quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

LA MÍNIMA E O EXCÊNTRICO AVNER

Dentre os espetáculos que assisti neste Anjos, dois deles tiveram um acalorado aplauso no fim: a apresentação do LA MÍNIMA e o excêntrico Avner. Não quero e nem vou iniciar aqui um termômetro (aplausômetro) com único fim de teste de audiência. Mas a questão é que foi real. Fato. O público se empolgou e gostaria de pensar um pouco sobre estes dois espetáculos.

Existem festivais que podemos sentir quando o artista está mais antenado na lógica do próprio festival, do público, dos curadores e dos jurados (quando existe mostra competitiva) e que traz para a apresentação uma certa estratégia que visa quebrar as outras apresentações com um elemento surpresa... algo que distoa dos outros artistas. Esta característica perseguida por alguns artistas não me parece sincera. Ao contrário, parece coisa de quem quer bancar o esperto e "inovar". Nada contra as inovações. Portanto prefiro me deparar com aquele artista que faz o que sempre fez e que não abre mão de sua história, sua linha de pesquisa e seus erros passados(por que não incluí-los como algo que revela sobre o artista que veremos mais adiante acertando de outras formas?). Foi assim que me senti ao entrar em contato com os espetáculos do Anjos 7. Artistas despreocupados em pensar o festival de forma especulativa e sim, tentando buscar ali o momento de compartilhar com outros, totalmente diferentes, maneiras múltiplas de realizar "o mesmo ofício". Gol para os participantes. A pior coisa que pode transformar um festival em algo morto é a forma de encará-lo como algo burocrático, previsível e com uma formatação óbvia. O Oscar americano caiu nesta armadilha. Quem não tem a impressão de ver a mesma cerimônia todo ano?

No Anjos do Picadeiro, a forma como nos foi dada a apresentação do La Mínima foi muito gostosa. Entrar num teatro e sentir uma experiência teatral criativa, sofisticada, bem realizada técnica e tecnologicamente! E ainda assim perceber que se trata de uma forma de apresentação que dialoga com o público de forma menos interativa que os outros espetáculos do Anjos. Havia ali um trabalho de pensar a comicidade dentro de uma narrativa dramática clássica: premissas, protagonistas, antagonista, conflitos, clímax e desfecho. Impressionou a liberdade que eles nos davam de complementar os cenários que, com poucos objetos e muita competência na interpretação, deixavam nossa imaginação correr solta. E aí está a interatividade que tanto se busca entre palco e platéia!

Numa profissão em que ator e diretor normalmente são a mesma pessoa, tem-se aqui um outro tipo de realização que pode nos ser oferecida quando um palhaço desenvolve um trabalho com um diretor.

Na contramão desta linha, há o Avner, que com seu espetáculo de números também se preocupou em indicar um fio condutor (os 5 minutos de relógio que mencionou no começo) para pontuar o show até o fim. Inclusive quando brinca com o suposto término quando depois revela que ainda faltava 1 minuto. Este tipo de pontuação pode ser traiçoeira, pois se o público não estiver satisfeito com o espetáculo, estes marcadores podem servir como indicadores do tão esperado fim. Mas quando funciona é que podemos perceber a potência do recurso e fazer-nos "tirar o chapéu". Foi o que aconteceu. Avner, um senhor elegante, presença simpática no palco, que realiza as ações com tanta maestria e domínio de foco. Achei muito bom o momento que Avner divide com o público sua capacidade de ludibriar a visão com uma boa condução de foco do olhar. A moça convidada a subir ao palco foi a "isca" que serviu como espelho para nós mesmos. Ali, vimos que tudo não passa de realizar as ações nos tempos certos e que não há mágica. O maravilhoso é saber como se faz e mesmo assim deleitar-se com o modo como é feito. Todos sabemos que estamos ali para rir. Esperamos isso. Gostamos de rir. Mas entre estar propenso a rir e ser surpreendido com uma boa piada, uma boa "tirada" já é uma outra história...

Portanto, Parabéns a estas duas apresentações.

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