quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mesa de debates: Palhaço e poder

Interessante acompanhar nessa discussão, que reuniu só feras, gente com opiniões bastante pensadas e defendidas ferrenhamente, as posições políticas ligadas diretamente com a arte de cada um. As mínimas ações do cotidiano desses nossos interlocutores são marcadas por seu fazer artístico ou é o próprio fazer artístico que interfere, intervém e solidifica a postura cotidiana? Faço a pergunta pensando na coluna do nosso querido Fausto Wolff, sem dúvida uma resistência na imprensa contemporânea que agora deixa vago o seu lugar; no Prego na testa, espetáculo do Hugo Possolo, no Márcio Libar com seu O pregoeiro e na brincadeira que marca a vida de Ismael, o palhaço sagrado cujo fazer está ligado ao ritual e, portanto, a um poder ancestral e que nos chega não mais como poder, mas como vivência e generosidade. Lendo a transcrição da discussão que nos moveu durante mais de duas horas, naquele dezembro de 2006 - longínquo e, no entanto, "parece que foi ontem" - pode-se, inclusive, perceber o posicionamento político daqueles que estavam na platéia. Por isso que mesa de discussão é boa!

Gente, teve até vaias! Esta, sem dúvida, foi a mesa mais quente dos últimos tempos e a mediação de Sidnei Cruz foi na medida porque nem permitiu a bagunça generalizada, nem cerceou ninguém. Se eu fosse vocês, leria e comentaria essa discussão porque ela continua presente e urgente, como a vida.


O dia em que a CASA estremeceu

Sidnei- O tema hoje é “Palhaço: poder”. Temos aqui na mesa quatro representantes significativos dessa discussão no país: Ismael, o nosso cacique hotxuá que vai falar para a gente sobre o tema; Márcio Libar, Hugo Possolo e Fausto Wolff.

Márcio Libar vem construindo e firmando, nos últimos 20 anos, sua trajetória de ator cômico popular numa ação que vai do domínio da técnica artística, através da criação e apresentação de espetáculos e números, à qualificação profissional de outros atores sociais através de suas oficinas, passando pela intervenção direta no campo das políticas públicas. Idealizador do Mundo ao Contrário, é um dos fundadores do Teatro de Anônimo, onde atuou por 18 anos e é uma das grandes referências da arte do palhaço no Brasil. Já trabalhou com grandes mestres dessa arte mundo afora, além de ter promovido intercâmbio entre eles nos festivais e encontros que organiza. Sua oficina atrai pessoas do Brasil inteiro e de vários setores da sociedade. Mais de 1000 pessoas já passaram por esse trabalho nos últimos sete anos.

Hugo Possolo: Palhaço, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, diretor e produtor cultural há 26 anos.
Hugo- E faz docinhos para fora. [risos]
Formado em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Formou-se palhaço pelo Picadeiro Circo Escola em São Paulo. Fundador do grupo Parlapatões, Patifes e Paspalhões, que completa quinze anos de atividades. Seus espetáculos já percorreram a maior parte dos estados brasileiros, os principais festivais nacionais. Seus trabalhos foram apresentados nos Estados Unidos, Espanha, Portugal, Itália, França, Escócia, Colombia e Uruguai. Nos Parlapatões destacam-se, entre 28 espetáculos realizados, Nada de Novo, U Fabuliô, Piolin, ppp@WllmShkspr.br, As Nuvens e Prego na Testa. Para outros grupos, dirigiu e escreveu espetáculos como Farsa Quixotesca para Pia Fraus e Urbe dos Fractons. É conhecido, também, pelas suas direções de ópera. Já atuou com os maestros Abel Rocha e Roberto Minczuc. Destacam-se as montagens de A Flauta Mágica e Gianni Schicchi de Puccini. Recebeu mais de 30 prêmios nas áreas de artes cênicas, dos quais se destacam: Prêmio Shell – cenografia, Coca-cola – ator e diretor e APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) – autor, diretor e categoria especial pelo trabalho do grupo. Recentemente foi indicado ao prêmio Shell pela atuação no solo Prego na Testa. Colabora com artigos para diversas publicações como O Sarrafo, Revista Bravo! e Folha de São Paulo, na qual já manteve uma coluna semanal intitulada Política e Palhaçada. Um dos articuladores do movimento Arte Contra a Barbárie, representando o movimento ao receber a ordem do mérito cultural. Participou da comissão de elaboração da lei Fomenta Teatro da cidade de São Paulo. Durante várias gestões foi membro da diretoria da Cooperativa Paulista de Teatro. Foi coordenador nacional de circo da FUNARTE, do Ministério da Cultura, onde implementou o plano de políticas públicas para o circo.

Aqui ao meu lado, o cacique hotxuá de Tocantins: hotxuá é a designação dos atores palhaços do povo Krahô. Eles recebem essa função logo ao nascerem, quando um tio ou tia lhes dá o nome pessoal, que, dentro da estrutura social da tribo, deve manter a tradição dos hotxuá . Na medida em que ele vai crescendo, o tio que lhe deu o nome vai lhe ensinando as técnicas de fazer os outros rirem.
Existe um outro termo para designar as pessoas que gostam de fazer graças no cotidiano: “Me’ken”, palavra em Krahô mais aproximada do que nossa cultura denomina de palhaço. O “Me’ken” pode ser ou não um hotxuá , apesar de que, o hotxuá , como aprende as técnicas de fazer rir, tem tudo para ser um “Me’ken” e, geralmente, se transforma em um deles. O hotxuá “legítimo” é um personagem ligado a um ritual denominado “yot-yon-pin” – literalmente, “tora da batata”. O ritual deve ser realizado todos os anos e marca a passagem da estação chuvosa para a estação seca. É uma festa ligada à fertilidade e à fartura. É a ocasião em que são realizados os casamentos e feitos os contratos de casamentos futuros entre as famílias da aldeia. Festeja também a colheita da batata-doce e de outras espécies plantadas nas lavouras. É pela atuação nesse ritual, carregado de simbologias, que se costuma usar a expressão “palhaços sagrados”, para designar os hotxuá . Os Krahô habitam o estado do Tocantins. Atualmente sua população é de cerca de duas mil e duzentas pessoas, morando em dezoito aldeias.

Fausto Wolff: Jornalista e escritor, foi editor do Pasquim, diretor de teatro e de cinema, professor de literatura nas universidades de Copenhagen e em Nápoles, escreve diariamente no Caderno B do Jornal do Brasil tendo uma legião de leitores assíduos dos seus corrosivos artigos. Possui vários livros publicados, incluindo contos, romances e traduções. Seu mais famoso livro é À Mão Esquerda, romance auto-biográfico ficcional. Ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance em 1996. Em seus livros de contos, como O Nome de Deus ou em O Homem e Seu Algoz, encontramos retratos indignados de personagens e de acontecimentos políticos da história contemporânea brasileira. Os personagens são de carne e osso. Esses que esbarram com você pelo cotidiano das ruas e botequins. Entre canalhas, seres iluminados ou revoltados, travestis, videntes, loucos e eremitas, ainda há espaço para momentos de sátira e de lírico. É como disse o próprio Fausto: “O mundo é uma surpresa que dói. Depois, com o tempo, só dói”.


Vamos lembrar aqui o que diz o tema “Palhaço: poder”:
Na história da humanidade a figura do palhaço sempre representou um contraponto direto ao poder ou em contra-poder. Vamos encontrá-lo na China, no Egito, na Índia, na Grécia, em Roma; em diversas cortes a figura do palhaço servindo como alter ego, provocador, arauto, questionador irreverente das mazelas de seu tempo colocando em jogo sua própria vida. Segundo Leo Bassi, os palhaços, apesar de ocuparem o lugar de contraponto ao poder, nunca chegaram ou chegarão a assumi-lo. No Brasil umas poucas experiências nos mostram que alguns palhaços experimentaram estar no outro lado do balcão. O que concluíram com as suas gestões? Por que foram escolhidos para estar nesse lugar? Há algo de incompatível entre as duas funções sociais? Como manter a ética do palhaço em tais circunstâncias? O que representa hoje o arquétipo do palhaço no mundo? O palhaço funciona como um vírus do poder, numa relação de dependência mútua onde um não sobrevive sem o outro.

Está aberta a mesa de discussões. Com a palavra Ismael, cacique hotxuá , palhaço sagrado.

Ismael- Boa tarde gente. Aqui é Ismael Krahô, que é de lá do Tocantins. A gente está por aqui no Rio de Janeiro junto com vocês pra vocês verem um pouco da nossa cultura. Eu estou vendo como é que é o palhaço do kupé. É, o cristão se chama kupé, que são vocês. Nossa linguagem. E eu estou aqui, com vocês, aqui dentro do Rio de Janeiro vendo os trabalhos de vocês e queria que vocês fossem ver o nosso trabalho também, que a gente está com ele aqui pra vocês, juntos com vocês também.
Nós estamos por aqui pra fazer esse nosso trabalho junto com vocês que são palhaços. Mas é o mesmo. É a mesma brincadeira que eu faço e vocês fazem também, juntos. Certo? Por que eu me chamo cacique? Não é cacique. Eu já era cacique da comunidade, de primeiro. Mas, já que eu já estou nesse trabalho que eu estou fazendo também, igual ao que vocês estão fazendo, a comunidade que é hotxuá , me botou nome de cacique do hotxuá , então eu concordei. Porque eu sou também hotxuá. Eu brinco nesse hotxuá, que vocês chamam palhaço. Então nós estamos fazendo esse trabalho que é pra fazer isso, mostrar a nossa cultura desse Krahô, da nação Krahô. E nós estamos fazendo isso junto com vocês aqui dentro do Rio de Janeiro. E não sei se vocês vão gostar, a gente vai fazer isso. Porque nós temos que fazer mesmo esse trabalho aqui junto com vocês, que nós somos hotxuá, dos Krahô.
Os Krahô... eu me chamo Ismael na parte dos brancos, na linguagem de vocês. E tenho meu nome que é o próprio mesmo, o índio. Então é isso. Quem que não é palhaço? Aquele que não é hotxuá, é pra ficar rindo de nós que nós brincamos com todo mundo. É isso que eu queria falar. Só isso.


