sexta-feira, 23 de maio de 2008

Picadeiro quente apresenta quem tem o que dizer

A entrevista desta quinzena é com Chacovachi. Aproveitem a conversa, pois Márcio Libar tinha o que perguntar naquela tarde de dezembro de 2006, na quinta edição do Anjos do Picadeiro.

Márcio Libar- Então, Chacovachi, quero dizer que estava morrendo de saudades de você, há quatro anos a gente não se vê e agora eu vejo você com um filho no colo... É uma honra para mim a gente poder bater um papo aqui para ser registrado. Que a gente joga muita conversa fora!
Eu quero fazer só três perguntas; vou fazer logo as três e aí a gente vai falando.
A primeira é: qual o sentido e a importância que a arte do palhaço tem na sua vida pessoal? Depois: qual o sentido dessa arte do palhaço e qual a importância que ela tem no mundo de hoje? E, por último, o que você diria para um jovem artista ou um palhaço, para alguém que esteja pensando em assumir essa arte?


Chacovachi - Perfeito. Primeiro vou tentar me lembrar de algo que você disse...[risos] Sou muito agradecido e já sou um palhaço, depois de 25 anos de estrada. Essa é toda a minha vida. Eu creio, querido Márcio, que não só eu, mas todo mundo que alcança uma meta, principalmente os artistas que têm esse espírito livre-pensador, os aventureiros... que se eu não tivesse sido artista talvez teria sido vendedor de drogas na esquina da minha casa. Possivelmente, seguramente. Eu agora vou comprar na esquina da minha casa, não vendo! [risos]

Márcio - Tem uma piada do Ancomárcio, palhaço de Brasília: “eu era um jovem de rua e vendia droga para viver. Agora virei artista de rua e vendo muito mais”. [risos]

Chacovachi - Ao encontrar o sentimento de criar, eu me lembro que esse foi o primeiro sentimento que tive ao decidir dedicar minha vida a essa profissão. Eu nunca tinha pensado em ser artista. Para mim artista era, na minha cultura, não sei... as pessoas jovens que via pelas ruas, brancas e bem vestidas...

Márcio - Flashes, televisão...

Chacovachi - Para mim artistas eram pessoas que não são como nós. Não conheci algum artista quando era jovem. Não conheci, então estavam distantes da minha vida. Apesar de que tocava baixo em uma banda de rock, de menino.

Márcio - Isso foi em que ano?

Chacovachi - Eu tinha 15, 16 anos. Até 15 fiz serviço militar. Por 3, 4 anos da minha adolescência. Como é difícil na Argentina, havia a história dos militares... eu tinha o cabelo por aqui [apontando o meio do braço], lembro que me faltava um dente, tocava baixo em uma banda. Era bastante perigoso, mas Deus me pôs a mão e disse “não vai acontecer nada,menino” [rindo]. E passou. Mas eu não sentia que era artista. Logo que saí do serviço militar - eu fiz dois anos de serviço militar...

Márcio - Obrigatório?

Chacovachi - Obrigatório. Eu fui soldado na guerra das Malvinas, segundo turno, não fui de frente de batalha, mas eu fui soldado da guerra.

Márcio - Cortaram seu cabelo?

Chacovachi - Com certeza, dois anos!

Márcio - Você serviu, serviu mesmo?

Chacovachi - Você não sabe o que é isso?

Márcio - Se for igual ao do Brasil... mas eu não servi.

Chacovachi - Alguma pessoa de direita falaria “faria bastante bem a você fazer o serviço militar”.

Márcio - [Rindo] por isso que você é assim, né...

Chacovachi - Isso, isso. Quando eu estava no serviço militar, na verdade eu não sabia o que fazer. E, por acaso, buscando a boemia, porque sempre fui boêmio, me meti em um teatro e vi um espetáculo de um mímico, não sei se ainda existe, foi há 25 anos atrás. E me pareceu maravilhoso. Um solo, quase sem elementos. Também não passou o chapéu. E para mim foi maravilhoso. Você sabe que eu me esqueci o que aconteceu, agora... porque logo eu fui estudar em uma escola de mímicos e, durante o ano da escola de mímicos, fiz umas experiências em uma praça pública, porque estavam os militares e eu trabalhei nessa praça. Aí descobri a rua. Mas sem passar o chapéu. Me maravilhei. Me dei conta do que era trabalhar de dia, com as pessoas em círculo...

