sábado, 6 de dezembro de 2008

a pedidos: o texto do André Bueno

HÁ MUITOS MODOS DE RIR, O RISO TEM VÁRIOS SENTIDOS


Há muitos modos de rir. O riso tem vários sentidos. É um engano pensar que o riso é sempre libertador e crítico. Pode ser, pode não ser. Depende. Há uma longa tradição da sátira, da ironia, do deboche, desmontando as pompas do mundo. Mas também há o riso que se identifica com a violência e a opressão, colocando o espectador no lugar de quem zomba dos mais fracos. É um riso fácil. É um riso vil. Não passa de uma linha auxiliar dos aparatos de poder e opressão. Talvez produza em quem ri a mais que ilusória sensação de ser superior àqueles de quem ri. Uma supremacia bem tola, se aquele que ri dos mais fracos é também um oprimido. É sempre mais fácil zombar dos mais fracos e bajular os poderosos. O riso lambe-botas. O riso puxa-saco. O riso servil e subalterno. O riso do Zé Ninguém, diria Reich. O riso que reconcilia com a violência, diria Adorno.
Há o riso que vem das longas tradições populares. O riso descarado, aberto, malicioso, que leva consigo sempre uma alegria de viver. Muitas vezes, o impulso de burlar a ordem, de se virar como pobre na sociedade dos que dominam o mundo. Uma espécie de riso malandro e malicioso. Que também não é isento de problemas. Porque também acontece de a malandragem não ser mais que a ilusória supremacia dos fracos, brigando e rindo entre si, sem enxergar a figura completa da opressão. Depende. Porque de nada adianta idealizar um riso popular como pureza ancestral. Bela ilusão populista, que não resiste a um olhar atento, que há de perceber sempre as formas introjetadas da ideologia..... no riso que ri bastante. E incorpora ao riso o preconceito, o moralismo tacanho, a opressão patriarcal, a política em seu sentido mais raso e reduzido. Quem sabe? Depende.
O riso das tradições populares passa pela tradição do circo. A tradição do clown. Penso no filme de Fellini. I clowns. Um documentário sobre uma arte que parece em extinção, sentindo a concorrência da indústria da cultura. O riso e sua sombra. Riso e melancolia. Riso e uma profunda tristeza. Não apenas a tristeza do palhaço que precisa entrar no palco e fazer rir, mesmo com o coração partido. Mas também a profunda melancolia da vida real contraposta à vida do palhaço. Está no filme de Fellini. Os palhaços no final da linha, pobres e desamparados, solitários e muito, muito tristes. O riso que, afinal, não pode tanto assim contra a força do princípio de realidade- o abandono, a velhice, a pobreza, o esquecimento. Nem sempre é possível manter viva a potência vital da criança que fomos, que continuamos sendo, apesar de todas as máscaras que a vida em sociedade exige. Viver é vestir máscaras. Sabia Lima Barreto, muito bem, que o humor e a ironia podem ser máscaras da dor, uma forma de defesa contra a dureza do mundo. A máscara do mal secreto. Depende.
Há o riso ingênuo associado aos pobres, aos vagabundos, aos postos à margem. É o riso do palhaço vagabundo de Chaplin. Frágil, engraçado, lírico, desamparado, batendo de frente, saindo pela tangente, se virando como pode. Misturando riso e muito de melodrama. Mas também sabendo rir do que conta: os gestos repetidos e maquinais da sociedade urbana e industrial, os gestos caricatos dos ditadores, vistos apenas como bufões. Seria justo apenas rir de Hitler e Mussolini? Já era um bom começo. Tirar a máscara de onipotência, arrogância e violência do rosto, dos gestos e das falas desses tiranos. Adorno diria que não, que isso é bem pouco, que isso nem de longe dava conta do mal absoluto que o nazismo e o fascismo foram. Mas, pensando bem, os personagens dos tiranos demagógicos e bufões, falastrões e retóricos, convenceram e convencem muita gente. Já sabiam os gregos, a praça pública pode muito bem ser ocupada pelo demagogo, que não busca a verdade e a justiça, apenas se vende através da melhor retórica. Não levar a sério a figura caricata dos tiranos bufões é sempre um bom começo. Um primeiro passo. Mas não o mais importante.
Há o riso carregado de veneno, pensado e refletido, que faz pensar. Que faz rir e faz pensar. Um pouco como nos gestos dos personagens de Brecht, desmontando a aparente naturalidade da vida social. Um riso crítico não quer dizer um riso chato e monótono. Quem detesta o pensamento, porque sabe que o pensamento incomoda, há de sempre desqualificar o pensamento, sempre tomado como coisa chata, árida, estéril. Como se diz hoje, no espaço subcultural dos jornais e revistas, feitos para tolos sem imaginação: “papo cabeça” versus “papo pipoca”. Uma verdadeira pororoca de babaquice. Porque pensar cansa. Porque o riso que não apenas alivia a tensão, mas leva a pensar, incomoda. Mostra que não é confortável estar no mundo injusto. Mas também depende. Conforme a dose, o riso carregado de veneno prova de seu próprio veneno. E vira riso cínico e perverso, aquele riso estranho, que faz a platéia rir de nervosa que fica, diante da crua exposição do que é abjeto. Ou difícil, muito difícil. Depende muito. A quem serve, a quem interessa esse riso cínico e perverso? É típico de épocas de derrota, como a nossa. É uma espécie de último refúgio dos derrotados, quase sempre artistas, estudantes e intelectuais. Para quem a alienação é sempre a dos outros, nunca a deles mesmos. Uma cômoda maneira de viver fora da história, num mirante imaginário, vendo e entendendo tudo. Derrotados, mas onipotentes e sempre arrogantes. Melhor o riso fácil e ingênuo da tradição popular. Antes, bem antes de ser absorvida pela indústria da cultura e se tornar também clichê, mercadoria de massa, grosseria repetida até à exaustão.
Dizem que o riso desopila o fígado. Faz bem pra saúde. Deve ser verdade. As caras e carrancas do cansaço de todo dia são monótonas e cansativas. Máscaras da seriedade, do dever, da pressa, do tempo sem sentido ocupado por gestos e ocupações também monótonas e cansativas. É disso que o palhaço também ri. A comédia do poder. As ilusões do poder. As máscaras da monotonia e da seriedade. Será sempre um manancial para a boa arte, que saiba também rir de si mesma, sabendo-se parte do jogo. Não a solução, mas parte do problema, como dizia aquela canção de Dylan. Faz tempo? Pois é. Parece que foi ontem.
Há muitos modos de rir. O riso tem vários sentidos. O riso é ambivalente. Todo mundo vai ao circo, todo mundo gosta do palhaço, porque todo mundo gosta do riso inaugural, o da infância. Mas experimente dizer, na cara de alguém, você um palhaço. É ofensa. Ambivalente até a raiz, claro. Se assim não fosse, ser chamado de palhaço seria sempre um belo elogio. Mesmo a frase que é o mote do nosso encontro- você está rindo de quê?- é carregada de ambivalência. Traz uma carga forte de violência e confronto. Uma ameaça implícita de agressão. Longe, bem longe dos gestos líricos e delicados, dos acrobatas anões no centro do picadeiro, no alto, em movimento, ele dizendo pra ela, assim, mon petit ange. E repetindo, carinhoso, mon petit ange. Meu pequeno anjo lírico e alegre e gentil, coração no mundo sem coração. Bem feitas as contas, no jogo do princípio do prazer com o princípio da realidade, é a realidade quem leva a melhor. Abrir a porta e sair para jogar, jogando fora o espírito de seriedade, seria um passo adiante, como o sabia Julio Cortázar, pondo seus cronópios para brincar nas situações mais sérias e formais da vida social. O riso sutil, alegre, irônico, erótico, verdadeiro exercício da imaginação em movimento. É disso que eu gosto.