Márcio- Bom. A gente hoje vai tentar enxergar o palhaço a partir do seu arquétipo. E o que o arquétipo encerra, o arquétipo do palhaço? O arquétipo do palhaço encerra a eterna luta entre a autoridade e o poder. Entre o poder e a rebeldia. Dentro de cada um de nós tem um autoritário e um rebelde. Desde que a gente passa a viver em sociedade existe esse conflito. Conflito entre você ser quem realmente você é ou ser o que querem que você seja. E aí se dá a eterna luta. Então a gente fica sempre nessa luta, ou seja, eu me levanto agora da cama ou eu continuo dormindo? Eu como bolo de chocolate ou mantenho a dieta? Eu beijo na boca ou me mantenho fiel? Eu tomo caipirinha ou tomo cerveja? Ou seja, você está sempre num conflito: um corpo burro fixo nas regras da terra e uma alma livre querendo voar. Eu acho que o idiota mora aí no meio do caminho mesmo. O idiota, o paspalho, o palhaço. No meio desse conflito. Por isso que normalmente o pé dele está indo para um lado, ele está olhando para outro e, em geral, ele esbarra em alguma coisa. Ele tem sempre dois focos, dois objetivos.
Dentro dessa discussão, desse conceito, desse arquétipo, eu comecei a trabalhar essa idéia do mundo ao contrário. Porque o mundo cômico é o mundo ao avesso, é considerado o mundo ao avesso, e o palhaço, talvez, o principal arquétipo, o principal representante desse mundo, teria como missão instaurar o mundo ao contrário, fazer o mundo virar ao contrário, o mundo pelo avesso. Quando eu falo isso dá um certo susto porque parece que eu estou querendo inventar um novo mundo. O mundo ao contrário do que acontece, do que eu falo, seria apenas se todos os direitos e leis que nós temos valessem, já seria o mundo ao contrário do que ele já é. Se nós todos tivéssemos acesso ao direito à cultura, por exemplo, direito ao trabalho, direito à educação, à saúde; já seria ao contrário disso. Quando a gente está falando do direito ao acesso, à expressão e à produção cultural minimamente; quando a gente está falando de poder e projetos sociais, sociedade, a gente vai pensar que o artista ainda é algo especial. Na verdade, o artista não é nem considerado trabalhador pela sociedade como um todo. A gente não representa nada, economicamente, para um sistema no ponto de vista do PIB. Nós que não estamos dentro da Rede Globo ou da indústria fonográfica, ou da indústria gráfica, a indústria que paga grandes impostos como indústria - talvez elas sejam computadas pelo estado - nós não. Nós que ganhamos dinheiro na bilheteria, no chapéu, que ainda assim pagamos aluguel, pagamos transporte, fazemos a economia girar, não somos considerados trabalhadores. Isso significa negação do direito ao trabalho. Enquanto isso, tanto a sociedade como nós ficamos nos considerando especiais, isso no Rio de Janeiro ainda é o problema mais grave. Talvez de todos os lugares que eu já tenha viajado – e isso aí inclui São Paulo, Belo Horizonte, Paris e qualquer lugar... Uruguai [risos]- talvez seja o único lugar em que ser artista tem a ver com ficar famoso. Em nenhum outro lugar do Brasil ou do mundo essa coisa é tão... ser artista é simplesmente trabalhar. Eu parei de trabalhar para comunidades diretamente, eu digo, pra preto e pra pobre, na medida em que essa consciência ficou muito forte, de que a gente não tem trabalho, não tem salário, então, logo, não tem décimo terceiro, não tem aposentadoria, não tem fundo de garantia, não tem nenhuma benesse da cidadania sobre nós. E aí eu falei que não trabalhava mais com projetos sociais porque eu não poderia prometer para aqueles jovens o futuro, que nem no presente a gente conseguia subsistir com garantia.
Seria uma mentira. Use a arte e a cultura como algo que faça você ser alguém. Prefiro hoje que a minha luta social seja trabalhar em torno do direito ao trabalho artístico.

Quando eu falo de poder, eu fico pensando no poder de comunicação de cada palhaço, eu poderia até fazer mais ou menos um histórico... poder de realizar o Anjos do Picadeiro, por exemplo. O poder de agregar encontro, pessoas, afetos, sonhos, há dez anos, tentando negociar aí entre dinheiro público, dinheiro privado; a porte de capital próprio considerando que muita gente chega ao Anjos do Picadeiro pagando a sua própria passagem, muitas vezes, porque não pode estar fora disso. Pensar no poder que, por exemplo, um palhaço como o Chacovachi tem trabalhando na rua em uma época em que na Argentina o Peso valia um Dólar. Chacovachi era um palhaço que conseguia ganhar 2000 dólares em um fim de semana. Pensar no poder que significa isso. Ou no poder de um palhaço como o LeoBassi, ou no poder de uma tradição como a tradição Colombaioni. Pensar nisso como poder. Que poder é esse?

Ontem esse poder pra mim ficou muito claro. Nos dois espetáculos de ontem à noite, que era o poder sobre o tempo, sobre parar o tempo. Esse poder do palhaço que é o poder da comunicação, o poder da comunicação seria um meio de comunicação. Porque fala em comunicação a gente lembra de televisão, cinema, livro, CD... a gente lembra do meio de comunicação. Quando a gente está falando de palhaço, do ator especificamente, o poder é a fala, o olhar, o tempo o gesto. Todo o poder de comunicação daquela criatura. O poder de parar um tempo e instaurar um ambiente de relaxamento, de crítica, de riso. Esse poder, que poderia estar restrito somente ao espaço da cena que freia o tempo do espetáculo, da velocidade, do ritmo e põe um outro tempo. Se você olhar a história de cada um desses palhaços, o poder que cada uma dessas pessoas tem hoje, você pega... o Artetude, por exemplo, veio com um ônibus. É um grupo muito jovem para ter um ônibus muito caro e vir dirigindo de lá. Esses grupos, a maioria tem sede, a maioria tem sede e tem lona, tem equipamento, tem som e tem luz. Esse espaço aqui é espaço da cooperativa, por exemplo, da Cooperativa de Artistas, que comprou essa casa. Que comprou, que quitou essa casa. Que ocupa um pedaço da cidade. É a ocupação de território. A maioria desses profissionais também tem uma atitude de gestão que está comprometida diretamente com o cidadão e com a cidade. Pensar na cena de Barão Geraldo, por exemplo, no distrito de Campinas. Quantos grupos hoje tem Barão Geraldo, cada um com a sua própria sede gerando conteúdo, gerando trabalho, gerando pesquisa, gerando viagem, gerando intercâmbio. Isso é o mundo ao contrário. E a, por conta desse acúmulo e por conta do meu tipo (um dos meus talentos é falar com a mesma velocidade com que eu penso, esse é o meu trapézio vôos, esse é o meu malabares de cinco claves, isso é a minha arte), talvez por ter essa verve e falar com essa facilidade, eu possa atingir muitos públicos distintos, como vocês, fóruns de arte, discussão com o próprio poder. Isso me levou a ser convidado, certamente, a ser coordenador de teatro de rua e circo do Rio de Janeiro, cargo que eu ocupei por 6 anos. Foi onde tive mais poder e menos poder. Um poder institucional de receber tapinha nas costas de várias pessoas que passaram a acreditar que eu pudesse descolar uma graninha para o projeto delas e a ausência total de poder de lutar tanto pra não conseguir realizar absolutamente nada. E agora eu estou entregando esse cargo, há exatamente um mês, eu estou entregando esses dias agora, só oficializando isso. Por nos últimos anos ter recebido um salário sem ter conseguido realizar nada. Fica muito vergonhoso para mim, na posição de quem acredita no mundo ao contrário, ficar nesse lugar. Então, voltar ao poder, eu estou com a sensação de que eu estou voltando ao poder. Voltando ao poder justamente dentro do Anjos do Picadeiro, dentro da Cooperativa, dentro de um lugar como a Fundição Progresso. Vocês têm andado pela Fundição Progresso e percebido quantos grupos ocupam aquele espaço ali. Aquele território. o Vaticano do projeto ‘o mendigo feliz’, o Vaticano do projeto independente. Quantos grupos ali se hospedam? Quantas pessoas têm perspectiva de gestão? Eu acho que a gente está falando desse tipo de mundo. O mundo do teatro e o mundo do circo são regidos pelo ritmo do espetáculo. Requer uma velocidade e efeitos. O palhaço, quando entra nesse espetáculo, freia o tempo e instaura outro tempo. Fiquei pensando sobre a vida um pouco. Li uns números recentemente que me deixaram assustado tipo “20% da população mundial tem acesso a 100% da potência da energia elétrica”. Ou seja, televisão, DVD, computador, máquina de lavar, ferro elétrico... significa que os outros 80 não têm. No Brasil, se você ganha mais de R$3,000,00 você é rico. Logo, você consome 100% das potencialidades da energia elétrica. Talvez isso signifique que os grandes bolsões de miséria como a África, como a América Latina, como as favelas, seja estratégico que elas existam porque se tivéssemos que dividir os 100% de energia elétrica que a gente consome com os outros 80%, os recursos naturais já não dariam. Já não seria suficiente para todos. Isso significa que nós estamos caminhando aceleradamente em direção ao fim do próprio planeta, dos recursos naturais. Tentando fazer um paralelo: qual seria a grande contribuição que o nosso poder, que é o poder de interferir no tempo, na sociedade? Seria trabalhar para desacelerar esse ritmo intenso que a gente está levando de correria em direção ao fim das florestas para se plantar soja, ao fim do Pantanal pra se plantar biodiesel, ao fim das grandes plantações para se plantar soja transgênica e queimando florestas e terminando com a água e ficando cada vez mais dependentes da energia elétrica. Talvez nesse momento, com 72 horas de total ausência, sem energia elétrica, só os Krahôs estariam brincando nesse momento, porque não estariam preocupados porque atrasaram seus e-mails ou suas contas bancárias que estão presas. Então, acho que a grande contribuição que a gente pode tentar para o mundo é exercitar, paralisar, frear e tomar o controle do tempo.