Márcio - Na rua, rua mesmo?

Chacovachi - Na rua, rua mesmo. Praça. Praça de fins de semana, sábado e domingo. Praça com famílias...

Márcio - Não dá para ter proteção artística.

Chacovachi - Não dá para ter proteção artística. Tal qual. Então eu fui trabalhar aí e me maravilhei. Me maravilhei por várias razões: encontrei minha liberdade, primeiro encontrei a econômica, até aí não a tinha. Encontrei minha liberdade de ação. Para um ator o mais difícil é poder estar trabalhando. Quando se está estudando, pesquisando... prepara uma obra, 1 ano para fazê-la 3 vezes, 4 vezes. Se tem pouca liberdade de fazê-la. Para mim foi maravilhoso porque eu podia trabalhar todas as horas que queria! Fui mal na apresentação? Faço outra em meia hora, faço outra no próximo sábado, no próximo domingo.

Márcio - Sempre no mesmo lugar, Chaco? Sempre na mesma praça?

Chacovachi - Eu sempre tive esse costume. Passei por muitas na vida, mas sempre fiz temporadas longas, de seis anos em uma praça, depois fiz oito anos em outra praça...

Márcio - A praça que você está agora, você está fazendo há quantos anos?

Chacovachi - Agora em Buenos Aires eu não estou trabalhando. Eu trabalhei quinze anos na Plaza Francia na Recoleta.

Márcio - Na mesma praça?

Chacovachi - Na mesma praça, no mesmo lugar. Ali cresceram comigo.

Márcio – Dizer quinze anos significa que se uma criança foi ver seu espetáculo com cinco anos voltou com vinte. Tu pegou muita criancinha com quem fez brincadeira e depois ela cresceu e tu comeu!

Chacovachi - Cresceram diferentes. Agora quando se apresentam me dizem “Chacovachi, você lembra de mim? Você colocou o sapato no meu nariz.”.

Márcio - Tenho uma foto...

Chacovachi - “Tenho uma foto em que estou pendurado de cabeça para baixo e sua mão é muito maior que você.” Eu acho que isso também tem muito a ver com o social. Eu era palhaço de uma praça, compreende? Não era palhaço internacional, era palhaço de uma praça. Era palhaço dessa praça.

Márcio - Daquele dia.

Chacovachi - Desse dia. E quando as pessoas voltavam dois anos depois me encontravam; cinco anos depois e voltavam a me encontrar. Eu diferente, meu palhaço diferente. Mas me reconheciam em sua história.

Márcio - E todo domingo, Chacovachi?

Chacovachi - Sábado e domingo de qualquer jeito, teve até um ano em que eu deixei de fazer religiosamente, dois anos religiosamente.

Márcio - Mas começou a fazer outras praças da Argentina?

Chacovachi - Fiz. Fiz a Plaza de Buenos Aires por gosto. Mas nessa em que eu trabalhava terminou o ciclo. Porque é um lugar que, depois da crise na Argentina, se chamava a praça de vendedores de coisas, não só artesãos... uma condição econômica deu permissão a isso, então nas praças... a minha disputa não era mais com a polícia porque já tinhamos ganhado essa proposta, mas era com os artesãos que ocupavam os mesmos espaços e você não tem como trabalhar porque não há lugar, está todo ocupado por vendedores de coisas. Bom, a vida seguiu, algo assim...

Márcio - Cada roda dessas você apresentava para quantas pessoas?

Chacovachi - Olha, nos melhores momentos, na Plaza Francia, que foram, pelo menos, os quinze anos em que eu trabalhei,

Márcio - [rindo] O melhor momento foi de quinze anos!

Chacovachi - Sim, porque era uma coisa incrível. As pessoas vinham me ver porque me conheciam.

Márcio - Você virou o palhaço de Buenos Aires? Você virou provavelmente o palhaço mais conhecido.

Chacovachi - Sem dúvida. Sim, porque eu fiz milhares e milhares de apresentações em um lugar que ninguém... se você vai a Buenos Aires, tem que ir a Plaza Francia. E aí estava eu. E tinha que ir. É a praça mais, de alguma maneira, “oligarca” que, com os anos, transformamos em popular e agora é super popular. Mas quando eu comecei era oligarca. Ao meu feito me mostraram uma crítica: eu saía de uma praça de bairro, que era a praça da esquina da minha casa, onde eu trabalhava, e ia para uma praça como que no centro da cidade, competir lá em primeiro lugar...e todas as pessoas oligarcas. Mas lá eu tinha a quem criticar, porque na esquina da minha casa eu não podia criticar, porque não tinha jogo, eu não conhecia, eu podia criticar quem convivia comigo. E lá encontrei gente culta, porque é em frente ao Centro Cultural Recoleta, artistas iam me ver. Eu passei de algo talvez primitivo à vanguarda. [rindo]

Márcio - Cult, cult. Virou um artista cult.

