sábado, 6 de dezembro de 2008

Jango, we love you

E o Jango?
O Jango nos deixou mudos. Ele nos confunde.
Na platéia do Carlos Gomes me vi cercada ao final do espetáculo por reações muito diferentes e contraditórias. Algumas pessoas choravam, outras queriam ter saído antes do espetáculo, outras cantavam viceralmente “love, love, love”, outras bocejavam, algumas exclamavam “genial!”, outras esboçavam um que “merda”, outras estavam constrangidas (aquela sensação de peixe fora d’água) porque não tinham sido arrebatadas como a maioria da galera. Parecia que o próprio Jango sentia essa profusão de reações distintas, quando, sem precisar, se justificou ao final rendendo-se à inexistência de um triunfo completo.
Triunfo que nós espectadores do anjos conhecemos bem, quando na unanimidade catártica após “Os Instintos Ocultos” de Léo Bassi, quando Tortell abraçou-se possúído à musa maior do anjos, Alice Viveiros de Castro empastelados pelo poder redentor da tortada na cara. Ou quando el rei de la calle Chacovacci, nos domina por completo fazendo agir sobre nós o poder ancestral da praça pública. E tantos outros momentos memoráveis que vivemos e que ainda virão.
E eu, o que eu sentia?
Montanha-russa.
Jango me levou às alturas em vários momentos, orgasmos múltiplos na rapidez do carrinho quando desce a ladeira vertiginosa, durante a profusão de gags clássicas, de gestos clássicos, o looping que nos vira do avesso inebriados com o poder ancestral da máscara do palhaço vagabundo e estúpido. Por outro lado, ali nas curvas da montanha, dando umas sacudidelas na tentativa de nos assustar em nossa curta viagem, senti uma indiferença atroz em alguns outros números onde se repetia a fórmula sujeira, pau, boceta, boquete, dublagem. Era maneiro, claro, mas não arrebatador. Não que seja isso que a gente espera, longe de mim julgar o risco daquele que se atira no abismo sem rede.
Mas, então, vamos pular no Bola Preta em fevereiro e te convidamos, Jango, a vir com a gente, vamos te lançar ali, lourinha gostosa de peitinhos murchos, musa do Cordão! É, eu sei. Essa sujeira é necessária, muito necessária na Alemanha, na Holanda, pros trens, metrôs se atrasarem, pra gente poder falar alto em público, dar dois beijinhos quando somos apresentados pela primeira vez, pra aquela aparente perfeição desmoronar e revelar o terceiro mundo escondido debaixo do tapete.
Em todo caso, na viagem daquela noite todos nós embarcamos nas múltiplas visagens do cômico. Um desfile virtuoso de possibilidades. E principalmente um palhaço humano até o âmago, sem medo de perder, sem medo de seduzir-se pelo prazer triunfal, sem medo do erro, sem medo do acerto. E, que, como um “bom” americano, se é que nos dias de hoje possamos romper o preconceito e imaginar que haja algo assim, conhece bem o significado da expressão FUCK YOU. Ele sabe muito bem ligar o “foda-se” e esse é um mérito fundamental, num momento em que estamos exaltando, levianamente, um discurso de mitificação em torno do poder do palhaço. Não que este poder não exista, mas não posso concordar com o discurso que tenta transformar o palhaço no herói do nosso tempo, um guru possível para o século XXI. Por isso o texto escrito e falado na mesa “Você está rindo de quê?”, pelo André Bueno é tão impressionante e lúcido (leiam na íntegra aqui no blog!).
Claro, o palhaço nos toca, nos transforma e pode até nos conduzir a uma experiência mística de transformação espiritual. E o Bozo? E o Ronald Mac Donald’s? Se quisermos que o palhaço seja nosso herói, estamos roubados. Supermen é o caralho. Como diz minha amiga Cris, “errar é unânime”. É disso que precisamos. Piramos com “Os Instintos Ocultos” e não nos tocamos no “Revelações”, é isso mesmo, o Léo Bassi é humano. Jango e sua montanha-russa são também. Ufa! Estamos vivos.
Somos contraditórios, sejamos! Não há verdade, há caminho. Os filósofos especulam sobre a verdade. A ciência busca a verdade. A religião encontrou a verdade. Mas a arte é o lugar das possibilidades, da celebração do inútil.
Por isso, Jango, como diz o poeta Paulo Leminski:
Amei em cheio
Meio amei-o
Meio não amei-o

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