Hugo- Eu estou completamente honrado de estar aqui, podendo dar esse depoimento, depois de ter acompanhado todo o processo de dez anos do Anjos do Picadeiro. E eu queria começar com um trecho de uma peça em que a gente... tinha um versinho que repetia muito, que simboliza para mim, um pouco, as visões que eu posso ter e aquilo que eu vou falar a respeito do Anjos do Picadeiro e dessa relação palhaço: poder. O verso é assim: “Tô cagando e andando. Tô cagando e andando. Tô cagando e andando. Mas, como a terra é redonda, eu sempre acabo pisando nas merdas que faço.” [aplausos]
Pra falar da relação de poder, e eu já fiz uma prévia dessa conversa com o Márcio durante uma madrugada dessa semana, que foi uma pena que vocês não puderam estar, gente! [risos]. Porque os quinze minutos são poucos. Então, a idéia é fazer uma síntese do que é o contexto dessa relação entre o palhaço e o poder. E aí eu preciso regredir um pouquinho para trás em alguns conceitos para não falar das palavras e elas gerarem uma confusão. Então, o meu entendimento do que é a cultura é a maneira pela qual a gente realiza as nossas atividades. E isso é o que determina algumas diferenças entre os seres humanos. São as diferenças dos seus contextos sociais, seus contextos econômicos, seus contextos políticos. A cultura é aquilo que estabelece a diferença entre os povos na maneira com o qual realizam suas atividades. O índio, ele está brincando. A maneira como ele brinca é a cultura dele. A maneira como o branco, o ocidental brinca é a cultura dele. A maneira como eu como com prato, garfo, talher é diferente da maneira que o índio come que não deixa de ser o ato humano de comer, inclusive o ato social de encontro, comunhão - pode ser entre o clã, a família, entre amigos- na qual surge a conversa e esse é o gesto cultural. A arte é apenas uma parte disso. E dessa parte grande que é a arte dentro da cultura, a gente vai ter o riso. O riso tem uma função social fortíssima em todas as sociedades, das mais primitivas às mais complexas; e ele é tão necessário e tão contraditório, tão cheio de paradoxos, que muitas vezes a gente se empolga por aquilo que a gente faz na nossa atividade e para defendê-la acredita que ela é a tábula rasa, que é aquilo mesmo, que basta, fazer rir é o suficiente. Eu infelizmente não comungo dessa idéia. Eu acho que o riso tem uma capacidade transformadora e ele tem também uma capacidade conservadora. A maneira como eu me coloco diante da sociedade, de como eu faço uso do meu instrumento de trabalho, do ato de ser palhaço, a maneira como eu manipulo isso é o que vai dizer se aquilo que eu faço tem capacidade transformadora ou se aquilo que eu faço tem capacidade conservadora. O riso pode recalcar, dar apoio a preconceitos, reforçar ideais (ideais até que existem) mas idéias estáticas que não querem fazer com que a sociedade busque um novo caminho. Talvez um mundo ao contrário, mas eu tenho certeza de que esse mundo no qual eu estou vivendo não é um mundo legal de se viver. Não é um mundo bacana. Então tudo o que eu faço é para que esse mundo seja minimamente diferente do que ele é hoje. Se isso é acertado ou não, é outro problema. Porque a gente não acerta sempre. Aliás o palhaço como arquétipo para mim simboliza o erro. Essa incapacidade humana de se sentir parte da natureza, de achar que não erra. A natureza é infinitamente mais forte que o homem. Nós somos uma parte dela. Por usarmos o intelecto, por reproduzimos modelos constantemente, a gente acredita que pode andar em linha reta sem escorregar no meio do caminho em uma casca de banana. Mas quando a gente escorrega e ri, e quando alguém ri desse tombo, a gente está rindo de que a gente faz parte da natureza e não aceita que faz parte da natureza. A gente está rindo dessa tensão constante de achar que a gente é a cabeça, que a gente é só intelecto. E o nosso intelecto é uma reprodução de modelos constante. A gente só reproduz, reproduz. Os grandes gênios da humanidade não. Eles conseguem raciocinar. Entender a natureza, traduzir a natureza humana. Não estou falando da natureza “árvore, florzinha, nuvenzinha”. Estou falando da natureza enquanto estar, existir no mundo e não existencial, por um ponto de vista individualista. Isso o palhaço consegue representar, ele consegue colocar. Mas quando ele coloca isso ele coloca diante de uma sociedade em processo, na construção da idéia de civilização. O que é a civilização a não ser a tentativa de sobreviver à natureza e ganhar conforto diante dela? Eu vou descobrir o fogo e a roda para ter conforto diante da natureza. Cada vez que eu entro em conflito com a natureza, que eu venço a natureza, eu quero me acomodar de novo e não que a natureza me incomode. Eu quero ficar confortável. E aí vem a festa que me tira do conforto. E na festa eu compartilho com a sociedade, eu vibro, eu posso explodir em alegria. E na festa eu faço uma comunhão que não é sagrada, que é profana. É onde a minha sexualidade pulsa. É onde eu posso me entregar completamente à minha natureza novamente, à minha natureza social. E aí vem uma figura como a do palhaço representar a festa e a comunhão em uma sociedade que não sabe mais viver a festa ou que teve a festa enjaulada, comercializada, tornada produto. E o nosso risco é que nós palhaços podemos ganhar uma embalagem e nos tornarmos produto porque a gente comercializa aquilo que a gente faz. Qual é a nossa postura diante disso? O que a gente quer do mundo? O que a gente quer das pessoas? O que a gente está querendo fazer com esse instrumento poderoso que é o riso? A gente vai conservar, vai buscar o conforto ou a gente vai buscar a inconformidade, o desconforto? A gente vai fazer o símbolo do máximo do circo “eu quero agradar”? Eu poderei ser desagradável. Para ser desagradável é preciso saber seduzir. Se eu não seduzir eu não consigo ser desagradável. Eu não consigo cutucar, eu não consigo questionar, eu não consigo mexer, emocionar, fazer pensar. De certa forma a função social do riso é moralizadora. Não moralizante do moralismo de querer que a gente se submeta às regras sociais e fique de cabeça baixa com elas, mas a gente quer construir uma civilização. Que não é essa que está aí. Não é a civilização construída pelo homem branco, dominador, macho e armado até aos dentes. A gente quer construir uma outra sociedade. Uma sociedade subjetiva, talvez feminina, talvez índia e primitiva. Talvez da natureza, não da luz elétrica. Onde a gente possa se olhar no olho como a gente viu o espetáculo de ontem. Ver palhaços se olhando e rir e chorar. Passou um filme na minha cabeça ontem durante aquele espetáculo. Eu vi o meu primeiro embate apaixonado contra o Lume e o Ric e ontem eu vi a celebração do Ric como palhaço. Eu vi o Ric na mesa anterior falar “clown não, essa discussão é superada. Eu defendo palhaço mas não é a questão semântica”. Era a alma desse sentido. E a gente pode propor para o Anjos 6 mais uma palavra que a cultura Krahô quer discutir, mas não é isso que a gente tem que discutir. A gente teve o Leo Bassi brilhando e apanhando. A gente viu o Leo Bassi cair numa cruz de ovos diante de quase duas mil pessoas. E o ícone daquilo que era mais transformador podia ter sido engolido pela nossa própria incapacidade de lidar com o nosso evento que já não era tão “anônimo” que podia se tornar comercial, ou pode. Porque ele abriu, dessa vez tendo que agradecer ao patrocinador que nos banca, nos ajuda: mas que é uma estatal. E que tem o dever e a obrigação de dar o dinheiro público à ação de cidadania que se faz no país!

Eu só agüentei um ano de FUNARTE. Eu fui aprisionado por aquele terno mas eu não quis perder a perspectiva de poder olhar nos olhos dos meus companheiros e conhecer novos companheiros. Conhecer o Ankomárcio [Saúde] em Brasília, que quando ele gritou e veio contra mim com pedras e dentes, foi o cara que eu mais gostei em Brasília. Porque não era pessoal no cargo. Eu era os meus colegas no cargo. Mas isso na política institucionalizada, nesse estado decadente. O estado que só obedece à idéia do capital: nós não temos poder nenhum. O nosso poder está ali na rua, no picadeiro, sob a lona. Interno, na alma das pessoas. O nosso poder está no Anjos do Picadeiro, no Riso da Terra. Foi o evento mais desorganizado da história da humanidade [risos]. Mas os palhaços como são caóticos e desorganizados fizeram daquilo uma festa. Porque a gente não precisa da lógica cartesiana. A gente não precisa do ideal de burguês. A gente vive na porra da sociedade capitalista, mas não acredito que a gente precise concordar com ela. Eu acho que, só pra completar, a gente não devia deixar o palhaço ganhar o rótulo e estar a serviço do riso conservador. A nossa postura... ética é uma palavra, com toda delicadeza e poesia que é peculiar dos Parlapatões, não quero preconceito. Porque ética foi vulgarizada, porque virou uma discussão babaca num país soviético. Como é que um país colonizado, sem moral, um país que vive de idéias colonizadas, provinciano, vai querer falar em ética se mal tem moral construída? Se a gente é tão permissivo em tudo. Então a discussão para mim não é essa. É batalhar demais e profundamente para que a gente não estampe os rótulos nas nossas camisetas. Eu só queria encerrar com outro verso [risos] que infelizmente não é meu, mas é que o Márcio me inspirou pela camiseta dele [a camiseta diz: “colírio Moura® Brasil”], já que eu estou falando em rótulo: “quem não tem colírio usa óculos escuros. Quem não tem filé, come pão e osso duro. E quem não tem visão, bate a cara contra o muro”.

