sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Palhaceata: encontro dos iguais nas diferenças

Antes de tudo quero declarar que adoro a palhaceata. Dentre várias razões vou tratar de uma que me permite abrir um leque de várias outras coisas para se pensar.
A palhaceata me lembra muito da minha infância e adolescência quando ainda os circenses de vários circos realizavam as passeatas. Estas nada mais eram do que a caminhada de todos os artistas do circo, inclusive os animais, por uma rua principal da cidade, em geral do comércio, onde realizavam o desfile para anunciar a estréia da noite.
Desfilava-se tanto andando a pé quanto sobre as carrocerias dos caminhões. Nessas últimas iam alguns artistas mais idosos, algumas crianças, mas também iam armados trapézios simples. Na rua, juntava-se a diversidade de artistas: contorcionistas, saltadores, malabaristas, cachorros, cabras, burros sábios, cantores, músicos, atores e muitos, mas muitos palhaços. Lembro que não era grande o trajeto que percorríamos na cidade, mas provocávamos êxtase ao passar, pois além do fato de que em muitas cidades só o circo chegava, a passeata era o primeiro grande momento dos múltiplos encontros de tantos iguais e de tantos diferentes.
Há muito o que se escrever sobre uma passeata, mas ninguém escreveu, nem eu. Quando comecei a participar dos Anjos, que tem na saída dos palhaços a abertura oficial do evento, todo um leque de emoções e possibilidades de refletir sobre isso me foi retomada.
Somente hoje tenho condições de olhar para trás e pensar sobre o quanto aqueles momentos eram prazerosos. Alguns circenses relatavam que se sentiam como plenos após uma passeata. Por quê será? É interessante pensar que era um momento muito diferente do que iriam viver à noite no espetáculo. Havia comunicação e contato quase que corpo a corpo com as pessoas da cidade. Era o momento de encontros entre os próprios artistas como coletivo, e deles com as crianças, jovens, adultos e velhos da cidade. Parece exagerado dizer que se encontrava com “a cidade”, mas era quase isso, pois quando começavam os primeiros preparativos para sair às ruas, a divulgação boca a boca de que o circo ia desfilar chegava a um número muito grande de pessoas. Dependendo o tamanho da cidade todo mundo, mesmo, via e participava do desfile.
Era um dos momentos de diferentes níveis de exigências do palhaço, pois ele estava na rua. Quem é palhaço e que trabalha na rua sabe o que isso significa. À noite, o artista palhaço estava meio que “protegido” pela lona, pela sua aldeia. Mas na rua é outra história. O inesperado é o que mais mobiliza os saberes-ferramentas do artista, principalmente do palhaço. A quantidade dessas ferramentas tem que ser suficientemente grande para dar conta do improviso das ruas. Lembro de um palhaço que chamávamos Seu Pipo. Chileno de nascimento, ele dizia que era a rua e a passeata lhe davam um traquejo, que lhe facilitava muito à noite no picadeiro, pois era lá, afirmava ele, que no rápido trajeto, mas de muitos encontros, pesquisava para a apresentação no picadeiro.
Nesses infinitos encontros, aproveitando o mote do Anjos do Picadeiro 7, das várias aldeias presentes entre os circenses e na cidade, entre pessoas distintas, diferentes mas iguais, parecidas, é que nos dá a medida da riqueza de que todos que haviam passado por aquela experiência tinham se transformado. Por isso a idéia de saírem plenos.
Apesar de repetirem e repetirem sempre a passeata, ela nunca era igual. E é isso que vejo em cada palhaceata que participo. Se nos ativermos à aldeia dos palhaços, ela em si é um encontro que reafirma as diferenças nas igualdades. Como disse Chacovachi na mesa de debate hoje, todos são iguais e todos são distintos. Emprestando uma idéia do Ézio: essa aldeia celebra a vida; e acrescento: que ela celebra os encontros que celebram a vida.
Quando a palhaceata percorre as ruas da cidade, esses encontros que já estavam ocorrendo dentro de sua aldeia de palhaços, com as várias aldeias de cada um que estava ali, provocam outros encontros com um quantidade enorme de outras aldeias.
Parece apenas dois grupos: por parte do público são palhaços, por parte desse o outro é público. Mas, na realidade o que ocorre são micro-encontros de iguais e diferentes, cada um com a sua singularidade. Isso tudo pode provocar coisas boas ou ruins, para mim é um momento de lembrança, único e rico.
Viva a palhaceata. Que venham muitas e muitas por aí.

Erminia Silva

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