Chacovachi - Totalmente. E eu o dizia, fazia o que fazia o bufão. “Minhas piadas serão para essa gente”. Rindo dessa gente, desse tipo de gente.

Márcio - Sentia que em cada praça dessa você podia juntar 500 pessoas?
Chacovachi - Sim, sim. Por apresentação, 500 pessoas. Pelo menos. Faço um círculo de uns 12, 13 metros. Aí entram 500 pessoas, com 3 filas...

Márcio - Duas apresentações por dia?

Chacovachi - Uma no sábado e duas no domingo. Três apresentações por fim de semana.

Márcio - Isso na época em que 1 peso era 1 dólar?

Chacovachi - O peso 1 dólar, eu fui visionário.

Márcio - 1500 dólares por fim de semana?

Chacovachi - 2000 dólares por fim de semana eu fazia. Durante muitos anos.
[Márcio cumprimenta o Chaco] Fiz isso. Eu era visionário. Eu viajava para a Europa e não trabalhava na Europa. Ia aos festivais, às convenções, às passeatas. Porque eu economizava dinheiro em Buenos Aires. Economizava oito meses em Buenos Aires ia quatro meses à Europa para trabalhar em lugares importantes. Por gosto meu, porque eu podia bancar.

Márcio - Você passava o chapéu também nesses lugares e ganhava o seu dinheiro aí também?

Chacovachi - Sim. Ganhava um bom dinheiro, mas ganhava mais em Buenos Aires do que em qualquer outro lugar do mundo. Porque era o meu lugar, eu era um palhaço desse lugar, o idioma, todo mundo me conhece.

Márcio - Você acabou criando um espetáculo que termina... o apogeu dele é a passagem do chapéu.

Chacovachi - Sem dúvida.

Márcio - Você criou um espetáculo para rodar o chapéu no final.

Chacovachi – Sou um artista de rua. Quando eu acabei de decidir que ia trabalhar na rua foi quando passei o chapéu pela primeira vez. Quando eu passei o chapéu pela primeira vez, porque vi na televisão, disse “domingo alguém vai passar o chapéu”, porque eu tinha certeza, as pessoas iriam rir, dava para manter o coro, fazer um final. Teria um sentido. Um pequeno sentido. Passei o chapéu e ganhei uns 50 reais. Eu tinha dezoito anos, não tinha um só peso. Para mim era muito dinheiro. Eu disse: “isso é muito mais dinheiro do que pode ganhar minha irmã que é professora, ou meu pai”.

Márcio - Seu irmão, que é engenheiro...

Chacovachi - Sem dúvida. Pensei “eu vou dedicar minha vida a isso porque ainda por cima me dá um lugar no mundo”. Ser palhaço, me dá um lugar no mundo, muito lindo. Para que pelo menos tenha no meu epitáfio “eu fui palhaço”. É muito mais lindo que muitíssimas coisas.

Márcio - Dizer “eu fui banqueiro”.

Chacovachi - O melhor é o respeito...Depois pensei “que tal seria viajar? Conhecer gente interessante do mundo”. Eu estou agradecido pela vida. Isso eu vi. Eu tenho o poder, não quero ser messiânico, mas tenho o poder, e o poder de poder visualizar. Eu me dei conta em seguida que isso eu queria viver a vida toda. Me dá o poder que necessito para poder viver da maneira que eu vivo. Eu continuo tendo o cabelo do jeito que eu quero, vivendo como eu quero, falando...

Márcio - Uma tatuagem... mostra o número do passaporte. Tem um passaporte na nuca.
Chacovachi - Tenho o passaporte na nuca.

Márcio - Quando eu conheci o Chacovachi ele tinha o passaporte lotado. Estava tirando a segunda via porque ele lotou de carimbo.
[rindo]

Chacovachi - E eu me dei conta disso. Me dei conta de que...

