terça-feira, 17 de junho de 2008

Aziz Gual conversa com Ricardo Puccetti

Ricardo: A organização do Anjos do Picadeiro gostaria que a gente falasse um pouco sobre a importância de eventos desse tipo para os palhaços. Em sua experiência e em seu trabalho como palhaço - você teve a oportunidade de trabalhar em festivais de palhaço - o que pensa disso? O que aprende com eles? Pode falar um pouco sobre isso?

Aziz: As experiências em festivais de palhaço no México e na Europa foram muito determinantes porque eu compreendi que temos uma mesma maneira de ser, de viver nossa experiência. As fronteiras na linguagem do palhaço não existem, se convertem em uma mesma linguagem. Então as aspirações de palhaço profissional que buscamos é algo que sempre terá uma explicação semelhante nas pessoas que estão fazendo um trabalho sério e comprometido. Isso faz a reflexão esquentar e, às vezes, depois de terminado o encontro, pode-se chegar a um estado de análise filosófica. Então o Anjos é um encontro de pessoas que fazem esse caminho, esse trabalho, de uma maneira séria; pensam da mesma maneira o que é clown, uma linguagem do coração e da alma. Há um vínculo entre o coração e a alma. É um gênero que, de um ponto de vista, apresenta uma esperança. Mais além de uma revolução, mais além de uma política. E mais além do teatro. O palhaço é uma opção para sobreviver em um mundo com tantas crises distintas. Quando me encontro com palhaços em outros festivais posso entender, conversando com eles, que compartimos uma linguagem sem fronteiras.

Ricardo: Sim, como se compartilhássemos uma forma de ver o mundo. O palhaço vê o mundo de uma maneira distinta das outras pessoas, penso. Possibilita que a platéia, o público, também tenha essa oportunidade de ver outros ângulos, outras formas de relacionamento. Aproxima as pessoas.

Aziz: Sim, porque representa formas de aproximação de pessoas muito honestas. Não é a mesma distância do teatro. Teatro tem uma distância distinta. Já haviam dito que isso não é novo, é algo que já existe e só se pode descobrir uma nova personagem. Por isso não há realmente uma escola de palhaços, é apenas uma experiência de vida individual. Mas cada um descobre o mesmo. O mesmo já descobriram Charles Chaplin, The Grok, grandes clowns da história. Por exemplo, uma frase muito importante de Chaplin é “o riso é a distância mais curta entre duas pessoas.” Isso quer dizer que vamos além da linguagem. Não há limites.

Ricardo: É uma forma de encontro tão forte que não se vê em outras formas de artes. É impressionante porque é muito antigo. Uma forma que sobreviveu ao tempo, que tomou muitas maneiras de se manifestar. Você vê quantos tipos de palhaços distintos existem mas, você disse, o trabalho parte do coração. Há muitas maneiras, muitos caminhos distintos e pessoais de se fazer isso mas se busca a mesma coisa, não?

Aziz: Sim. Há a busca de tipos de risos, por exemplo. Talvez não seja tão fácil, mas é possível fazer. Acredito que o trabalho de clown é analisar como você quer que riam, que tipo de riso você quer. Essa é uma análise intelectual de importância na filosofia. Que tipo de riso e de espetáculo. Já não é a mecânica de fazer rir, mas como vou estabelecer um vínculo; é um trabalho xamânico. É um condutor de energia e, para mim, existem diferenças nesse momento em muitos tipos de trabalho porque se pode fazer com que, quando se quer, as pessoas te aplaudam ou você pode conduzir isso sempre com a esperança de que possa subir, possa se elevar, possa chegar na luz, possa fazer algo por dentro dessa abstração.

Ricardo: Nessa gradação do riso, do sorriso até a risada forte, há toda uma diversidade de possibilidades.

Aziz: Por isso eu prefiro não falar [no espetáculo]. Porque acredito que quando você não fala, retorna a possibilidade de chegar aonde cada um tem a energia, sua própria energia. Você conduz a energia, tratando de ver se há uma energia luminosa. Cada pessoa vai com essa energia, que é sua mesma.

Ricardo: Porque o palhaço, quando trabalha, está muito sensibilizado, muito aberto, muito perceptivo, muito emocionado também, muito disposto a encontrar a platéia. Porque trabalha para ela. Ele provoca o mesmo na platéia. Para mim isso é muito importante no mundo de hoje, quando o mundo está tão fragmentado, quando as pessoas não se tocam, são distantes. O palhaço abraça a todos. É uma espécie de comunhão.

Aziz: Porque o palhaço é a grande metáfora do ser. Quero dizer, o palhaço é o encontro de uma pessoa consigo mesma por uma questão muito simples: o palhaço é o que é, em suas circunstâncias. Igual a qualquer indivíduo que encontra a si mesmo. Quem sou? Quando se descobre quem se é, é a mesma resposta do que é um palhaço.

Ricardo: Muito interessante isso que você diz. Tenho que saber quem sou, mas é como se a cada vez eu tivesse que descobrir novamente quem sou, a cada nova função. Você sabe, mas quando entra é como se precisasse saber quem é hoje. O que trago do meu passado, o que vou aprender hoje, nesta circunstância, nesse espaço, com essa gente que veio para ver o palhaço.