Fausto- Eu não entendo nada da questão social palhaçal. De modo que eu vou tentar fazer uma análise do que eu ouvi até agora. A princípio está desorganizado, mas essa desorganização é boa. É boa porque ela não é 100% desorganizada, é 80% desorganizada. E 80% desorganizada dá pra você organizar. Antes de entrar no palhaço, vamos entrar no índio [risos]. 50% da população do Peru é composta de Índios. 50% da população da Bolívia (bota mais ou menos ali) é composta de índios. No México a mesma coisa. No Brasil, nós não temos 1%. No Brasil nós tínhamos mais de 3 mil tribos de índios. E essas tribos tinham suas divisões. Então você tinha mais de 3 mil línguas, 3 mil dialetos, 3 mil deuses e 3 mil tipos de medicina. Isso tudo foi morrendo. Nos Estados Unidos essa notícia saiu em Nova York, em Washington, em Detroit, enfim, nas principais cidades, nos principais jornais; mas as pessoas não tinham condições de ir até o oeste, de ir ao extremo sul para ver se isso realmente estava acontecendo. Com os negros é a mesma coisa. Os negros embranquecem na medida em que enriquecem. Hoje nós temos no mundo... eu até sugeri que se fizesse uma universidade de cursos de mediocridade. Porque realmente o homem competente, o homem criador, o homem altivo, o homem que quer mudar determinadas regras; esse homem vai ser sempre combatido e vai ser sempre derrubado. Eventualmente ele chega lá mas tem sempre 5-6 medíocres que ele põe à volta que não permitem você se aproximar. Então a mediocridade é uma arte. Os bobos da idade média, os palhaços, eles foram criados exatamente para que alguém pudesse dizer ao rei o que ele realmente era, ou seja, o que ele era: um homem com uma coroa na cabeça e que não tinha os grandes poderes divinos que ele assegurava. Então o palhaço, o bobo da corte, esculhambava com o rei mas ele podia, porque ele era um bobalhão, ninguém levava ele a sério, conseqüentemente ele podia. E essa a força do palhaço. Mas há palhaços e palhaços.

Eu fundei o jornal O Pasquim, que eu acho que foi uma revolução da história do jornalismo mundial. Eu estive exilado durante dez anos, eu voltei... não quero personalizar isso, é só para lhes dar uma idéia de que eu também fui um palhaço porque quando eu saí do Brasil eu tinha 3 colunas em 3 jornais diferentes. Eu tinha um programa de televisão e eu dava aula de jornalismo. Tinha uma namorada bonita e uma casa na rua do Heitor, uma casa que não era minha, era uma casa alugada, quando me informaram que iam me prender. Um pouco antes do AI-5 eu fugi. E voltei dez anos depois. Quando eu voltei, eu verifiquei que eu não podia mais trabalhar nos grandes jornais porque a ditadura não teria levado o tempo que levou se não fosse a aquiescência dos grandes jornais. E eu verifiquei que a maioria dos jornalistas era íntima do poder. E eu concordo com o Lúcio Flávio [Lúcio Flávio Lírio] “Bandido é bandido, polícia é polícia”. Jornalista é jornalista, político é político. Então, nesse sentido, eu sempre fui um palhaço: eu deixei de ganhar dinheiro para combater o poder.

Agora eu vou voltar a uma frase que ele disse sobre o rebelde. Não adianta ser rebelde. Principalmente um rebelde sem causa. Rebelde sem causa o que que é? É aquele filme que vocês viram do James Dean. Que é... Um bando de garotas fazendo corridas, brigando com os pais sem saber porquê. E realmente eu confesso que eu gosto tanto de adolescentes que eu pegaria os adolescentes com 16 anos, dava uma injeção neles e botava no freezer. Porque são rebeldes sem causa! Eles sabem tudo... eles não têm uma causa! Eu vou dar uma causa para vocês, meu Deus do céu, entrem para o Partido Comunista Brasileiro. Vamos ler Marx. Aí sim vocês não estão sendo rebeldes, estão sendo revolucionários. E o que que é o rebelde? Rebelde é aquele sujeito que é contra o poder porque o poder não o convidou para o seu banquete. Quantos nós tivemos aqui? Você pega, por exemplo, meus amigos do Pasquim. Crias minhas, crias, literalmente. São palhaços na TV Globo. Agora, há uma diferença entre você fazer, você mostrar o Pitbull como ele é ou você mostrar ele como poodle de divã [risos]. Se você mostra ele como um poodle de divã, você está fazendo crítica a favor. Você fala: “olha que belezinha o Delfin”, aí faz uma piada sobre o Delfin, uma piada sobre o Maluf, outra sobre o filho do Lula... e vai por aí. Então tudo vira piada. A beleza do palhaço é que ele deve encarar a coisa por... o riso dele deve ser extremamente cruel. Ele deve mostrar as coisas como elas estão. Ele deve chegar e dizer “acabei de esbarrar em uma menina ali que estava jogando o bebê na lata de lixo”. Maluco, como é que já se faz isso?, jogou o bebezinho na lata de lixo. Aqui em Ipanema. Será que vocês podem me explicar isso? Isso acontece todo dia.
Olha, nós já tivemos muitos amadores no teatro. Bons amadores. Mas a preocupação era uma preocupação mais existencial, mais assim “ah, por que é que eu existo? Onde é que eu estou? Por que é que a mamãe bateu na minha bunda? O que que o papai está fazendo?” Sabe? É claro que dentro desse terreno do teatro psicológico romântico você teve grandes, gigantes, mas não é isso... eu apenas disse isso para mostrar que eu respeito esse teatro psicológico. Mas uma menina de 17 anos fazendo uma mala e indo embora de casa poderia ser normal, mas não é normal. Por que que essa menina está fazendo a casa no jardim de fora? Não é normal uma criança estar vendendo drogas às 4 horas da manhã na Cinelândia. O salário mínimo não é normal. Nada é normal. De verdade, quando eu proponho uma mudança, essa mudança pode vir sim através de um riso, mas um riso que execra a sociedade. E eu de uma certa forma faço isso, ou seja, eu sou o palhaço do Jornal do Brasil. Eu escrevo lá como sou alpinista, todo mundo sabe [risos]. O Jornal do Brasil é um jornal de direita. Tem dez jornalistas de direita e eu de esquerda. 50% dos leitores do Jornal do Brasil compram o Jornal do Brasil porque são de direita. E 50% compram por minha causa. Claro que o dono também é de direita. Mas antes de ser de direita, ele é um comerciante [risos]. Ele sabe que seu jornal perde 50% da freqüência. Eu continuo sendo um palhaço. Mas a idéia não é viver num mundo de faz de conta e dizer assim “não, o mundo realmente pode ser mudado”.
[Canta]

“De pé, ó vitimas da fome!
De pé, famélicos da terra!
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra.
[...]

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final, [palmas]
Uma terra sem amos
A Internacional”.

É isso que eu gostaria de dizer: Palhaços, mas com uma foice e um martelo na mão! [risos, aplausos]

Sidnei- Bom, pessoal, tendo ouvido os nossos quatro palestrantes, a gente agora abre para as perguntas.

Ankomárcio- Então, meu nome é Ankomárcio Saúde, eu sou do Destrito Federal. Levando em consideração que é síntese, eu vou dar um pequeno testemunho do poder do circo. Eu sou fruto de um projeto social que foi onde eu aprendi circo. Antes de trabalhar com o circo eu vendia droga, antes de conhecer o circo, conhecer os artistas. Depois que eu conheci os artistas e o circo minha clientela aumentou muito. [risos] Melhorou muito pra mim. [aplausos] Eu queria dizer também o seguinte: para mim eu acho fundamental que o circo ocupe as escolas porque, pô, se nas escolas públicas tivesse um professor desse aqui [apontando para o Hugo]... lógico que tem cargo muito melhor porque o que o cara ganha com o circo não vai pra escola de jeito nenhum. Mas se tivesse, com certeza muitas pessoas como eu, que hoje se encontram numa situação de poder estar viajando, fazendo circo, dando minha opinião, com certeza estariam fazendo isso, porque as possibilidades são muitas. Acredito muito no que o Márcio falou do mundo ao contrário, dessa coisa do poder (que eu não vou nem explicar de novo que é longa [risos] e eu também acredito que vocês compreenderam [risos]), mas vou dizer que o que nos fortalece é isso aqui, é a multidão, somos nós mesmos. Então, esse poder que eles também acham que manipulam já nem está sendo de tanto interesse pra gente porque já estão percebendo que é isso aqui que é a fortaleza. Então, queria perguntar pra eles o que eles acham disso, do circo, além de ocupar a televisão e essas coisas todas, ocupar as escolas, ocupar a praça mesmo, ocupar as comunidades. Tanta gente ganha melhor, porque a gente ganha pouco. Mas com certeza lá a gente encontra o poder que precisa para dar continuidade. Somente isso, obrigado. [aplausos]

Celso- Boa tarde gente, meu nome é Celso, da Escola Nacional de Circo. E... assim, eu não leio muito, sabe. Então, não tenho muita base para falar. Acho que eu ouço mais do que... porque eu não gosto mesmo de ler [risos]. Por isso eu estou até meio burro pra falar de coisas políticas, de coisas públicas e de tentar movimentar alguma coisa eu mesmo. Mas, o que eu vejo assim nos debates, e pelo que eu ouço as pessoas conversando comigo e tudo mais, eu fico me perguntando se não é um pouco utópico a gente querer resgatar um modelo de sociedade não capitalista, um modelo de sociedade de não eletricidade ou sei lá...

Fausto- Eu não conseguiria viver sem eletricidade. [risos]

Celso- É claro que isso é o estereótipo que a gente está...

Fausto- Na faixa de Gaza

Celso- O que eu estou querendo dizer, de buscar uma sociedade antiga e tudo mais. Mas é que eu vejo assim... o Márcio, por exemplo, ficou 6 anos lá no cargo político e saiu fora. O Hugo ficou um ano na FUNARTE, viu como era o negócio e saiu fora. Eu queria saber deles, e de quem quiser me responder isso, pelo amor de Deus, se não existe, se não existiria uma fórmula nova da gente conseguir uniões mais criativas com o capitalismo, com a política porque lutar contra isso e ser rebelde contra isso e ter uma causa, ser um palhaço com uma causa contra esse modelo pra mim parece que as vezes não funciona. Acho que a gente tem que se unir, buscar como a gerente de patrocínio da Petrobras fez que se uniu à causa do Anjos do Picadeiro, foi uma união criativa para conseguir fazer isso acontecer. Acho que seria melhor que a gente buscasse esse tipo de união, eles tentaram entrar lá e não conseguiram, não agüentaram a barra, porque deve ser difícil pra caralho mesmo. Mas será que não existe uma outra forma de se estar lá dentro sendo artista e movimentando, estar fazendo acontecer, sem precisar ser o coordenador de sei lá onde, o coordenador da FUNARTE? Eu queria saber isso, se existe essa possibilidade e se nós, que somos artistas tão criativos, não podemos conseguir fazer as coisas acontecerem dentro da política, sem sair fora do capitalismo porque, para mim, eu acho um pouco utópico achar que isso vá mudar de uma hora para outra, para mim... não sei se eu sou acomodado, porque eu sou de classe média, não vim da classe baixa...