Márcio - Eu lembro que eu contava, falo muito de você para muitos alunos meus e para muitas outras pessoas. Essa coisa do palhaço do terceiro mundo que você fala com muito orgulho. A primeira vez que eu vi você trabalhar na rua, o que me impressionou muito foi uma experiência assim (você vai lembrar disso certamente): a gente estava em São José do Rio Preto e eu fui com você, acompanhei você para a gente fazer uma apresentação na praça. Era você e a Cia do Público. E você estava muito desesperado porque não sabia se ia se apresentar no teatro, e nunca tinha se apresentado no teatro. Só sabia se apresentar na rua. E você falava: “eu só preciso que você me diga meia hora antes”. E deu a maior vergonha porque a gente chegou em uma praça e não tinha ninguém na praça. Ninguém na praça. Uma praça principal. E eu olhei para você meio constrangido e pensei “porra, trouxe o cara para fazer uma apresentação em uma praça que não tem público”. Mas quando eu ia me desculpar por isso, eu olhava para você e você estava como que muito tranqüilo. E pôs as suas coisas no chão, pegou seu diabolô e começou a jogar o diabolô numa altura de 50 metros, você ainda joga o diabolô?

Chacovachi - Eu era jovem.
[risos]

Márcio - Vuuuuuuuum. E pegava. Daqui a pouco tinha três pessoas ali, quatro pessoas lá... e você falava para as pessoas: “tudo bem? Como vai? Como é o nome desse lugar? Que praça bonita... ah, daqui a pouco eu vou fazer um espetáculo”. Você não tinha um jeito de abrir a roda, de formar a roda, chamando o público, naquele primeiro momento. Você apenas estava chegando na praça. E eu fiquei muito impressionado porque quando foi 4 horas da tarde, a hora de começar o espetáculo, você já tinha mais de 500 pessoas na praça.

Chacovachi - Sim, estava cheia.

Márcio - E eu fiquei muito impressionado com a sua tranqüilidade, mestre.

Chacovachi - Isso é a rua, a rua de verdade. Você na rua; eu trabalho com lugares assim sempre. E quando tem pouca gente, me encanta, porque é uma relação muito íntima com elas. Porque o teatro de rua tem uma dramaturgia e uma estrutura universal.

Márcio - Secular...

Chacovachi - Totalmente. E sempre é igual. Você tem necessidade de encontrar as pessoas, tem necessidade de sair e mostrar sua arte...

Márcio - De fazer uma boa roda...

Chacovachi - De montar uma boa roda, de que as pessoas rapidamente acreditem em você e te queiram. Rapidamente, não muito tempo.

Márcio - Não, não pode demorar.

Chacovachi - Não pode demorar. Logo fazer seu show, logo passar o chapéu com dignidade, ganhar algum dinheiro, terminar o show, despedir-se. Todos temos esse problema, essa necessidade.

Márcio - Tem que passar por isso.

Chacovachi - Essa parte do princípio, tinha três partes a convocatória: uma primeira parte é essa que você falou, eu não tenho pretensões de nenhum tipo, somente tenho a intenção de que as pessoas me conheçam e que eu as conheça como pessoas.

Márcio - Você é muito gentil. Você fazia isso com muita gentileza.

Chacovachi - Sem dúvida, sem dúvida.É uma gentileza diferente de quando já tenho todo mundo ao redor. Porque quando tenho 500 pessoas, tenho que ter uma agressividade necessária para poder dominar as 500 pessoas. O que eu faço é tosco, uso palavras e, entre uma gargalhada e uma situação incômoda, às vezes, há um fio muito fino em uma brincadeira.

Márcio - Eu lembro que você tem uma brincadeira que eu uso de vez em quando, quando eu me apresento. Quando eu vou distribuir a serpentina, para o público jogar em mim, eu pergunto: “uma azul ou uma rosa”? E a pessoa fala “uma rosa”. E eu digo: “vai levar uma azul para aprender que a vida não é fácil”.

Chacovachi - Que a vida não é fácil...

Márcio – Você faz isso com criança! Criançinha fala “azul”. “Vai levar uma rosa para aprender que a vida não é fácil”. É duro!

Chacovachi - O mais duro é quando eu digo: “menino, você gosta de morar nesse mundo?”, “sim”, “já vai passar”. [fazendo carinho na cabeça do Márcio]
Eu não sei quem ele é, mas a brincadeira ensina o menino. A forma que eu tenho de tratar os meninos é a maneira que se trata.

Márcio - É a maneira que se tratam entre si.