Eu? Gosto do riso que não deixa as coisas no lugar. Que não aceita a ordem, sem lugar, sem rir, sem chorar. A ordem unida do mesmo que se repete. Gosto da ironia que joga com as pretensões e ilusões e poses e pompas. Gosto de ironizar a minha própria posição e a do mundo em que vivo. Vale dizer, o da classe média letrada. Ciosa de seus privilégios, virtuosa de esquerda, muitas vezes apenas mascarando seus interesses. Ou pior, ciosa do privilégio de classe, da cultura, ou de seus simulacros fáceis. É fácil enganar. Basta ler alguns livros, mais ou menos, repetir umas frases feitas, empolar a fala, escrever textos complicados e vazios como um pastel de vento. E dizer tudo, mas tudo mesmo, com cara séria, de sábio paciente. Com a cara do Conselheiro Acácio, repetindo as maiores bobagens, o óbvio mais ululante, como se fosse sempre a descoberta de um Continente. Uma América de nadas. É bom rir dessas poses e pompas e pedantismos. Vale a pena. Ajuda a viver. Sempre há de haver, nas praças e esquinas e ruas e palcos de todo lugar, sem pátria e sem patrão, sem fronteiras, os anjos do picadeiro, a internacional da alegria na contramão da miséria do mundo. Mesmo fazendo a mais mínima mímica, silêncio dentro do silêncio, eu saberei sempre do que estão rindo. E estarei de acordo. Meus mais sinceros cumprimentos a todos vocês, que fazem da vida esse movimento, semeando o genuíno grão da alegria no chão árido e estéril da realidade.

André Bueno
Rio de Janeiro
Dezembro de 2008

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