Fausto- Você é acomodado [risos], você é acomodado.

Celso- Mas é porque é uma estrutura grande do mundo, o mundo é capitalista. Eu acho que a gente não vai conseguir mudar isso. Eu espero que a gente consiga mudar isso de uma outra forma.


Fausto- Estou com 66 anos e não estou acomodado.

Celso- Você não está acomodado... tá no Jornal do Brasil, acabou de falar que o cara [dono do JB] é comerciante diante de tudo [risos]. E você está fazendo sua parte. O cara está lá, não vai te tirar de lá.

Fausto- Passei 30 anos sem trabalhar na grande imprensa, depois de 30 anos, 30 anos!

Celso- Mas está mudando, não está mudando agora?

Fausto- Não tenho bens materiais, moro em casa alugada. Sou jornalista há 50 e tantos anos. Por isso quando você me diz uma coisa dessas me dói. Me diz que a minha vida não teve significado nenhum. É. Quando você me diz [aplausos] vamos sair dessa contra-cultura, quer dizer que a minha vida esses anos todos, os filhos que eu fiz e que sofreram, as mulheres que estiveram comigo e que sofreram, não foi importante. Porque o que eu queria era mudar o Brasil, claro que eu queria mudar o Brasil. Quero mudar esse país. Esse regime louco que está aí.

Hugo- Tem mais alguma pergunta ou a gente faz em duas?

Sidnei- Vamos aproveitar então que esquentou, vamos pegar essas duas e depois a gente passa.

Hugo- Tá. Eu acho que dá pra juntar um pouco as duas falas, porque é assim... e muito em cima do que o Fausto falou... alguma perspectiva você está apontando com aquilo que você está usando, que é a sua arma como palhaço. Então, assim, eu não estou batalhando, Ankomárcio, numa boa, para ganhar mais. Eu acho que as minhas ambições são outras. E vou dizer, estou num momento que eu até poderia estar ganhando muito bem. Eu tenho um circo, sou sócio de um circo com sessenta pessoas trabalhando, mas ao invés de eu ter a visão do lucro, eu tenho uma visão que todo mundo fala “que cagada você está fazendo”. Mas eu não quero estar dentro, obedecendo a regra do capitalismo; então eu vou socializar a relação. Eu não estou pensando em dinheiro, entendeu? É uma questão de perspectiva, de como você se coloca diante daquilo. Então o primeiro aspecto é esse. Outro: não é que a gente não agüentou. A gente segurou a barra onde podia. No momento que eu fiz a posse como coordenador lá em Londrina, eu comentei que tinha muita contradição no fato de eu estar num cargo público, que eu tinha votado nulo já na primeira eleição do Lula por uma convicção... há uma questão geral porque o Fausto consegue falar em esquerda quando boa parte do pensamento hegemônico tenta anular a esquerda. Tenta transformar esse cara aqui num dinossauro anacrônico, quando na verdade ele está na vanguarda. [Aplausos, Fausto e Hugo se cumprimentam] Quisera eu ser apenas um dinossauro Rex. Porque é isso. A gente tem um potencial, a gente tem um poder. Nós temos o poder. Eu preferi não estar num cargo público porque eu como artista podia fazer mais do que dentro daquele esquema, é só isso, não é que eu não agüentei. Aliás, eu peitei... peitei, tomei. Aliás, deixei compromissos que foram cumpridos não porque a pessoa que estava no poder teve só a palavra. Ela teve palavra, mas ela estava enquadrada diante dessa galera. Porque a galera estava articulada. Ela já se desarticulou em alguns momentos, se articulou... a mobilização não pode ser a volta em torno do pote de ouro da próxima verba pública. A perspectiva é outra. É de mudança da própria sociedade. É de buscar um gesto revolucionário. É isso.

Márcio- Bom, esquentou, né? Então, vamos aproveitar a brasa! Eu estava falando da questão da autoridade e da rebeldia e que se pode encarar isso no Branco e no Augusto, no palhaço Branco e no palhaço Augusto. O palhaço Branco com a sua elegância, com a sua inteligência, com a sua classe. O Augusto que admira aquela criatura, que queria ser ele, mas, diante, às vezes, da arrogância eminente do Branco ele se rebela e, vou brincar aqui nessa mesa... com todo o respeito ao Fausto e todo respeito principalmente ao que o Hugo falou aqui agora em relação a ele, mas você correu o risco também de considerar pra menos o que a nossa geração tem feito. Os tambores tocam na periferia do Brasil hoje. A revolução hoje tem outro canal. A sua geração é uma outra geração que tem todo mérito e fez tudo o que pôde fazer por esse país, pagou por isso - e se paga por isso - e afiou as suas ideologias. Aquilo ali era gerado dentro das universidades, dentro de uma elite branca de classe média alta do Rio de Janeiro. Já falando hoje, com uma cena aqui que vem da periferia de Brasília, do Rio de Janeiro, de São Paulo, que tem acesso a informação a partir de trabalhos com pessoas muito parecidas e comprometidas com a revolução como você, que faz com que essa galera produza uma cena sinistra que é de apropriação de saber, apropriação de gestão e transformação da sociedade de fato. [aplausos] Só para colocar as coisas em seu devido lugar, eu, como Branco, como Augusto, fazendo papel de chutar a bunda da rebeldia. Aí a gente fica aí tudo igual, com todo respeito. Voltando...

Fausto- Eu não entendi o que você está querendo dizer.

Márcio- Não, porque eu acho que quando você falou... primeiro você começou falando que a gente estava...

Fausto- Eu ? Com todo respeito?

Marcio- Você começou dizendo que estava desorganizado. Eu achei que você fosse organizar. E aí quando você foi organizar, você acabou falando da sua geração, que eu tenho todo respeito, e em algum momento parecia que nós éramos adolescentes rebeldes sem causa. Se você não quis causar essa impressão, que eu até acredito que não, a mim causou. Então eu estou fazendo uma defesa concreta disso.

Fausto- Você está completamente errado porque eu não viria divagar e falar para um bando de idiotas... [continua falando, sem microfone, Márcio fala por cima]

Márcio- Mas idiotas nós somos, profissionais. [risos]

Fausto- Você é um palhaço sempre. É uma cena ridícula que você está fazendo.

Márcio- Mas então desculpe. Eu queria responder só...

Sidnei- Olha só, moçada, o negócio é o seguinte. Vamos dar uma organizada, não vou dar uma aqui de garoto bonzinho, mas olha só: acho que aqui cada um tem o direito de se manifestar, falar, e eu acho que a gente também tem que começar a entender, se houver esse contraponto, como está havendo do Fausto e do Márcio, são opiniões democráticas.

Fausto- Não ponham na minha boca coisas que eu não disse. Eu estou muito velho pra isso.

Márcio- Bom, eu peço desculpas humildemente caso eu tenha dito alguma coisa ou entendido alguma coisa errada. Apenas tentei traduzir aquilo que eu entendi como meu sentimento mais verdadeiro.

Fausto- Você não era nascido, eu já estava fazendo isso aqui. Não ficava pedindo palavra de ordem e todas essas bobagens.


Ésio- Meu nome é Ésio, eu queria colocar uma coisa, pensando no que foi dito pelas pessoas da mesa, no início: palhaço, poder e rebelião. O palhaço, e quando se coloca que o palhaço estabelece essa luta do poder e da rebelião, eu penso de uma maneira um pouco diferente.

Alguém- De rebeldia.

Ésio- De rebeldia, desculpa, poder e rebeldia. Eu penso de uma maneira um pouco diferente. O palhaço talvez nem lute contra o poder, mas o palhaço, por ser o desajustado, ele já está, de uma certa maneira, na sua ação questionando o poder. Não porque ele é um revolucionário, nós não podemos chamar Che Guevara, Fidel Castro, de palhaços. Eu não consigo pensar que o palhaço está exatamente na luta pelo poder porque, eu acredito muito nisso, o palhaço também não vai buscar o poder, ele não quer, jamais chegará ao poder e nunca quis isso. Aí eu fico pensando em uma questão que é: nós, que vivemos em uma política hegemônica, capitalista, de muito tempo, que já estamos nos acostumando a viver desta maneira sem questionar; nós, hoje, não vivemos mais em um mundo bipolarizado, nós temos um império que dita as regras de como viver, de como agir, de como andar, de como se comunicar. Então eu fico pensando que nós, se a gente quiser, como palhaços, assumir um local de importância, nós, palhaços, que somos desimportantes, que somos inúteis para a sociedade, se quisermos assumir esse papel, nós temos que ter muito cuidado para não sermos capturados pelo poder hegemônico que é capitalista que nos faz não crer mais em utopias ou até de ver essas utopias de maneiras levianas, ou melhor, superficiais...

Fausto- Absolutamente certo.