Chacovachi - É o mesmo maltrato que têm os meninos maiores com os meninos menores e ninguém se ofende. Eu nunca ofendi um menino. Posso ter ofendido um pai, mas não um menino. O menino sabe que eu estou jogando. Sabe que tem um carinho, sabe que as pessoas estão vendo. Nunca vão se ofender.

Márcio - Tem uma coisa que eu sempre fiquei muito impressionado também, mais ainda falando dessa coisa do terceiro mundo, porque você trabalhava e ganhava 2000 dólares por semana. Quando chegava no verão você trabalhava 60 dias seguidos nessa praça. A cada dia você fazia quantos espetáculos?

Chacovachi - Dois. 60 dias, 120 apresentações por temporada. Em dois meses.

Márcio - 120 mil dólares.

Chacovachi - Não, é diferente. Porque não é a Plaza Francia. Isso é muito diferente.

Márcio - 60 mil dólares?

Chacovachi - 30 mil dólares.

Márcio - Em 60 dias de trabalho.

Chacovachi - Em 60 dias de trabalho.

Márcio - Aí depois você também viajou muito. Em quantos países você trabalhou?

Chacovachi - Trabalhar, trabalhei em 18.

Márcio - Com várias cidades...

Chacovachi - Sim, sem dúvida. Na Espanha trabalhei em todas as cidades. Em todas as festas populares nas cidades da Espanha.

Márcio - Todos os festivais...

Chacovachi - Não, vou por minha conta. Eu, na temporada, estou na Europa. É uma temporada igual a que fazia há 16 anos o pai de Charlie Rivel que é artista titereiro, de rua, andando de praça em praça. Eu chegava com a Maku à Espanha, porque é assim, depois que aconteceu a crise na Argentina eu deixei de ganhar 2000 dólares. Não ganhava nada, nem um peso. Não se podia trabalhar. Então, tive que ir fazer essa temporada profissional na Europa. Diferente da anterior em que trabalhava... tinha que buscar a grana. Então, com Maku, chegamos, compramos um carro, e no último ano fizemos quase 20 mil quilômetros. Fomos de festa popular em festa popular, às festas pagãs populares espanholas, que têm a característica de manter as ruas abertas.

Márcio - Podia ganhar em euros ali.

Chacovachi - Eu sou um artista igual a qualquer um. Ou seja, eu vou, consigo um lugar onde dormir, e saímos, Maku e eu, a procurar lugares, gostamos, você trabalha aqui eu ali...


Márcio – Então, na Europa se o cara bota um euro...

Chacovachi - Sim, claro. Aí se trabalha também. Nem tudo são rosas. Se eu falo que posso fazer 2000 dólares em um fim de semana, um mês inteiro pode chover em Buenos Aires. Pode chover todos os fins de semana de um mês ou de dois meses. Podem acontecer coisas... não é sempre assim...

Márcio - E aí o que é impressionante é que você também sempre investiu em tecnologia. Apesar de você ter essa aparência muito alternativa, muito hippie, você foi o primeiro artista de rua que eu vi trabalhar com microfone.

Chacovachi - Sim, sem dúvida.

Márcio - Com uma caixa de som muito potente e de porte mínimo, que você carregava.. dois anos depois eu te encontrava e você tinha já um outro equipamento melhor...

Chacovachi - Eu trabalhei 10 anos sem microfone. Fui ao médico, queriam me operar até o cú, queriam me operar todo. Não havia outra forma. A minha Madonna, tirei da foto da Madonna, nos anos 90...

Márcio - “Eu quero isso para mim”.

Chacovachi - “Eu não faço idéia do que seja, mas quero esse microfone da Madonna”. [rindo] Fui aos Estados Unidos comprar o microfone da Madonna. Viajei para os Estados Unidos pela primeira vez. Eu agradeço a falta de cultura. Os primeiros dez anos da minha vida eu fui um artista de rua sem amigos artistas. Vivi em uma ilha. Caçava alguma mulher...

Márcio - Um bandido.

Chacovachi - Parecia um bandido mesmo. Meus amigos viraram artistas. Nada. Quando peguei pela primeira vez dinheiro, quando começava a ganhar e sobrou dinheiro de uma temporada, disse “eu vou viajar, para onde vou?” Eu tinha trinta anos e disse “Vou a Disney World!”. E fui a Disney!
[ambos gargalhando]
Cumpri um sonho que tinha há vinte anos! Fui a Disney! Não sabe que ódio, não sabe...
Márcio - Realizou um sonho infantil.