Aziz: Da mesma maneira que a vida. Uma pessoa não é hoje o mesmo que foi ontem. Porque viveu outra experiência transformadora. E o clown tem uma experiência transformadora que é reveladora para si mesmo. Eu acredito que, além disso, o clown é também um caminho para se chegar a si mesmo, não só para chegar ao público, mas há o contato, a reação de uma relação maravilhosa, é o descobrimento de si mesmo, que pode surpreender.

Ricardo: De quem faz e de quem assiste também, porque é um canal em que as pessoas podem se encontrar. O que você pensa então do efeito do tempo, da vida, no trabalho do palhaço?

Aziz: Posso supor, é minha experiência, que se está sempre numa busca e que não se pode amadurecer muito cedo. No seu caminho tem que ter paciência, tem que saber o que está construindo. Penso que um palhaço pode terminar de constituir-se como um ser depois da metade da sua vida, depois dos 50 anos. O ser humano até os 20, 30 anos pensa em si mesmo. É uma etapa de egocentrismo. Depois dos 30 até os 45, 50, começa a pensar nos demais, começa a saber dos demais. Mas depois dos 50 você se deixa e deixa os outros, e começa a pensar em Deus, na filosofia. Deus: na verdade não estamos falando de um ente religioso, estamos falando de algo muito pessoal, uma experiência, que tem a ver com o ser humano. Então acredito que não se pode apressar o tempo. Digamos que nascêssemos outra vez com a experiência de um velho de 90 anos. Nascemos e depois seguimos vivendo e podemos nos tornar cada vez mais imaturos. Quando formos velhos, então já não importa. E seria muito interessante começar outra vez. Sem conhecimentos. Então o tempo é a experiência da capacidade de colher, desfrutar cada fragmento de tempo. De esmiuçar o tempo porque cada instante é fantástico e cada detalhe é sublime.

Ricardo: É fundamental. É um pouco como o palhaço. Com o tempo o palhaço se torna velho e criança ao mesmo tempo por ter essa capacidade de viver o momento. É um paradoxo interessante.

Aziz: E acredito que nossos mestres, mais que os mestres da técnica do clown, os melhores, são os velhos. Poder observar os velhos como o senhor homenageado desse ano, como se chama?

Ricardo: José Vasconcelos.

Aziz: Ver José Vasconcelos é entender algo. Mas ainda não sabemos porque temos um pecado que se chama juventude. Também ver os nossos filhos, você vai ver, é o mesmo. É descobrir.

Ricardo: Porque os velhos e as crianças são seres em sua plenitude. Porque a vida, a experiência molda um ser. E as crianças porque nascem com a potência, toda a potência, do que vão ser. Mas está tudo lá, concentrado.

Aziz: Por exemplo, as crianças têm os olhos perceptivos ao mundo, à vida, a cada coisa. Os velhos, às vezes, não vêem muito com os olhos. Mas vêem o ritmo, o tempo. São quase iguais, se movem de maneira muito parecida. O tempo é uma resposta para nós. Acredito que podemos ver, podemos supor, mas não vamos terminar de saber até que sejamos velhos.

Ricardo: E como é para você trabalhar com diferentes tipos de público? Como foi trabalhar com o público brasileiro, como é isso, fazer adaptações, perceber o público?

Aziz: É a minha primeira experiência no Brasil. Foi uma experiência mais de exploração, preocupada com a exploração do público. Passei os dias que estive aqui vendo as pessoas. Para tentar entender seu ritmo. Eu saí experimentando. Porque cada vez que vou a um país, tenho uma nova resposta, um novo caminho a vencer, um novo retorno. Ainda não entendo, não se entende tão rápido, você vai conhecendo as pessoas. Por isso é bom diminuir a distância para você poder comunicar. Mas os risos que se conseguem são muito diferentes e acho que isso tem a ver com a cultura. Surpreendem-se com coisas distintas. Por exemplo, no México é muito improvável que as pessoas consigam fazer tic-toc-toc tic-toc-toc [batucando no ar]. Você consegue, e de cinco, um não consegue fazer. Aqui qualquer criança, qualquer pessoa pode fazer o ritmo. Sem dúvida é um público muito generoso. Talvez o público no México não respeite tanto a arte do clown porque não há tantos, há menos. Agora estamos atravessando um momento que é como um atraso, mas está se regenerando. O circo está posto em voga agora. E nos damos conta de que este é um caminho de contra-cultura, de arte comunitária, de arte de rua. Então no México estão surgindo muitos jovens, mas ainda não há um respeito pelo trabalho para que venham velhos e falem do clown, não há um entendimento dessa arte. As pessoas do circo, os palhaços, ainda que sejam pessoas que tenham muitos ofícios e muita informação, ainda há muita ignorância, muita marginalidade cultural. Talvez de muitos deles eu nunca tenha ouvido falar. Sabem todas as rotinas clássicas e as fazem, mas têm outra dimensão e outra forma. Sinto que no Brasil, me dá essa impressão por ver as mesas, há uma discussão. Busca-se discernir. Mas isso é porque há uma parte da sociedade que se formou com educação, com respeito, sensibilidade, ambição estética e de conhecimento.

