meu estilo é o tradicional, com maquiagem, roupa colorida. Porque pra criança o palhaço tem que parecer com um boneco. Não pode ser parecido com um ser humano. Meu palhaço é um acrobata que entra dando aquele duplo salto mortal, só que em vez de ser bonito e elegante, é com as pernas arreganhadas, rindo, e às vezes até perdendo as calças no meio do salto. E esse é o palhaço da comédia física, com muitas topadas, caio de uma mesa...

Sérgio - Na Escola de circo você teve a oportunidade de trabalhar com vários mestres...
Tchesco - Meu grande professor de parada de cabeça foi o Abelardo Pinto, que era sobrinho do grande palhaço Piollin, que era também Abelardo Pinto. O nome dele, na verdade, é uma homenagem ao tio. Eu tinha uma deficiência visual, e aí ele descobriu que eu tinha um equilíbrio, não era flexível, mas tinha muita força. Eu aprendi a parada de cabeça e subo uma escada com a cabeça, sem as mãos. Ele que descobriu que eu tinha essa facilidade. O biotipo nordestino, cabecinha chata... (risos)

Sérgio - O que é bom pro número...
Tchesco - E aí eu aproveitei isso. Quer saber como eu usei a primeira maquiagem?

Sérgio - Fala aí.
Tchesco - Foi no Circo Bartolo, do seu Walter Bartolo. Tinha um palhaço chileno chamado Guarapiti, pai de dois palhaços muito famosos, o Tin tin e o Peluca. Ele foi a primeira pessoa que pediu pra eu usar uma maquiagem adequada com o meu rosto. Porque nas minhas brincadeiras eu emitia muito som e ele achava isso interessante: “poxa, você tem que usar uma maquiagem que destaque e não que esconda seu rosto. Porque na verdade não é para você se esconder atrás da máscara, e sim pra aparecer na frente da máscara.” E esse palhaço eu devo a ele, que descobriu o desenho certo pro meu rosto.

Sérgio - E o figurino?
Tchesco - Toda roupa do palhaço acrobata tem que ser larga e ter bolso, porque a gente tem que ter uma piadinha no bolso. Deu alguma coisa errada no espetáculo, no circo tradicional, o palhaço entra e tira o veneno, porque o espetáculo não pode parar. Se, numa cena, um artista cai ou acontece um problema técnico, a gente vai lá e dá o recado. O palhaço tem que tirar proveito. Ele entra com a cadeira, olha pra um lado, olha pro outro, faz uma parada de mão na cadeira, deixa cair o chapéu, quando vai pegar o chapéu, cai de cara na cadeira, finge que bateu com a boca, deixa cair os dentes... depois faz de novo e consegue, e aí ele ganha uns aplausos do público. Isso toma tempo e ajuda a técnica a consertar o que deu errado.

Sérgio - E como é o teu processo de criação?
Tchesco - Eu tento aprender com a influência de outros palhaços. E gosto muito do Alex Popov, um palhaço russo que tem um ditado muito bonito: “fazer o difícil parecer fácil.” E ele atua até hoje, é muito criativo, faz números divertidos... como ele diz: “o palhaço não trabalha, se diverte”.

Sérgio - Engraçado você falar isso, porque eu trabalho com uma outra idéia que é meio contrária a sua. Como eu não tenho essas habilidades, eu procuro fazer o “fácil parecer difícil”.
Tchesco - Eu gosto muito também de um palhaço alemão: Kroke.

Sérgio - Não é Gropi, não?
Tchesco - Kroke. Quando ele entrava, falava: “Jack Jack”. Tinha um trejeito muito engraçado. Porque naquela época os políticos davam bastante ênfase aos seus discursos e o Kroke fazia comédia em cima disso... e por felicidade tem um site na internet que tem as coisas dele.