Ésio- E de uma certa maneira, fico pensando em uma coisa. Quando a gente começa a fazer sucesso como palhaço, neste poder hegemônico, temos que nos questionar. Será que não estamos, como o índio, embranquecendo para sermos importantes? [aplausos] Será que não estamos esquecendo, deixando de ser palhaços, para ir ensinar empresário a ser palhaço? Que empresário quer ser palhaço? [risos] É essa a questão. Nós temos que ter cuidado, palhaços, isso é bom falar aqui. Palhaços do meu Brasil, estão reunidos aqui no Anjos do Picadeiro. Façamos desse Anjos do Picadeiro de fato Anjos do Picadeiro com todo o poder demoníaco que o palhaço tem.[risos] E, só pra terminar, pensando muito numa idéia que fala o meu amigo Ismael, Aprac [nome Krahô do Ismael]. Aprac, nós temos que voltar sim a uma essência. E pra voltar a essa essência eu convido a todos nós, que temos a honra de ter uma pessoa como Fausto Wolff nessa mesa, falando para palhaços, tentando talvez fortalecer aqui uma máquina de guerra. Ouçamos a experiência dos mais velhos. Nós esquecemos que desde pequenos aprendemos, na nossa formação a ouvir “respeite os mais velhos, respeite os mais velhos”. Hoje não é preciso respeitar o mais velho porque “meu filho, com 17 anos, pode ser um bilionário”. É o mundo que a gente vive. E a gente não pode abandonar as utopias. Eu quero mudar o mundo sim. O mundo ao contrário pra mim é esse que eu olho e falo “bicho, esse mundo está ao contrário, meu mundo ideal, não é esse.” Eu não reconheço esse mundo como mundo quanto mais pensar o contrário dele. É isso. [Aplausos e vaias]


Klaus - Eu queria primeiro dizer uma coisa que é engraçada: anteontem tinha essa mesa que falava sobre o nascimento do palhaço e tinha várias mulheres na mesa. Hoje se fala sobre poder e tem só homem. [aplausos]
Mas agora que eu posso, eu vou falar. Porque poder vem também do verbo phoder, né? Isso no português é fantástico. [risos]
Aí eu queria falar que ontem eu queria ir pra palhaceata, mas não vi os outros palhaços, estava meio perdido vestido de palhaço aqui no centro do Rio [risos] andando assim, procurando os outros. Aí, dois homens na mesa de um boteco, bebendo cerveja: “ei, palhaço! Chega aí, chega aí, chega aí”. Aí eu fui lá, aproveitei e tomei uma cerveja com eles e eles falaram: “tu e teus amigos! Tu está no lugar errado, aqui, teus amigos estão lá em Brasília”. Aí, pensei “o que que os caras queriam dizer?” [risos] Ou eles queriam falar que o governo, os poderosos, as autoridades são bobos como eu - mas essa possibilidade descartei porque não me acho bobo e não acho que ele me tinha percebido como bobo –ou o cara reconheceu que o palhaço tem uma liberdade além do normal e que, com essa liberdade, ele tem o poder igual a esses caras que tomam uma liberdade que ninguém deu pra eles. Eles tomam a liberdade deles e assim criam o poder. E isso eles podem ter reconhecido no palhaço. E aí eu acho que a visão deles é errada, porque esses caras não têm o poder lá em Brasília. Os que criticam o poder deles hoje em dia, na verdade, tem o poder. A Veja, os grandes jornais, a grande mídia. Então, a situação é mais confusa. Não dá pra ver claramente quem tem o poder. Não é o Lula. Talvez seja mais a ‘Veja’. O poder está presente entre nós aqui, o poder está com a Petrobras apoiando o Anjos do Picadeiro. Então a situação é mais confusa. E isso já tem mais a ver com o palhaço porque o palhaço está aqui para criar confusão. Não sei como é no povo Krahô, mas eu li uma parada sobre, por exemplo, os indígenas da América do Norte, os Hopi, eles tem palhaços, talvez parecidos com os hotxuá, que têm a função social de criar confusão. Quando eles enfrentam o poder, eles têm que ridicularizar o poder e assim se mantém o funcionamento da sociedade com esse elemento anárquico que tem o palhaço. Então isso talvez seja o poder, usar esse elemento anárquico e criar confusão e, assim, questionar o poder e ir até o final com isso. E por isso vários palhaços do passado, do presente, foram presos. Os palhaços dos Hopi, lá na América do Norte, por exemplo, foram os primeiros que foram mortos pelos colonizadores europeus. Porque os colonizadores perceberam que esses são realmente perigosos. O Leo Bassi já ficou preso, o Dario Fo já ficou preso, vários grandes palhaços já ficaram presos porque os poderosos, as autoridades, perceberam que eles têm o poder. E o poder não é criar essa revolução com foice e martelo para instalar outro poder. O poder do palhaço não é esse; o poder do palhaço é dar poder, compartilhar poder, através da liberdade e através desse elemento anárquico que ele tem por conta da liberdade dele. [aplausos]


Alice- Eu agradeço a você! [dirigindo-se ao Klaus] Eu tinha preparado essa piada pra falar que é muito significativo que a mesa sobre a questão do poder não tenha nenhuma mulher. Isso é muito significativo da nossa realidade e cabe a nós pensar sobre isso. Vim aqui pra descascar um pouquinho. A outra coisa, querido Sidnei, eu quero propor que nas próximas edições do Anjos a gente siga mais o exemplo da Faixa de Gaza. E rolem as tortas.
Eu acho que é respeito ao Fausto eu discordar dele, discutir com ele, brigar com ele, ele brigar comigo. E a gente discute e assim que é respeito. Tá, isso é respeito. Porque o cara está vivo, pô. Que é isso? E respeitar os mais velhos eu acho que é até consideração pelo cara, pela história e pelo que ele falar. E se eu achar que ele falou uma coisa que não é legal, eu tô aqui empolgada, eu vou dizer “porra!” e vamos embora. Vamos tocar o pau! Isso é só pra começar. [risos]
Uma questão que eu acho chave é que esse textinho [o da apresentação da mesa], eu acho exemplar de algumas confusões...Estamos aqui também pra levar torta na cara. Legal, torta é com nós mesmos. Quando falou um texto na apresentação que fala do palhaço como contraponto ao poder e depois fala, uma espécie de contra-poder. É muito em cima do que você falou. Um contraponto não é um contra-poder. São duas coisas muito diferentes. E esse papel do palhaço é dificílimo por isso mesmo. Porque é como se de alguma maneira você abrisse mão da sua possibilidade de ser o grande revolucionário, o grande cara que vai levantar as grandes causas, que vai morrer pela causa e andar sem calça. Porque o palhaço não luta por uma causa, ele anda sem calça. É outra coisa. Ele é outra coisa. Ele é o cara que no movimento revolucionário, na hora em que os caras estão discutindo, vão matar o embaixador... ele se borra de medo. E ele fala “caraca, e aí? Como é que vai ser a saída? E aí, quando eles matarem todos nós?” Ele vai trazer o medo para a parada, ele vai trazer outra leitura da parada. E esse exercício eu acho que é muito moderno na história da humanidade, é muito bacana. Nunca, na história da humanidade, teve tanta gente que não teve religião, por exemplo. Isso é um fato interessantíssimo. A gente está vivendo putas guerras religiosas, a gente ainda vive um predomínio desse pensamento mas já existe uma massa crítica muito interessante de pessoas que acham... ou que têm religião mas absolutamente não acham isso importante em relação aos outros. Que vela que eu acendo, que tambor que eu toco? Eu, hein! Não tem nada a ver. Ou é budista, não é isso [olhando para o João]. Um negão budista aqui, que é o nosso exemplo. Pô, isso é maneiro [risos]. É possível ser crioulo budista. Então, ir na cerimônia, respeitar todo mundo, não é isso?
A outra coisa é essa questão da guerra e da revolução. Durante muito tempo a grande questão era o poder. Aí você tem o poder, aí sim, o contra-poder; “vamos tomar o poder”. E de repente você tem uma visão de um anarquismo cada vez mais, não sei a palavra, enfim, não quero desrespeitar nenhum anarquista que veio antes, mas de um outro tipo de anarquismo, quer dizer, de uma visão de um poder que é partilhado sim, de um poder que não vai ser uma substituição sangrenta. Tô fora. Se puxar a arma, vai sair flor, vai ter bombinha d’água, vai ter outra coisa. Tô fora. Sou contra a guerra. Sou contra a arma de qualquer jeito. Do mesmo jeito, eu acho que não tem o menor problema de debate. Debate é ótimo, xingar, bater, falar que o outro é uma besta, chamar de imbecil... Isso é legal pra gente se colocar. Agora só pra terminar, porque eu tenho que terminar, eu acho que a questão do ego é uma coisa muito importante. Eu concordo contigo em tudo [fala com Ésio], só não concordei com aquele final em relação ao Fausto no sentido do respeito. É... a questão do ego. Isso é um grande problema sim. Isso é um grande problema pra todo mundo. Não é só pra palhaço, mas pra palhaço é muito. Porque o palhaço, pra levar torta na cara, tem que deixar a torta bater. O pé na bunda, por mais técnica que você tenha, dói. E tem que passar alguma humilhação. Tem que passar, tem que doer, tem que ter esse lado. E isso é foda. Isso é um exercício diário, cotidiano. Isso é um exercício muito complicado. Portanto, na hora em que o Hugo está no poder, não é porque ele é o palhaço. Ele até é palhaço porque ele é um cara inteligente, domina a linguagem... isso tudo faz parte do palhaço que ele construiu. Mas quem foi para o poder foi o Hugo. Não dá pra ser palhaço no poder. No poder a gente é institucionalizado. Você tem que ser, o Márcio tem que ser outro cara. O Cuti Cuti [palhaço do Márcio] não durava um segundo, não assinava o... ficava olhando lá para o [olha para cima]. Na cerimônia o Cuti Cuti ia estar brincando com não sei o que, tomando água, fazendo outra coisa. O poder do palhaço, aí é outra história. É o poder da virada. Eu tenho um sobrinho que é anarquista e quando eu contei para ele a experiência de conhecer o Tortell Poltrona ele ficou muito encantado, “Palhaço sem Fronteira”, eu falando de palhaço, ele ficou todo empolgado. Passou um ano e teve aquele encontro lá do Fórum Social (um ano, sei lá, uns dois anos), e rolou uma tortada na cara do Jenuíno, lembram? E aí eles se assinaram os “Confeiteiros sem Fronteira”. Eu fiquei bolada, cheguei, liguei para o meu sobrinho e falei: “vem cá, você tem alguma coisa a ver com essa história?” “Não, que é isso, ninguém fez, não foi um ato individual, não foi porque nós, não sei quem, não foi...” “Fiado. Foi você e deu esse nome de Confeiteiro sem Fronteira”, entendeu? Só que tu tá errado. Se for palhaço mesmo, vai chegar na frente do cara, pegar uma torta e fazer aquela cena do Tortell com o Chacovachi e jogar a torta na cara da gente mesmo. Ficar olhando pro cara e ficar fazendo... [imitação]. E nunca na cara do cara. Esse quem faz é o revolucionário, é o cara que joga lata, joga... quem joga lata tem que receber lata na cara. É diferente esse papel. [aplausos]

Ismael- É o seguinte: quando eu estava sendo o cacique, era sim, também hotxuá. Mas era o mesmo o trabalho que estava fazendo, porque eu sou hotxuá. Sempre. Então tem que fazer esse trabalho com o pessoal porque nós somos hotxuá. Tem um bocado que, eu acabei de contar, tem um bocado que não é palhaço, que nem vocês que estão aqui, parece que todo mundo é palhaço, né [risos]; aí fica todo mundo rindo. Pensa que é assim mesmo. E eu também, quando eu estava fazendo isso, sendo cacique, eu trabalhava nesse negócio de hotxuá (como nós chamamos, já é outra língua, né). Quando eu acabar de falar aqui, depois, eu vou chamar uma pessoa que está junto comigo, que está andando comigo aqui no Rio de Janeiro que é o Fernando Crabim, ele vai conversar sobre isso aí também junto com vocês aqui. Que vocês são kupês, entendem mais ele. Eu entendo bem, mas... o que eu queria falar com vocês que são palhaços é que é o mesmo hotxuá também que sou eu. O que eu estou falando aqui é isso aí. [aplausos]

Sidnei- Olha só pessoal, eu vou fechar com a participação da Ermínia e aí vou passar para o Fausto, o Hugo, o Márcio darem as suas palavras por que a gente tem um horário pra terminar.

