terça-feira, 5 de agosto de 2008

Picadeiro quente apresenta quem tem o que dizer

Hilary Chaplain por Álvaro Assad e Jorge Cabral


Álvaro - Como você começou como palhaça?
Hilary - Há mais ou menos 20 anos atrás eu comecei, talvez um pouco mais; eu trabalhava com um parceiro. Ele era um palhaço e eu era atriz. Eu fazia muito teatro físico. Nós começamos a trabalhar como um duo e eu fiz um pouco de clown também. Mas eu não era realmente interessada em ser uma palhaça. Eu vi alguns dos melhores palhaços que nós temos nos Estados Unidos. E eu adorava o que eles faziam. Mas não era o que eu queria. Uns dez anos atrás eu finalmente decidi investigar de verdade o que o clown era para mim. E depois de alguns anos eu comecei a perceber, fui capaz de admitir, que a razão pela qual eu dizia que não era o isso o que eu queria era o medo. Eu não achava que seria capaz de fazer isso. Então tive alguns professores maravilhosos que me mostraram o caminho. E então comecei a descobrir o que realmente significava para mim pessoalmente, e comecei a adorar.

Álvaro - Nos Estados Unidos têm festivais de palhaços?
Hilary - A maioria dos festivais de palhaços dos Estados Unidos é mais de “palhaços por hobbie”. Alguns são profissionais, mas é um mundo muito diferente do dos clowns. É um mundo de clowns em que o figurino e a maquiagem é o que eles pensam que faz um palhaço. E eles usam grandes adereços e fazem todos os mesmos números. E fazem passeatas e festas de aniversário. Assim é a maioria dos festivais nos Estados Unidos. Tem um festival novo em Nova York, é um festival bonito que está tentando envolver todos os tipos de palhaços. Eles estão realmente se concentrando em palhaços de teatro. E aquele outro tipo de palhaços não tem espaço nesse festival. Nós temos um nome para eles, não é muito legal.

Álvaro - Mas não tem problema, pode falar...
Hilary - Eu não sei se vai dar pra traduzir bem, mas nós os chamamos os “Iama clown”. Porque eles vão a uma loja, compram uma fantasia, colocam maquiagem e dizem “Yah, I am a clown” [trocadilho em inglês, “É, sou um palhaço”].

(risos)

Álvaro - Bom, eu vou fazer uma pergunta para você que é uma das perguntas desse encontro: palhaço bom nasce feito?
Hilary - ... é uma pergunta difícil, não é? Eu acho que você pode realmente aprender muito, ensinar muito sobre comédia, sobre os princípios do palhaço. Acho que todo mundo tem internamente a capacidade para ser um palhaço, mas nem todo mundo tem a capacidade de se abrir verdadeiramente para esse mundo. Para algumas pessoas esse mundo vem muito fácil e, sim, elas nasceram palhaças. Outras pessoas têm uma jornada difícil para chegar lá mas podem aprender o que, nelas mesmas, pode ser ridículo e entrar no mundo do palhaço. E outras pessoas... esqueça! Porque elas protegem algo, suas defesas estão armadas. E se elas não conseguem apreciar e entender isso nelas mesmas, também não conseguem compartilhar isso bem.

Álvaro - Gostaria de fazer alguma pergunta?
Hilary - Tem uma história ótima em um livro de um professor de clown da Inglaterra. Ele tinha um exercício que era dizer “Oi, meu nome é Hilary. Eu sou estúpida”. E só, sem comentário, simplesmente ficar na frente e dizer “Eu sou estúpida”. Sem comentários e com honestidade. E uma estudante não conseguia fazer. Ela ficava dizendo “mas eu não sou estúpida! Eu não sou estúpida, sou uma advogada! Não sou estúpida! Não posso dizer isso!” E quanto mais ela dizia mais ridícula ela se tornava. E todo mundo começou a rir, rir. E esse era o seu palhaço. Mas ela nunca conseguiu entender que funcionava.
Quando eu finalmente entendi que tem uma parte de mim que mantém minha dignidade, pude fazer os números que vou apresentar aqui. Essa é a “persona” que eu levo para fazer a mulher de alto estilo, de alto grau de dignidade, que tem sua queda e tenta sair desse fracasso, é onde meu clown pode viver. Eu tive que aceitar essa idéia que as pessoas têm de mim. E então eu pude brincar com isso. Graças a Deus eu achei!

Álvaro – Como você vê o mundo dos palhaços a partir dos EUA?
Hilary - A gente podia mudar o mundo. Sabe, seria ótimo se a gente pudesse trazer todos os brasileiros e mudar o mundo do clown nos Estados Unidos. Nós temos muita gente boa agora que está interessada em clown.

Álvaro - Nós temos aqui um sinônimo de palhaço, Ronald Mac’Donalds.
Hilary - Nós temos muita gente agora que vai para a escola na Califórnia ou vai para o Le Cock estudar Philip Boulier ou para uma outra escola em Paris, e que estão estudando, levando realmente a sério. Estão estudando os grandes professores e descobrindo inteiramente esse mundo do palhaço de verdade, do que nós chamamos palhaço de verdade (por que tem outros palhaços que não aceitariam isso bem). É ótimo ver mais e mais gente querendo fazer esse trabalho.

Jorge - Eu queria saber se você percebeu nos palhaços brasileiros alguma singularidade e, por ser o Brasil um país de terceiro mundo, se há alguma influência disso numa alma de palhaço. Se um palhaço de um país nórdico traz consigo alguma coisa diferente de um palhaço de um país tropical. Ou, se não, o palhaço é mesmo a singularidade de cada ser humano?
Hilary - Algo que eu notei é que quando as pessoas encontram liberdade para jogar aqui, elas realmente vão longe. Acho que é mais difícil pra os americanos acharem esse tipo de liberdade.

Jorge- Por quê?
Hilary - Clima mais frio? [rindo] Você observa o mundo e em lugares mais frios as pessoas são mais fechadas. Quanto mais ao sul ou ao norte você vai as pessoas se tornam mais fechadas. Mas não é uma regra de forma alguma, existem exceções. Eu penso que o que faz a diferença é de quem você aprende.

Jorge- Você acha que dificuldades sociais podem contribuir para o nascimento de um palhaço?
Hilary - Eu acho que quando uma pessoa tem mais conflitos na vida e luta com mais força contra a vida, acho que isso alimenta o mundo do palhaço muito bem, mas também acho que não é necessário que aconteça. Mas eu não tive muitos conflitos na minha vida. Então o meu trabalho é sobre coisas diferentes. É sobre a minha experiência de mundo. Que seria muito diferente de... eu vi o Xuxu na rua em Londrina e sei que ele cresceu numa pequena cidade no norte, muito pobre. E seu trabalho tem um diagnóstico disso, é muito diferente do meu tipo de clown. Tem quase, e eu o encontrei em cena - é por isso - tem quase uma selvageria em seu trabalho. Enquanto o meu é mais... talvez, uma mulher judia neurótica.

Álvaro - Então é isso. Muito Obrigado!

Um comentário:

Turismólogo disse...

reinventando o circo

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