Chacovachi - Não era mais jovem. Disney. Aí comprei um microfone, aproveitei, três claves pesadíssimas, porque eu estava aprendendo a fazer malabares. Lembro que olhei em uma revista “convenção de malabaristas na Suécia”. Tomei um avião e fui à Suécia ver uma convenção de malabaristas. Eu conhecia dois malabaristas em Buenos Aires, mas não era amigo de nenhum dos dois. Perdemos de ser amigos porque éramos os únicos malabaristas em toda Buenos Aires. A questão é que eu sempre apostei nisso.

Márcio - É isso que é incrível. Na verdade eu estou só falando dessa coisa do dinheiro mas é porque o dinheiro que você ganhou, qualquer outro profissional ou qualquer outro ser humano no mundo de hoje teria juntado dinheiro.

Chacovachi - Eu tenho medo de chegar aos 70...

Márcio - Teria tido uma bela casa, um belo carro. Eu conheço seu carro, não sei se ele existe ainda... seu carro era o pior carro do mundo.
[rindo]

Chacovachi - Meu carro é o mesmo de quando fui buscar você no aeroporto. É um ford anos 70. 36 anos.

Márcio - A porta amarrada...

Chacovachi – Não.

Márcio - E aí, o que você fez: você empreendeu. Eu lembro de ter ido no ano... qual foi o ano que a gente esteve em Buenos Aires naquela convenção?

Chacovachi - A segunda. 97.

Márcio - Você tinha pego um dinheiro que era seu, alugado a carpa, convidado as pessoas da Argentina, da América do Sul, da Europa ...e fez sua convenção de malabares, a primeira convenção da América.

Chacovachi - Sim, sim. A primeira convenção da América. Fizemos a décima há dois meses.

Márcio - É um verdadeiro congresso de malabaristas, é uma coisa... inacreditável o que aquilo proporcionou. Um investimento seu, que eu lembro o prejuízo que você levava no segundo ano, até você encontrar o jeito daquilo se pagar. Eu lembro de uma época, de te encontrar e você falar “agora a convenção já se paga”.

Chacovachi - Se pagar sozinha, eu sei...

Márcio - E depois quando você já tinha conseguido encontrar a fórmula da convenção, você inventou de ir para Mar del Plata com uma lona, com o seu próprio capital e fechar uma pousada, combinar com os artistas o preço, botar a lona, fazer o público entrar de graça e ganhar do público no chapéu. Lembro que no primeiro ano você já teve um pequeno lucro.

Chacovachi - Sim, mas o público foi muito, muito bom...

Márcio - Logo depois você começou a ter um lucro...

Chacovachi - Sim, sim, sim. Levamos 3 anos sem conseguir encontrar a fórmula, mas terminou funcionando muito bem.

Márcio - Chegou num nível em que você conseguia pagar bem as pessoas, ganhar bem e pagar todos os custos.

Chacovachi - Sem dúvida.

Márcio - Isso para a gente no Brasil, imagino que isso não é comum em nenhum lugar do mundo, mas isso para a gente é uma boa lição porque vivemos no mundo dos projetos, da lei de incentivo, da lei de patrocínio.

Chacovachi - Você sabe que eu estou fora disso, totalmente. Nunca consegui...

Márcio - Eu também estou fora disso. O Anjos do Picadeiro, por exemplo, não pode ser feito no Brasil...

Chacovachi - Dessa maneira, da maneira que faço? Seguramente que não. Na Argentina tampouco podia ser feito dessa maneira. Somente se pode fazer se há um compromisso...

Márcio - Você gerava trabalho para quantas pessoas ali, na época do circo? Umas 20 pessoas?

Chacovachi - Com o circo?

Márcio - Entre técnicos e artistas...

Chacovachi - Bem, chegava a ter 25, 27 pessoas.

Márcio - Você conseguia pagar uma grana boa. Tinha gente que vinha da Europa para trabalhar com você. Era melhor estar aqui do que estar na Europa trabalhando.

Chacovachi - Sim, sim...

Márcio - Isso é muito legal como exemplo. Porque para todo mundo ser artista é sinônimo de ser famoso ou rico. É glamour, ser artista. E um jovem ator, quando ele quer ser artista, a princípio ele pensa na sobrevivência, mas ele não sabe como sobreviver. A sobrevivência te levou para a rua, você nem era artista. O chapéu te deu dinheiro suficiente para você expandir seu trabalho pelo mundo...

