segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Diário de bordo anjos do picadeiro 7/ Primeiro espetáculo: Rimbombam, Maku Jarrak

O bom artista de rua argentino consegue ser ágil, preciso e, sobretudo, limpo em suas proposições. Maku jarrak é argentina das boas. Sem falar no humor característico, ácido e nada condescendente, zombando sempre de seus voluntários sem nunca perder a doçura.

Venho de uma família de argentinos, descendentes de italianos, e desde pequena reparo no humor deles. Argentinos são palhaços brancos por natureza, conseguem ser elegantes e autoritários sem perder o carisma. Podem te mandar pastar com um límpido sorriso. E você vai.

O trabalho apresentado por Maku Jarrak no Oi Futuro tem estrutura característica de espetáculo de rua. Rimbombam é recheado de gags clássicas e números de platéia feitos sob medida para a rua. A adaptação feita para o palco italiano funcionou muito bem, deliciando o público com sutilezas só possíveis naquele espaço. A artista utiliza objetos singelos como bolas de contato, ovos, cigarro, galinha de borracha, pequenos cachorrinhos de brinquedo. Tudo miudinho como ela.

Fazer espetáculo de rua por si só já é desafio suficiente para qualquer artista, sendo mulher então...

O fato é que vemos uma palhaça dentro de uma dramaturgia clássica, à priori masculina, assumindo e se esbaldando na histeria feminina. Digo isso porque a estrutura de seu espetáculo segue uma poética bem clássica, com gags bastante conhecidas --- que ela executa de forma impecável, diga-se de passagem. Maku consegue adaptar e justificar essa estrutura ao universo feminino sem apelar e sem perder a rebeldia, o que não é pouca bobagem (no melhor dos sentidos, por favor!).

Fico pensando que talvez em um momento ela pudesse arriscar mais. Numa parte do espetáculo, na preparação para o gran finale com parada de cabeça, ela executa a gag da estante e do sobretudo, fazendo desaparecer e aparecer as mãos. Entra um fundo musical acelerado e ela faz tudo com muita limpeza, mas acaba nos distanciando do problema real que é a gag. A música dizia mais do que deveria, dando suporte, dizendo-nos de antemão: "lá vem bobagem". Por melhor e mais técnico que seja o artista, se ele não acreditar e o contexto não ajudar a dar a dimensão do obstáculo, a gag não acontece plenamente. Senti que solicitou demais o público nesse momento, através do olhar, a ajudá-la a resolver o problema, deixando tudo um pouco ilustrativo. Aquela trilha sonora definitivamente não colaborou. Nesse sentido, a encenação precisa valorizar o esforço do artista, que deve tomar sem medo o tempo necessário para nos envolver. Tempo e jogo são suficientes para encantar o público.

Não posso deixar de falar do número dos cachorrinhos de brinquedo, da gaita de fole (ela toca uma gaita de fole!), do requinte da vela de aniversário durante a parada de cabeça. Tudo genial.

Viva a jovem Maku Jarrak! Viva os argentinos! E, sobretudo, viva as palhaças!


Brunella

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