Ermínia- Eu não vou falar muito porque muitas falas já contemplaram algumas coisas; mesmo assim: nós somos produtores de história. Nós produzimos a história do nosso cotidiano. Portanto, nós não somos vítimas da história. No nosso cotidiano, no nosso micro-viver, nós estamos produzindo história e nós somos responsáveis pela história que nós produzimos. O tempo inteiro. Então, nesse produzir história, nós sempre temos que nos perguntar o quanto nós somos usados e usamos o poder. Isso está o tempo inteiro presente nessa produção. E tem uma coisa que eu tenho trabalhado muito - e isso já foi colocado, o Ésio colocou um pouco, o Márcio e o Hugo de uma certa forma - que é o seguinte: a técnica em si, ela não é portadora do bem e do mal. Quem é aquele que traz em si a ética é o sujeito que a pratica. Portanto, é uma coisa que eu tenho trabalhado com os projetos sociais, você pode aprender a fazer três alturas pra fugir do presídio, assim como você pode produzir três alturas para ajudar um menino a ter o equilíbrio pra trabalhar outras relações dentro da comunidade. Então a técnica em si não é a portadora da ética; como o palhaço em si pode ser portador, pode ser o divulgador do nazismo como pode ser o divulgador da democracia. E nós temos que estar trabalhando isso cotidianamente nas nossas produções e saberes, porque nós somos ao mesmo tempo mestres e aprendizes e nós estamos trabalhando com alunos o tempo inteiro. Então a técnica em si não é portadora de ética. Quem é portador de ética é o sujeito histórico produtor de história que está utilizando a técnica. Desculpe se eu estou chamando o palhaço de uma técnica mas eu estou dizendo como uma ferramenta, uma linguagem. Há um idéia de que usar o circo em si ou usar o palhaço em si já é ser um portador do bem. Não está nisso. E não estou falando o bem e o mal como uma questão cristã nem moral, mas quem é portador da ética é o sujeito histórico que está fazendo isso, produtor de história. [aplausos]

Fausto- Eu vou tentar estabelecer certas premissas pra deixar bem claro o que eu quis dizer (porque eu gosto de ser claro). Quando eu disse que o rebelde só é rebelde porque não foi convidado ao poder, eu também disse a vocês para vocês observarem. É só ver o que aconteceu com o PT, por exemplo, para nós termos uma idéia do que que é o rebelde. Então, o revolucionário sabe que o poder corrompe, seja ele qual for. Você dá o lugar de chefe dos porteiros para a pessoa mais simples, ela imediatamente vai começar a tiranizar a outra. É aí que entra o comunismo, é aí que entra Marx. Eu não acredito que nós... eu acho que o Marxismo tem que ser adaptado às condições sociais, econômicas, psicológicas, de cada país. Eu acredito que, se você der condições ao ser humano de ser aquilo para o que ele foi criado, e é isso que se chama cultura, cultura é dar ao ser humano a possibilidade de ser aquilo para o que ele foi criado. Se 20 anos atrás quando nós fizemos os CIEPs, foram 500 CIEPs, 1000 lugares cada um, 500 mil crianças. Essas 500 mil crianças hoje seriam homens de bem de 25-30 anos. Porque ir contra o poder não significa necessariamente ser marginal. Significa provar ao poder com palavras ou com armas que ele está errado. Então, basicamente, o papel do palhaço é o papel da consciência. É aquele sujeito que olha para você e você diz os maiores absurdos para ele “olha, tua mulher pode viver com um salário mínimo com um pouquinho de ajuda”. O governo palestino está pagando 240 dólares. Os palestinos hoje em Gaza estão morando num campo de concentração onde estão praticando tiro ao alvo com as pessoas. Ainda assim, o desempregado está ganhando 240 dólares. Ou seja, mais do que o salário mínimo daqui. Naquele tipo de situação. Por quê? Porque é um povo mais politizado. Então, nós temos que tomar um cuidado enorme quando nos falam em democracia. Nós não vivemos em um regime democrático. Isso é bobagem, isso é mentira. No regime democrático você pode ir e vir pra onde você quiser. Aqui você não pode tirar um papel num banco que você não sabe como é que é, como é que faz. Aí vão te pedir um dinheiro para ir pra ali, pra ir pra aqui. Você vive num mundo completamente burocratizado que você não entende. “Ah, eu vou para o Espírito Santo”, não vai, só se for à pé. “Ah, eu vou comer um peixe na semana que vem”, não vai comer peixe porra nenhuma. Vai comer o sanduíche do Mac’Donalds. Então é essa democracia que nós temos. E é essa democracia que nós, palhaços, temos que derrubar. Colocar uma coisa mais humana, ou seja, que dê ao homem a chance de provar que ele não foi um equívoco, que ele é viável e que as pessoas podem ser felizes desde que se dê condições culturais para isso. Eu não preciso ganhar mais como jornalista. O cozinheiro que está contente não precisa ganhar mais como cozinheiro. Ninguém precisa de duas ou três mulheres ou de quatro, cinco amantes, nem de doze, quinze casos. Mas é isso o que está acontecendo. Outro dia eu escrevi um artigo sobre a Vale do Rio Doce que foi vendida por nada e um sujeito me respondeu “mas a Vale do Rio Doce dá 41 mil empregos”. Eu disse “quem garantiu, quem escreveu que o ser humano nasceu para ser empregado da Vale do Rio Doce?”. É essa que é a idéia. A economia está crescendo, eles estão dizendo “lá tem mais lugar para escravo”. Ninguém pergunta o que você quer ser, o que você foi feito para ser. Então, a minha revolução é nesse sentido. Na medida em que o homem se informar, se intelectualizar, se aculturar; e é claro que quanto mais pobre melhor, porque o homem pobre sente na carne aquilo. Quem são os garotos mais inteligentes? Se eu tivesse que fazer uma escola padrão, uma escola bonita para criar gênios, eu pegaria os garotos que estão às 3, 4 horas da manhã na rua e ia botar eles em uma escola extraordinária. Dali vão sair gênios. Então, é dar esse tipo de oportunidade. Dar a oportunidade ao homem para ser aquilo para o que ele nasceu. Porque nem Deus, ninguém, a não ser por uma falha genética, por uma queda, por alguma coisa, nasceu pra fazer o mal ou nasceu para ser ladrão. Quem nos diz isso é o sistema e a grande imprensa que nos faz ver os mesmos programas idiotas. Nós aceitamos o mesmo lixo de Nova York, de Los Angeles, que vende o tempo todo aqui. As mesmas bonecas Barbies. Nesses últimos 30 anos o Brasil perdeu a sua cultura e perdeu a sua identidade. Quando eu era menino com 8, 9, 10 anos, eu sabia pelo menos, todo ano, 50, 60 músicas de carnaval de cor. Essas músicas de carnaval eram um mural crítico social. Eram milhões de pessoas do Brasil inteiro cantando “Você conhece o pedreiro Waldemar? Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar. De madrugada toma o trem da Circular. Faz tanta casa e não tem casa pra morar.” Isso é a cultura em ação. Isso é a revolução em ação. O resto é vaidade e autopiedade. [aplausos empolgados]

Hugo- Eu acho que, pelo tempo, é difícil entrar nas respostas das colocações, é mais fácil fazer uma colocação final, mas tentar amarrar isso tudo de alguma maneira. Passaram vários assuntos e eu só queria pincelar eles. Falar de certa forma sobre a relação que a gente tem com o poder, a separação entre personagem e persona, de certa forma a discussão não é essa. A discussão é onde que a gente limita e onde que a gente não limita. Onde que a gente está junto e onde a gente não está. Pra onde a gente está apontando. Mais do que ter essas respostas, questionar entre a gente o que que a gente está querendo com o que a gente está fazendo. Porque de certa forma o que eu queria colocar na minha fala era isso. Nós temos um instrumento potencial, uma arma. O humor é uma coisa muito forte. É um tiro violento. É um tiro pelo qual você é considerado escroto –ontem eu ouvi essa “seu humor é escroto”- porque é a visão moralista da sociedade quanto a você ter qualquer atitude em relação ao establishment, ao que está colocado. Ao ir contra isso, você é escroto. É você falar em revolução. De certa forma, o que cada um aqui está colocando é transformar a sociedade. Eles querem que você fique diante da tela quadrada da tv. Pra obedecer cada vez mais o pensamento que se coloca sobre eles e determina quem eles devem ser. Questionar; a televisão crítica, é bem diferente. O que não torna nem revolucionário em si o palhaço, nem revolucionário em si o conceito de uma cultura hip-hop que pode ser assimilada. Fazer só, em si, não é revolucionário. Por isso eu estou falando de perspectiva. Se a gente não discutir, não for mais profundo na nossa discussão, a gente vai achar que basta fazer o que a gente faz. E a gente pode acabar reproduzindo modelos e reafirmado. Esse é o grande risco. Ser palhaço. Vocês sabem quem já fez um vídeo vestido de palhaço? Bill Clinton. Fez um vídeo como palhaço. Por sinal, engraçado. Reproduzindo e reafirmando valores para que ele fosse simpático. Porque o poder usa isso. A cultura de massa, a mass mídia, usa isso. O que é uma risadinha de um candidato debatendo com o outro durante uma tentativa de humor, de uma tentativa de piada? A gente tem o instrumento, tem a arma. E não tenham essa visão também pacifista. Não tenham. Sinto muito. A gente não vai mudar só no “hahaha”. Uma hora o jogo vai virar e a gente vai riscar o chão e dizer quem está de um lado e quem está do outro. A gente vai saber quem quer mudar e quem quer acomodar.

