terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nem ode nem ódio!

Nem ode nem ódio, ou, água mole em pedra dura...molha
E no "Encontro Anjos do Picadeiro 2008" já passava das 13:30h quando a última mesa começou no domingo dia 07. Entre o medalhão de filé mignon, a salada, o chester e a fala do Hugo Possolo, corria também uma lista de adesão(abaixo assinado) para que fosse aceito na ENC-Escola Nacional de Circo - um professor de Palhaço.

Muito bem, qual das opções abaixo é verdadeira, ou não?

Medalhão não se escreve assim? O “matador de palhacinhos” nunca matou nenhum? A mesa começou atrasada 1:30h? Palhaço não se ensina?
Marcando todas ou somente uma opção lembro que os ditos ícones da palhaçaria aprenderam na base da mímica. Ou mimesis para não dizer que não escrevo em latim. Observaram os próximos e anteriores, copiaram, repetiram, adaptaram. E quem sabe não aperfeiçoaram? Se isso não é a definição de “reprise”, calo-me. Mas, como mímico leva a fama de não falar mesmo, escrevo mais. Como bem diz Dario Fo (sempre cite, pois torna seu texto embasado)” a mímica para os italianos amplia para o gesto, a fala, a dança e qualquer forma de expressão” (Manual Mínimo do Ator).


Não conheci Debureau (funâmbulo e mimo Belga célebre por seu Pierrô e pela utilização da pantomima), Marceau, Chaplin, Rivel, Gordo e o Magro, dentre tantos, mas ainda assim tenho a influência deles. É inevitável. Estudei com Luís de Lima que também tinha uma gama colossal. E assim caminha a humanidade.

Claro que muitos contemporâneos que estão por aí e aqui hoje estudaram técnicas com outros.

Os alunos da ENC tem razão de pedir um professor de palhaço? Sim. É do nosso tempo.

Os mestres da ENC tem razão de dizer que palhaço não se ensina? Sim. O tempo provou.

E assim tivemos o prazer de assistir neste 7º Anjos do Picadeiro o Palhaço Xuxu fazer a mesma cena/reprise que assisti embevecido ele realizar no 1º Anjos do Picadeiro em 1996. Era a mesma, mas era diferente. Esse é o barato, essa é a busca. E quando assisti em 1996, Xuxu já tinha muita poeira de estrada na maquiagem.

Palhaço não nasce de combustão espontânea.

Talvez tenha sido isso que o ParlapaPalhaçoPaulista “Matador de Palhacinho” Hugo Possolo, meu colega, tenha sinalizado anos atrás. Ele é um visionário, sua história prova. Apesar de somente os mímicos terem realmente matado os palhacinhos. O meu grupo mimo carioca que o atropelou em cena na mesma edição do Manifesto e depois o mimo-punk paulistano Claudio Carneiro que o faz de forma primorosa. Definitivamente esse prazer é nosso, dos mímicos. Palhaços não são canibais.

Sempre tivemos a oportunidade de assistir nos Anjos do Picadeiro impressionantes e marcantes palhaços/cômicos/excêntricos ou seja lá o título que vão inventar para diferenciar os iguais. Mas, pra não dizer que só falei das flores, em 1996 vimos o primeiro encontro e uma festa, em 1998 víamos o segundo encontro e SIM uma enxurrada apavorante de cópia da cópia da cópia. Chegamos a 07 edições do Anjos do Picadeiro-Encontro Internacional de Palhaços com avanço, mas também com ranço. E acumulado.

Há um crise/pilha de vocabulário entre “Encontro” e “Festival”? Mais pilha do que crise, pois ambos existem e magnificamente precisam coexistir. Ou a gente emburrece na falta de um ou não multiplica na falta de outro.

E olha que já na primeira edição em 1996 a “Festa” que o Anônimo realizou no Teatro Carlos Gomes foi um “Encontro” de diversidades, pois tinha dentre tantos o Palhaço Xuxu, os Parlapatões, Antônio Nobrega, Gabriel Guimard, Lume, Santiago Galassi, As Marias da Graça, Intrépida Trupe, cia do público. E a mídia divulgou e o público foi.
Diversidade sempre foi a palavra de ordem do Anjos do Picadeiro.

Tinha palhaço? Tinha sim senhor!
Mas, tinha acrobata, clown, falastrão, trapezista, mímico, brincante, mimo clown, clown de teatro e isso em mil novecentos e noventa e seis. Edição zero, só virou 1 depois que veio a 2.

Muito se fala da crise dos 07 anos de casados. Acho que é isso...

Fiquei mais uma vez feliz com o encontro. Pode ser melhor? Sempre.
Pode não ter atrasos? Sim.
Pode não ter seguidores? Sim, por favor.

Sou contra pseudo ícones e suas legiões de fãs. Sejam esses pseudos bufões, clowns de teatro, palhaço profundo ou mime-contemporany (acreditem em mim, existe!). O problema é o discurso de encantadores de serpentes e os sem nexo que se deixam levar.

Se é para sujar o palco suje bem, mas de forma limpa. Se vai discursar que não seja fora de curso, ultrapassado e incoerente com o seu tempo e com o que você é fora e dentro do palco.
Não tenho palhaço com nome, idade, família e essas coisas psicológicas(?). Não entrei em catarse para aprofundar meu paralelo/transversal. Não agüento mais Palhaço só na forma com o figurino comprado ou mesmo montado com sobra qualquer do guarda roupa.

E principalmente não agüento mais o “tempo”.
Esse tempo de esperar alguma coisa acontecer para reagir na cena, na rua, no picadeiro, no palco ou mesmo em casa.
O melhor é reagirmos antes.

E vamos repetir a exaustão, e/ou vamos procurar uma dramaturgia, e/ou vamos abrir mão do excesso de gags desnecessárias, e/ou não vamos copiar o trabalho do colega, e/ou tempo arrastado e longo, que te leva ao fundo de cena, e acredite isso não é a rotunda e sim para fora da roda ou dos olhos/atenção do público.

Ano novo se aproxima, então desejo muita disposição pra gente e que na próxima edição “Palhaço Novo não entre com número velho. Só velho Palhaço com seu número”.

Afinal, água mole em pedra dura até fura. Mas, demora.

Que venha o 8º Anjos do Picadeiro – Encontro Internacional de Palhaços

Alvaro Assad – mímico e diretor do Centro Teatral e Etc e Tal

(Utiliza junto com o seu grupo a cota social que garante a presença de até 1% de mímicos e derivados neste encontro único.)

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