sábado, 6 de dezembro de 2008

E que sirva de exemplo...


Nesta última quinta-feira (04/12), assisti no SESC Ginástico ao espetáculo A noite dos palhaços mudos, do grupo La Mínima (SP). A peça encena a busca de dois palhaços pelo nariz de um deles, que foi cortado e roubado por um homem que pretende exterminá-los. Em determinado momento da peça, o vilão exclama em protesto: E que sirva de exemplo! Mal sabe ele, porém, que o seu protesto é também a sua própria cilada. Afinal, como assegurar a ele que não seguiremos o exemplo de ser palhaço? Como assegurar que nem todos venham a perceber que optar por não ser palhaço pode talvez decorrer em morte, em emudecer?

O espetáculo que se inicia com o roubo do nariz avança numa busca ininterrupta dos dois palhaços pelo objeto furtado. Mais do que uma busca por um objeto, presenciamos também a obstinada procura por aquilo que se é. O caminho se dilata e com poucas falas (os palhaços são mudos, afinal) criam-se desdobramentos por uma séria de engenhosas e criativas ações que estimulam o desenhar de uma história pelo espectador. E é por essa busca que o espetáculo nos ganha, pois são nas tentativas e no eterno ir e se jogar que os palhaços nos impelem a acreditar/participar de seu destino.

Chamo atenção para a escolha da mudez. O que poderia ser silêncio, incomunicabilidade, confere ainda mais vitalidade aos palhaços. Percebe-se a vida mais concentrada e ouve-se muito mais: os ruídos, os grilhos furando a noite, as risadas (não só da platéia) e também o choro. Além disso, há uma trilha sonora impecável que nos lança inevitavelmente para o clima que cada cena exige. Que difícil é imaginar este espetáculo fora de um espaço fechado! Há todo um aparato técnico que funciona em harmonia na construção dessa atmosfera – dessa noite imersa num clima de caça às bruxas. E o poder de sugestão! Nada é simplesmente dado, mas, sobretudo, insinuado. O uso do micro e do macro: nem sempre o maior será o mais difícil obstáculo. Aqui, o principal desafio é lançado a nós, espectadores, estimulados a assim como os palhaços, buscar contornos e atalhos que nos levem adiante.

Com uma tesoura de jardineiro o vilão corta o nariz de um palhaço. Com uma serra elétrica em pleno funcionamento ele avança em direção ao outro. Em especial, a violência, a crueldade que me chama mais atenção é essa de tornar matéria-prima do trabalho a própria ameaça de sua existência. São palhaços encenando a história de sua caça. São homens desenhando a possibilidade de sua própria censura. Desenhar a repressão não para simplesmente calar, mas principalmente – e aqui está para mim o grande triunfo do trabalho - para revelar como ainda há muito que se dizer. Para instigar a descoberta de outros meios de se fazer dizível.

Também me impressiona a comunhão de uma estrutura dramatúrgica com a utilização de técnicas diversas da palhaçaria. Um encadeamento de ações dramáticas que constroem um percurso marcado por conflitos entre os dois palhaços e o vilão e daí, surge um espetáculo em caixa fechada que transpira a energia de um picadeiro, pois é pelo riso que selamos a união palco-platéia.

Em uma dada cena, o vilão utiliza-se do nariz roubado para dar um discurso sobre a tal praga/palhaço. Enquanto ele discursa seus preconceitos e injúrias contra os palhaços (também nem sempre pelo verbo), a platéia ri em profusão. Eu me pergunto se neste momento o nosso riso não estaria nos cegando? Se o nosso riso não estaria validando tudo o que é dito? Poderia ser. Também. Mas, talvez, o mistério do riso seja ainda mais complexo. Por que não estaríamos rindo do quão ridículo era aquele discurso? Por que não, rindo da ignorância do ditador?

O que, enfim, se destaca desta cena é a percepção de que assim como com as pragas, os palhaços também criam raízes. E talvez o tal vilão – mais uma vez - não tivesse percebido que cortar fora um nariz não fosse exterminar coisa alguma. Ao mesmo tempo, foi somente com este corte que eu percebi que ali o nariz nada mais era do que uma forma. Pois o que há de mais vital está sedimentado feito raiz, está dentro do palhaço. É seu espírito.

Começamos a rir quando o primeiro nariz foi cortado. E talvez esteja aí a nossa salvação: saber também rir das coisas que despencam rumo ao chão.

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