Sérgio - Kroke. Preciso conhecer esse cara. Aproveita então, já que você falou disso, pra falar um pouco dessa tua experiência na Europa. Mas eu ainda queria saber sobre o seu processo de criação: como você prepara um número? A idéia vem e você sai preparando?
Tchesco - Como trabalho em cima da comédia física, é bem físico mesmo. Sempre começo um espetáculo com o que tenho de mais interessante visualmente. Chego numa platéia e tenho que ter o primeiro contato com o movimento. Geralmente uso a acrobacia, mas quando entro com o malabarismo, com dança e música, faço uma atmosfera legal e o público já parte pro meu lado. Por exemplo, você falou da Europa e do Brasil. Lá na Europa tenho que receber o público antes de começar o espetáculo, se não eu não aconteço. Direto, pra mim, não funciona. Tenho que estar na platéia, na porta principal recebendo o público. Já entro fazendo umas gags, uns trejeitos, e isso dá uma atmosfera legal, depois vou pro palco. Já no Brasil e aqui na “sudamérica”, em geral, faço um malabarismo, entro saltando, e já pego logo a platéia pra mim. É interessante isso.

Sérgio - Aproveita esse embalo e fala um pouco dessa tua experiência na Europa, na América.
Tchesco - Eu me formei em 1990 na Escola Nacional de Circo. Fui trabalhar num circo em Niterói, aqui no Rio. E tinha um empresário alemão vendo o espetáculo. Ele foi conversar comigo e foi até engraçado, porque eu não falava nenhuma língua na época. Ele chegou falando engraçado. Passou um tempo, ele voltou com um contrato e marcou minha viagem pro ano seguinte. Em 93 eu viajei, e daí por diante fui viajando 11 anos consecutivos. Trabalhei em 14 países, 9 parques de diversões. Trabalhei no Ringling Bross, no Estados Unidos, o maior circo do mundo. Fui o primeiro palhaço brasileiro a trabalhar lá. E continuei minha carreira, fiz eventos, filmes, festas. Sempre que tinha algum trabalho que precisava de acrobacias, como sou um palhaço acrobata em atividades ainda...

Sérgio - Conta uma história curiosa aí pra gente. Você já me contou tantas e são tão interessantes. A mais engraçada, inusitada, alguma confusão.
Tchesco - Tem várias. Por exemplo, no Rio de Janeiro teve um espetáculo, terminava muito tarde, nessa época eu ainda morava na favela, Parada de Lucas, e era muito perigoso. Tudo bem, fui entrando assim na favela, com a minha bolsinha, civil, a paisano. Tinha uma patrulhinha atrás do muro. Quando eu passei, eles: “pára aí, pára aí, vem cá, vem cá”. Fui, sou morador, tinha que passar por ali... “abre a bolsa, abre a bolsa”. Forte pra caramba. Eu, assim, olhando, abri a bolsa. Aí ele começou a mexer nas minhas coisas de palhaço, viu colorido, brilho, virou pra mim e falou: “muito bonito, né travesti, chegando da batalha?!” Eu: “não, não. Sou palhaço!” “Que é, tá me chamando de palhaço? Vai embora seu sem vergonha!” Nem respondi muito, fui embora. Quando eu entro na favela, os meninos viram a polícia e começaram a atirar. Eu voltei correndo e nisso os policiais viram os meninos atirando e pensaram que eu era um dos meninos e atiraram. Eu me escondi atrás de uma pilastra... Foi um momento divertido que já virou parte da minha vida, mas por um bom tempo... Graças a Deus, depois que eu viajei pra Alemanha, e comendo miojo um ano, consegui comprar uma casa. Mas foi uma época boa também na favela.

Sérgio - Você já trabalhou em vários circos?
Tchesco - Trabalhei com a família Bartolo, no Torricely, no Reality Circus, no Sul...

Sérgio - Sempre por temporadas?
Tchesco - Por temporadas e parques de diversões.

Sérgio - Conheceu muitos “mefiés”.
Tchesco - O que é “mefié”? (Risos).

Sérgio - Eu perguntei isso...
Tchesco - No circo tradicional, eles chamam mefié de mestre de chicote e eu trabalhei com bastantes. Com grande Avelino, que trocava de roupa três vezes cada número. Ele tinha em média umas 20 a 30 peças de roupa dentro do mesmo espetáculo.

Sérgio - Quem foi a figura com quem você mais trabalhou?
Tchesco - Eu rodei muito, rodei bastante. Trabalhei em circo pequeno, em circo grande, em circo que recebia, circo que não recebia...

Sérgio - Eu queria que você falasse um pouquinho da sua relação com o Anjos do Picadeiro.
Tchesco - Conheci a galera na Escola de Circo. Márcio, Regina, Angélica, João, Shirley. E eles tinham disposição. Naquela época eram casca grossa, caíam dentro do ensaio, saíam pingando. Aí a gente fez amizade, depois eu vi as meninas na Suécia. Trabalhei uns cinco anos na Suécia. E, desde o primeiro encontro, sempre participo do Anjos, graças a Deus sempre me convidam...

