quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma ode ao palhaço terceiromundista

Chacovachi atravessa o cotidiano urbano com um tiro. Depois de sua passagem nada mais se consegue ser o mesmo que se era. O pipoqueiro, o bêbado que vende biscoito globo no Rio de Janeiro, o travesti que recebe dele um beijo em Campinas, e até aqueles que já o assistiram mais de dez vezes como eu, se transcendem de si mesmos. A cada passagem sua, minha percepção de mundo é redimensionada. Ele é político em cada ato sem precisar, no entanto, anunciar que o está sendo. Ele é o que o senso comum chama de politicamente incorreto, sendo politicamente transformador.
Ele ressignifica nossa ética, problematizando nossas instâncias morais. Chaco nos mostra que uma criança não é um bibelô dos adultos. Ele se relaciona com elas de igual para igual. Somente alguém que aceita sem pudores a sua condição humana, pode entender a simples complexidade de uma criança. Criança essa que ouve desse palhaço a realidade nua e crua sem nenhuma adaptação para uma linguagem “infantil”. Ou para uma linguagem que entendemos “infantil”. Chaco conhece a perversidade polimorfa da criança, porque também ele, é uma criança perversa e polimorfa em cena. Mas que, no entanto, nos encanta a todos ao fazer uma criança usar o seu poder sem aniquilar a pureza. E isso não é somente uma metáfora. Chacovachi vai muito além das metáforas. Ele sabe que a arte não pode se limitar a elas. A arte não alegoriza. A arte é. E sendo, intervém na realidade, cria a realidade. Chacovachi é em si, uma potência intervenção em nossas percepções. Um acontecimento, um “trauma”, difícil de ser esquecido.

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