domingo, 7 de dezembro de 2008

Algumas observações


Sobre a mesa de debates: Você está rindo de quê? com Victor Queiroga (CHI), André Bueno (RJ), Luis Carlos Vasconcellos (PB) e Adriana Schneider (RJ).

Dentro de um Encontro com manifestações diversas da comicidade, eis que uma mesa de debates resolve questionar sobre aquilo que estamos rindo. Ao término da discussão, era visível que não havíamos chegado a um lugar mais concreto sobre o riso. E eu me pergunto se esse lugar existe. É possível definir algo que é mutável por natureza própria?

É evidente que a mesa não tinha a pretensão de formatar conclusões e sua importância está justamente no que ela foi capaz de gerar em reflexões. Ao ouvir artistas e estudiosos de lugares distintos, de países distintos, dialogando em línguas diferentes e com opiniões variadas sobre o riso, tive uma impressão muito boa do Encontro e de sua motivação: estávamos ali falando daquilo que a todos unificava, discorrendo sobre aquilo que nos fazia estar juntos, lado a lado.

E então ali eu também estava, buscando compreensões a partir do que ouvia, do que já tinha ouvido, juntando as pontas e tentando saber o porquê do meu riso. Lembrei-me então do já citado ensaio de Henri Bergson sobre a significação da comicidade, “O Riso”. Ele afirma que para compreender o riso, é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade...

E por isso questiono, no início dessa observação que escrevo, se é possível definir algo que é mutável por sua natureza própria. Comecei a observar que o mistério do riso é justamente tão difícil de decifrar, pois está constantemente se refazendo. Se assumirmos o riso como manifestação vinculada à sociedade, não há mesmo possibilidade de compreendê-lo por completo, ainda mais neste momento, em que as coisas se alteram e se superam com assustadora e bela rapidez.

E quantas sociedades nós homens podemos erguer, quantas diferentes políticas podemos instaurar? Parte desse indecifrável mistério, acredito, repousa no que é diferente. É ainda Bergson quem formula que toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo será então suspeita para a sociedade. É dessa suspeita que o riso emerge. E o suspeito é aquilo que é estranho ao "normal". O suspeito é o diferente. Sem ansiar por respostas, eu me volto às perguntas: qual é a variedade de corpos e mesmo de rigidez que a sociedade de hoje – o homem – é capaz de criar? Ou então, quantos novos agentes do riso podemos inventar?

Sem dúvida, além desse caráter mutante do riso, posto que se insira num espaço/tempo social também em constante mutação, há também uma parcela do cômico que ultrapassa o tempo e avança épocas, carregando consigo aguilhões de um riso incapaz de se conter. O meu intuito aqui, porém, foi o de observar algo que para mim influencia determinantemente o estudo e o trabalho com a comicidade. Mais do que fazer rir, o artista cômico deve-se cobrar o porquê do riso que provoca. E pensar nisso estando alheio ao seu espaço e ao seu tempo, é fazer do riso uma ferramenta por vezes alienante e também, por vezes, perigosa demais.

Numa última observação, acho interessante ressaltar que é por encontros como este que somos movidos a mudar alguma coisa, o mundo, uma parcela dele, o nosso ofício, nossa cidade. E é nesse exercício da mudança, que redirecionamos o riso e reinventamos a nossa arte. E que possamos, talvez, nunca desvendar por completo este mistério. Pois é em virtude de seu segredo que continuamos a caminhar.

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