sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sobre a mesa "você está rindo de quê?" e outras impressões

Aos que já viram meu nome na lista dos integrantes do Observatório mas que até agora não haviam lido nada com minha assinatura, peço uma breve explanação do meu silêncio até então. Ao ser convidado para postar “observações” sobre o Anjos, minha primeira atitude foi somente observar. Talvez por receio de tecer palavras dessituadas e precipitadas mas também por respeito a este universo do palhaço tão conhecido popularmente, que possui um lugar estabelecido na mente de quase todos os cidadãos. E justamente por obter este lugar estabelecido, vê-se com a necessidade de questionar este lugar.
Sou estudante de Direção Teatral e meu diálogo com a produção realizada no Anjos poderia enveredar por um caminho possível de críticas e apontamentos daquilo que funciona e do que não funciona. Poderia ressaltar recursos que me agradaram no espetáculo X ou no espetáculo Y. Pode ser que eu tente arriscar algo do gênero num outro momento, mas admito que estava à espera de algo que realmente me provocasse um desejo de produzir um pensamento que fosse válido compartilhar aqui.
Este desejo surgiu hoje pela manhã, ao assistir a mesa-redonda “Você está rindo de quê?”. Uma mesa muito interessante, com participações relevantes para ajudar a pensar um pouco mais sobre o riso de hoje. Acho que esta pergunta da mesa pode assumir um caráter malicioso se não estivermos atentos para uma questão muito importante. Henri Bergson (como lembrou Luis Carlos Vasconcellos) diz, em seu ensaio sobre a significação da comicidade denominado “O Riso”, que “a comicidade se dirige à inteligência pura” e, portanto, lá estávamos, desde às 10h da manhã, num estado de consciência que convoca a inteligência (afinal, estávamos discutindo um tema sentados em cadeiras e utilizando as palavras como meio de troca e debate) e até às 12h não havíamos sequer desnudado 20% do potencial do riso e, mais ainda, sequer respondido à pergunta da mesa. O que me deixou muito feliz! É óbvio que este esforço é extremamente necessário, principalmente num lugar no qual a maioria dos presentes são realizadores da comicidade. Longe de mim possuir este olhar ingênuo em que a técnica não possa ser destrinchada. Mas após classificar alguns elementos, diagnosticar outros através do cômico, me encanta saber que não é possível exaurir o tema. Eu, como espectador, talvez nem queira que isto aconteça, porque, uma vez desvendado o mistério, morto ele estará. Se encontrássemos a finitude deste universo, ele perderia exatamente o caráter de universo, ou seja, de infinito.
Como artista e como público, gosto de me surpreender, porque somente através do encontro com a surpresa que eu me modifico. É importante estar aberto e, como desejo preservar em mim a certeza de uma modificação contínua, resguardo-me no direito de querer me surpreender. Haverá riso enquanto houver transformação. E a transformação é algo que se dá entre o ato que faz rir e a pessoa que ri. Penso que é importante investigar o lugar da transformação atualmente. O palhaço tem um desafio que também passa pelo artista contemporâneo, seja ele do teatro, da música, da pintura, etc. Acho que um destes desafios é saber estar sensível ao lugar da transformação atualmente. O palhaço possui uma simbologia muito forte apregoada em si, com sua roupa e maquiagem, que já anuncia seu papel para a sociedade e talvez a sociedade esteja fechada (obviamente não em sua totalidade) para encontrar no palhaço o lugar de sua transformação. Talvez ainda para as crianças, pensam eles, o palhaço possa tocar. Esta emboscada é típica de nosso tempo, pois tudo hoje em dia é passível de ser “lugar-comum”. Portanto, a busca para rasgar o pre-conceito está dada. Por isso eu entendo o porquê de certos palhaços quererem abolir o nariz vermelho, assim como entendo aqueles que querem mantê-lo. Porque o conflito que se dá entre a aldeia e a universalização é exatamente escapar sem sumir. Escapar da armadilha colocada pelo clichê, pelo pastiche sem que, para tanto, esta fuga não se reflita em desaparecimento total. E finalizo minha “observação” atentando para um fato bastante curioso de que o riso, ao contrário, possui estas duas características: ele nos escapa e some. Mas reaparece.

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