Sérgio - Como é ser um palhaço no mundo louco de hoje?
Tchesco - Hoje em dia temos mais oportunidades de trabalho, mas a concorrência também é muito maior e a gente tinha mais platéias antigamente. Muitos estrangeiros estão vindo pro Brasil. Acredito que a gente vai ter bons palhaços no futuro, porque a galera está se entregando de corpo e alma mesmo. A pessoa hoje em dia não quer ficar só na festinha de aniversário, ela quer o palco. O Rio de Janeiro ainda está se preparando pra dar essa estrutura, mas no Sul já acontece bastante espetáculo de rua, no Nordeste também.

Sérgio - Como é pra você a relação com a platéia? Qual o sentido que ela pode dar ao seu palhaço?
Tchesco - Criança é criança em qualquer lugar do mundo. Quando gosta, ela ri, ela se entrega, você vê no olhar da criança se ela gosta ou não. Minha relação é boa quando tem crianças, elas gostam do meu trabalho.

Sérgio - E você tem uma preocupação com o que está oferecendo à platéia? Qual é a tua idéia? É fazer rir? Rir é mais importante do que tudo? Ou você quer dizer mais alguma coisa?
Tchesco - Geralmente, as pessoas me perguntam se eu passo alguma mensagem no espetáculo. Não. O que eu gosto é que as pessoas participem, que elas sorriem muitas vezes dentro do mesmo show, se tenho 300 gags, elas tem que rir nas 300. Claro que no final é legal passar uma mensagem, porque o importante ali é divertir. É eu me divertir, eles se divertirem...

Sérgio - Você acredita que o riso tem poder? E que poder é esse que o riso tem?
Tchesco - O poder de transformação. Você está num ambiente calmo, triste, quando chega um palhaço já muda, quando entra o palhaço, ele transmite alegria. E quem tem esse poder é o palhaço. Somos figuras totalmente distintas do cotidiano.

Sérgio - Você é muito autocrítico no seu trabalho?
Tchesco - Demais. Sempre quero fazer o melhor. Num show eu chego a levar quatro roupas, na hora não sei que roupa vou colocar. E eu sempre estou mudando. A cada três anos eu tenho que mudar tudo, roupa, figurino... não consigo me manter num estilo só...

Sérgio - E você experimenta, viaja, vê o que funciona, não funciona?
Tchesco - Trabalho muito sozinho hoje em dia e estou sempre aperfeiçoando os números.

Sérgio - O palhaço Tchesco, o que é?
Tchesco - Eu sou um cara que quero brincar, me divertir e trazer alegria para o povo, principalmente para as crianças. Todo mundo tem seu alvo, eu prefiro trabalhar para a criança. Se eu fizer um espetáculo sem crianças na platéia, acho que não agrado, não funciono, o meu trabalho não acontece.

Sérgio - Conta uma piada então.
Tchesco - Três homens estavam prontos pra morrer na cadeira elétrica: um era árabe, outro americano e outro português. O guarda perguntou para o árabe:
_ Você vai para a cadeira elétrica, qual é seu último desejo?
_ Ah, o meu último desejo é rezar para o meu Deus.
_ Então reze. Ele ajoelhou e _ Hala, Hala. Sentou na cadeira elétrica, o cara ligou, não funcionou. Nos Estados Unidos, uma vez que a cadeira não funciona, você está livre.
_Ehe ehe uhu.
O guarda falou pro americano:
_Sua vez, o que você quer fazer?
_Ora, quero fazer como o árabe, quero rezar pro Deus dele. Hala Hala. Sentou na cadeira, não funcionou.
_Você também está livre.
_Oh my god!
O guarda, então, falou pro português: _ E você?
_Ora, se deu certo com o árabe e com o americano, vai dar certo comigo. Ele ajoelhou e : _ Hala, Hala, a tomada está desligada.

2 comentários:

Anônimo disse...

Apesar de não serem músicos foi um verdadeiro encontro de Titãs!!!

abraços e que bom documentar,
Alvaro Assad

ieda magri disse...

Valeu, Álvaro!
É muito bom saber que tem gente lendo esse blog.

beijos,
ieda.