Ricardo: Poder refletir sobre o que se faz.

Aziz: Também é um problema social. Porque, no México, não interessa ao sistema que as pessoas tenham cultura, que pensem, que sejam.

Ricardo: Para mim, a tradição clássica do palhaço é uma paixão, uma fonte de inspiração onde vou beber sempre que posso. Depois, é claro, tem-se que encontrar uma maneira própria de fazer, com sua personalidade. Eu vejo um pouco disso no seu trabalho também. Há uma relação com a tradição, não?

Aziz: Esse espetáculo é um espetáculo com qualidades de palhaço tradicional. Todavia é um primeiro espetáculo que tem muitos anos e foi um caminho em que sempre descobri coisas de mim mesmo, apesar de ser um espetáculo com essa parafernália histórica, com muita maquiagem. A partir disso, por isso, no final eu retiro a máscara; os espetáculos seguintes são sem máscara. É um processo, o primeiro espetáculo tem a ver com o segundo e o segundo com o terceiro... e não só com a minha evolução como palhaço, mas também busco a experiência, a maneira de praticar o que se vai vendo.

Ricardo: Há algo de um antropólogo no palhaço, não?

Aziz: Completamente.

Ricardo: Porque entende as pessoas, entende as diferentes culturas, é muito observador. Pode-se ver isso em quase todos os palhaços. Faz parte de sua natureza.

Aziz: E sempre se busca algo para comprar em algum lugar, que tenha a ver com a música, que tenha a ver com a história. E que sempre é algo extraordinário.

Ricardo: É muito afetivo, o palhaço, não? Vê algo “ó, eu gosto”. Como as crianças. Bom, talvez para registro, você queira dizer algo...

Aziz: Claro. Para mim, estar no grande encontro Anjos do Picadeiro me enche de satisfação porque acredito que é o movimento mais completo e mais sério de clown na América Latina. É uma busca muito interessante porque não tem nenhum sentido comercial. É uma busca do palhaço na sua essência, do palhaço como função social, como gênero de contato social e comunicação e de qualquer coisa que possa chegar a ser muito perigosa. Muito perigosa porque as pessoas o querem. Começa então uma grande necessidade, começa-se a gerar isso. Acredito que para mim representa um convite a seguir falando no meu país para que isso possa gerar mais e possamos ser realmente um exército de gente dedicada à conscientização sobre a injustiça, a infelicidade, a desesperança de que tanto padecemos nos países de terceiro mundo, porque não se compartilham as coisas da mesma maneira e porque há falta de consciência social.

Ricardo: Foi um prazer para nós, palhaços brasileiros, você poder ter vindo porque o Anjos do Picadeiro, desde o início, foi um encontro de palhaços que gostariam de trocar, de se conhecer, de aprender. Esse ano são 10 anos de Anjos do Picadeiro e esta espécie de família de palhaços se manteve: os primeiros que participaram estão aqui hoje. Felizmente. Então para nós é um grande prazer e esperamos que volte sempre.

Aziz: Muito obrigado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal a colocação do Aziz sobre o estudo de campo que o palhaço deve fazer em cada lugar que vai...mesmo com cenas clássicas, pode-se experimentar linguagens que aproximem os artistas do público! Vi o espetáculo e me emocionei com sua maneira singela. Viva os palhaços! Nos trazem frescor, reflexões e pureza, por mais perversos que sejam!

Anônimo disse...

Muitas reflexões importantes nesse papo. A qustão do tempo é uma reflexão permanente no fazer do palhaço, seja na compreenção do tempo cômico, seja na reflexão metafísica da ação do tempo sobre a existência humana.
Compreender que a possibilidade de se tornar um bom palhaço, está intimanente ligada a minha capacidade de me jogar num aprendizado em que o tempo é o senhor supremo, foi algo que me fez tranquilizar. E, tb, me permitir provar, experimentar, errar e buscar reconhecer-me na ação, no ato de me entregar a busca da reflexão da existência humana.
Passando só um pouco dos 40, vejo que, sem ansiedade, daqui a pouco poderei desfrutar com mais qualidade, do prazer de escolhido o ofício de ser palhaço.
Sotigui Koyaté, Griot, ator de Burkina Faso, uma vez disse que no seu povo a pessoas só começam ter direito a voz depois dos 45 anos. só aí comunidade começa a dar ouvidos aquele cidadão, que deve guardar seus primeiro 45anos de vida aprender a escutar. Se essa regra fosse válida para os palhaços iria facilitar um monte de coisas.
Viva o encontro!

ieda magri disse...

Vocês, anônimos, já devem ter a revista: não deixaram seus endereços.

concordo com vocês e participo do viva do anônimo 1 que coloca, sabiamente, o frescor, a reflexão, a pureza e a perversão na mesma taça de palhaço; e agradeço o anônimo 2 por jogar luz nesse ensinamento do Sotigui.
valeu!