terça-feira, 2 de dezembro de 2008

WWW para Freedom

Sábado assisti o espetáculo de Ésio Magalhães, do Barracão Teatro, WWW para Freedom.
Chama atenção a composição do palhaço de Ésio, mais atoral, que abusa da fala para construir uma criança doce e aventureira. Pouquíssimos palhaços conseguem falar sem serem redundantes, já que geralmente o gesto e a expressão dão conta do recado. Ésio lança mão deste recurso com maestria, fazendo dele parte essencial em sua composição.

O espetáculo começa com o personagem na infância chamando para brincadeira Willie, seu amigo invisível. Ele usa uma roupa típica de colégios tradicionais católicos, uma túnica que se assemelha a de um coroinha. Começa o hino que o interrompe, numa gag musical: sempre que a música parece ter acabado ele tenta retomar a brincadeira e logo a música volta acelerada. Ésio aproveita os tempos da música, fazendo comentários à Willie de forma ritmada. Muito divertido esse momento, Ésio ganha o público de saída. Logo depois entra um heavy metal, estoura uma bombinha na coxia e o personagem aparece vestido para a guerra. Ele reencontra Willie, deixando em suspenso a possível leitura daquilo se tratar de um desdobramento da brincadeira de criança. Diferente do caráter episódico dos espetáculos mais clássicos, WWW para Freddom possui um argumento, um fio condutor muito bem delineado. São dois momentos de um personagem, na infância e na guerra. Mistura pesada se pensarmos na dimensão política dessa combinação.

Pensando no amigo invisível, Willie, entrevi um paralelo com Dias Felizes do Beckett. Na obra do irlandês, os personagens Winnie e Willie estão literalmente afundando na terra (ou num deserto, enfim, o que soar mais poético). Enquanto evoca fragmentos de memória, Winnie tem necessidade de um ouvinte que confirme sua existência passada, apesar das escassas e monossilábicas respostas de Willie, que fica quase toda a peça camuflado atrás de um monte de areia. Através de refúgios no discurso, na imaginação e nos objetos, Winnie projeta uma vida feliz que contrasta com a sua real situação. Assim passam os dias e o fim se aproxima, tal como na guerra. Os múltiplos paralelos entre Beckett e o universo da palhaçaria são antigos, a relação de branco e augusto é um dos aspectos recorrentes em sua obra.

Pois então Willie, no caso do Beckett e do Ésio, precisa existir em sua materialidade para funcionar. Mesmo monossilábica e camuflada, sua presença é capaz de legitimar a existência e o discurso. Nesse ponto concordo com a Adriana. Willie trai o jogo por não existir aos nossos olhos. O público pode ser Willie sim!

Por outro lado, a importância de Willie do ponto de vista dramatúrgico é irrepreensível. Se a atenção dispensada ao amigo invisível fosse menor, talvez o espetáculo pudesse ganhar ainda mais potência, equalizando melhor a dramaturgia e a espontaneidade do palhaço.

Ésio domina a relação com os objetos e com o público de maneira única, aproveitando cada minúcia, talvez por isso o espectador fique com ciúme de Willie.
Queremos exclusividade!


Brunella Provvidente

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