Fausto- Basicamente é o seguinte: só haverá mudança se nós mudarmos. Eu acredito na revolução marxista que parta através da educação e da cultura. Agora, eventualmente, se tivermos que pegar em armas para defender a educação e a cultura, faremos também. [risos]

Hugo- Eu acho que está dito. Têm muitos assuntos que ficaram, só para pôr um “parente” nisso aqui, citou-se rapidamente a Internet: não basta a gente ter o instrumento se a gente não souber pra que usar. Muitas vezes as pessoas ficam usando todos os grupos de internet, naquilo que a comunicação é desnecessária. Para discutir os assuntos que nos interessam, criou polêmica, parece briga pessoal entre os egos! As pessoas não estão discutindo essas perspectivas. Tem que saber usar o instrumento que está ali. É importante a gente dizer o que achou do encontro, é bacana, dar uma nota de falecimento, dizer não sei o que. Tudo bem. Mas se a gente não entrar na discussão para valer, ter coragem e culhão para enfrentar a discussão, a gente não vai andar.
Para encerrar, uma visão talvez um pouco oriental, que na oficina eu apliquei - que era a cabeça de Yorick - Yorick é aquela caveira que o Hamlet segura, vazia, que a língua já tentou alfinetar o rei. Eu acabei usando um hai-kai, na verdade um aprendizado de um hai-kai. Um discípulo do Bashô, que é um grande mestre do hai-kai, achou que tinha feito um grande hai-kai quando escreveu o seguinte:

“Uma borboleta vermelha,
tirai-lhe as asas,
um pimentão vermelho.”

E Bashô olhou para ele e falou: “para que serve a tua poesia? Inverte-a”:

“Um pimentão vermelho,
dai-lhe asas,
uma borboleta vermelha.”
[aplausos]

Márcio- A gente falou de um monte de coisas e não deu para concretamente focar exatamente em o que é a cultura; acho que o Hugo de uma maneira ou de outra falou a diferença entre a cultura que é a manutenção e a arte que é a ruptura e não deu para aprofundar; acho que quando veio de lá, Ankomárcio também falou da importância disso na educação, e a gente acabou não conseguindo entrar... eu olho daqui pra aí e eu vejo com muito respeito todo mundo, vejo artistas mas fundamentalmente eu vejo muitos trabalhadores. Eu sei mais ou menos quem são as pessoas que estão aqui e com o que elas estão envolvidas, com projetos em comunidades e ligados à educação. Acho que a maioria dos artistas aqui tem uma ou outra experiência ligada a isso, tentando outros caminhos. E a gente fica falando de palhaço, poder. Parece que está se referindo somente ao espetáculo, né? “Ah, meu espetáculo fala disso, então eu sou mais revolucionário do que o outro que só fala bobagem”. Eu não sou contra nada, pode assustar. Eu só sou a favor das coisas em que eu acredito. E nesse sentido, eu acho que a gente pode contribuir com a discussão do capital e da produção. Acho que quando você resolve ser artista nesse país, trabalhar na rua, em associações de moradores, escolas, praças, parques, circos... e quando você vai para o teatro, você tenta buscar uma política que beneficie a geração de ingressos. Depois, quando você tira um CNPJ e paga uma série de impostos, e você aprende a fazer projetos e você não negocia necessariamente seus projetos com as empresas, mas quando você negocia com órgãos como a FUNART, com o estado, que lhe garante a possibilidade de manutenção de uma pesquisa, de um trabalho. Que esse trabalho melhora a sua capacidade profissional, faz com que você possa viajar mais para outros lugares, interiores, brasis... essa geração tem feito isso, essa geração que está aqui tem tentado fazer isso já nos últimos 10, 15 anos. E aprendendo com isso a produzir e a distribuir riqueza e poder. Tenho certeza de que a maioria das pessoas aqui, se não fosse isso, não saberia como sobreviver. Nem na sua sanidade [aponta a cabeça], nem na sua sobrevivência [aponta o bolso]. Portanto, acho confuso tentar confundir sucesso, êxito profissional, com sucesso comercial. O êxito de cada um... tô aqui de frente para o Diego, aqui com a sua kombi, com o seu patrimônio. Patrimônio! É que o grande problema é que eu acho que a gente é de uma geração que a igreja considera dinheiro ruim, os hippies consideraram o dinheiro ruim, os comunistas consideraram o dinheiro ruim. E na verdade acho que o dinheiro pensado como fim, ele é ruim. Mas dinheiro pensado como meio, como meio de produção que garanta o seu espaço de trabalho, a sua pesquisa, que faz você gerar trabalho e renda para pessoas que não estariam trabalhando naquele momento, e com isso até mais, produzindo conteúdo, publicando, dando oficina, levando esse trabalho; eu acho que isso é apropriação do seu próprio tempo. É você interferir no relógio do sistema, é não ser regido pelo relógio do sistema e se apropriar do seu próprio tempo, da sua produtividade. Quando você se apropria do seu próprio tempo e da sua produtividade o sistema não te tem mais. E a partir daí você pode produzir novos valores, disseminados através da sua prática, seja artística, pedagógica, política. Acho que, de uma maneira ou de outra, essa geração tem dado esse tipo de exemplo que é a da força da sociedade civil. A gente tem hoje comissões, temos as câmeras setoriais de circo, outro dia encontrei o Ankomárcio e onde é que ele estava? Estava na reunião da câmera setorial, isso é um avanço, isso é uma conquista de alguns anos. Dentro da democracia, ok. Mas isso é um avanço. Dentro de um ministério que permitiu isso, mas dentro de uma vitalidade da sociedade. E de artistas produzindo esse tipo de realidade. Acho que isso é transformação em curso. Acho que isso é experiência acumulada. Acho que esse saber precisa ser disseminado. Saber que existe um tipo de pessoas, de gente nesse mundo - que há dissidência desse modelo de sistema incorporando na sua lógica uma outra forma de produzir baseada na arte, na educação, no direito -, que é produtiva e gera sobrevivência. Que vai fazer você pagar imposto... aí o problema é que a gente acha que fala “projeto econômico” você já virou capitalista. Tem um projeto econômico. O comunismo tem um projeto econômico. O anarquismo tem um projeto econômico. Não significa capitalismo. O capitalismo não é o único projeto econômico. Mas cada grupo aqui tem a sua estratégia econômica, seja através da bilheteria, do chapéu, do recurso. O que que eu faço: eu gasto o meu dinheiro ou compro uma kombi para a minha companhia? Para levar o meu equipamento? Isso aí, a gente está movimentando um novo saber. Esse saber ainda não foi pensado, sistematizado, escrito, transmitido. Vai vir daqui a uns 25 anos, e se a gente vier aqui nessa mesa mais cascudo, a gente vai ter esse exemplo e ver como isso aqui definiu inclusive nos rumos da política de cultura do próprio país. Acho que a nossa experiência é louvável e, bem, por falta de uma frase mais impactante eu termino por aqui. [aplausos]

Sidnei- Quero agradecer a participação do Fausto, do Hugo, do Márcio, do Ismael e principalmente a participação de vocês que deram a qualidade para essas discussões, tanto para a primeira mesa quanto para a de hoje, comparecimento massivo e com questionamentos instigantes que dão sentido, porque na verdade os temas foram meros estopins para a gente conversar e trocar idéias, o que é pertinente para um evento que tem o nome de encontroo internacional de palhaços.

Mesa redonda realizada no dia 09/12/2006

Um comentário:

Véu disse...

Vamos ver se vai ser postada...pq se fala muito em liberdade, mas o blog é censurado.

Acho q nessa discussão ficou bem clara a posição reacionária do Libar e, consequentemente, do Anjos, que vê na parceria com as estatais um viés de sobrevivência e abarcamento da tradição do riso facil pelos meios de comunicação de massa. Enquanto houver esse abarcamento, essa cultura do tapinha nas costas e uma parceria entre inimigos ideológicos, acreditando que é melhor estar junto, debaixo da asa do capital, sendo vigiado mas não punido, não chegaremos às vias de fato, ao movimento terceiro mundista defendido pela geração chacovachi.
Até as terminologias como clown brasileiro são mostra desse aculturamento, dessa fraqueza que o riso apresenta hoje.
Somos fruto da coisificação. é melhor ter camiseta do espetáculo pra vender na saida do teatro, pq assim parece que é grandioso, parece q é organizado, mas quem fez as regras foram outros.
Quando se fala em direito à cultura, não se nota a contradição. é como falar de dieito à vida ou à morte. Ninguem dá esse direito, é condicional, é natural assim como cultura, ir e vir, linguagem. não preciso de direito a isso, mas acredito que tenho o direito. que alguem me permite ou proibe disso e daquilo.
Poder, verdade e direito estão encrustados na cabeça do pessoal como questões ditadas, concedidas, escritas em algum lugar.
Enquanto for assim, as iscussões vão terminar como essa terminou: cervejinha no buteco...e ainda tem gente falando que o brasil não tem cultura...tem sim: a do tanto faz.
e aí, marcião, vendeu bastante camiseta? voltou ao "poder"? que papo brabo...ta na cara que anjos do picadeiro é só a manifestação pop, mass midia como colocou o Possolo. Palhaço mesmo tá falando da criança largada na lixeira, da criança que morreu de sede, do pai de familia que dormiu na rua pq não interou a passagem pra voltar até o barraco. e não de crises criativas sobre o palhaço clown q não decide se quer ser stand up ou cuti cuti...
Ja dizia o Assumpção: culturalmente falando, brasileiro já é tudo aculturado.
vai que vai....viva a discussão,
enquanto for preciso, temos que falar.
Um abraço pra quem vaiou o esio, esses sim não vão mudar nada, mas são muuuito democraticos.