Chacovachi - O primeiro que comprei com o chapéu foi uma escada, para poder subir acima e olhá-los. Chamar o público. Não era um bumbo, para escutarem. A missão foi essa...

Márcio - Preciso de uma corneta compro uma corneta.

Chacovachi - Vou ter uma trombeta, vou ter uma trombeta. Eu trabalho com quatro orgãos. Eu trabalho com a cabeça, com o coração, com o estômago e com as bolas. São as quatro coisas com que se tem que trabalhar. Às vezes é o estômago que dói. Às vezes é a cabeça, às vezes o coração e às vezes as bolas. É assim. Eu sempre uso muito a cabeça para fazer... lembro quando descobri que tinha que passar o chapéu antes do final do espetáculo. Eu trabalhava e passava o chapéu “muito obrigado”, muitos se iam e muitos me davam. Eu disse “não; vou passar o chapéu justamente antes do clímax”. Então as pessoas vão pagar os últimos dois minutos. Porque não sabem o que é, porque querem ver o que acontece. Então o número, eu o levei até esse lugar, a dramaturgia chega sempre ao momento do chapéu. E você tem que levar o espetáculo...

Márcio - E você faz isso de uma forma muito... no momento que você roda o chapéu você comove o público.

Chacovachi - Sim, sem dúvida.

Márcio - É o momento em que ele fala “pega o dinheiro e dá”.

Chacovachi - Mas é verdade. Porque eu falo somente a verdade quando falo isso.

Márcio - Você fala do valor do artista, como é? Você tem um texto que é muito...

Chacovachi - Eu tenho um texto que com certeza não vou lembrar agora, eu teria que estar jogando, mas, sim, lembro do mico da situação, eu falo “agora não dê meia volta”. Não digo “vou ganhar, sou um clown, peguei meu dinheiro e paro”, não: “Sou um artista, vocês são meu público, agora vou passar o chapéu”. Não com essas palavras, mas sim com essa intenção. Depois lhes digo: “muito importante: se vão colocar algo, que seja de verdade. Que não coloquem uma moeda como se eu fosse o moço de um bar que cobra. Se gostou do espetáculo, pague de verdade”. Eu não lembro bem o que digo mas, por exemplo, também falo “se não tiver dinheiro, que não coloque nada. Que o teto da rua é assim. Aquele que não tiver dinheiro que não coloque nada”. Por isso é que o que tem dinheiro tem que colocar pelo que não tem dinheiro. Então eu digo: “olhem, se não têm dinheiro podem vir me ver quantas vezes quiserem, que eu vou ser muito feliz de trabalhar para todos vocês mesmo que não possam pagar”. Algo assim e as pessoas aplaudem. Quando aplaudem, eu digo “mas, por favor, não me aplaudam porque palmas é o que me sobra. Com certeza, grana é o que necessito”. Compreende? Colocá-los em uma situação, claro que não têm que pagar, tem que ser com humor, tem que ser com emoção...

Márcio - Sem autopiedade, pena de si mesmo.

Chacovachi - Não, isso é o último. É preferível pecar de sóbrio a ter vergonha de passar o chapéu. É pior que pecar de sóbrio. As pessoas já sabem tudo isso. É muito difícil quando as pessoas não sabem, mas as pessoas sabem.

Márcio - Você é o melhor passador de chapéu que eu já vi trabalhar - mesmo os palhaços mais velhos como o Tortell Poltrona reconhecem isso - os melhores passadores de chapéu que conheço são argentinos, foi você que os apresentou a mim e eu sei que você ensinou a todos eles, embora cada um tenha criado seu próprio texto para fazer isso.
Chacovachi - Eu sei, aprenderam os meninos...

Márcio - Eu trabalhei com alguns na Espanha e eles são muito bons. Eu olho e falo: “o cara que tira chapéu desse jeito é o Chacovachi”. É uma arte e eu acho que você cresceu muito.

Chacovachi - Esses meninos cresceram me ouvindo. Colhendo, desde pequeninos... O que acontecia?, eu passava o chapéu e os meninos colocavam e os adultos não. Então lembro que quando descobri disse “não, primeiro vou passar o chapéu pelos meninos e depois pelos adultos”. Aí dupliquei meu ouro. Entende? Estou sempre certo de que, está bem, as pessoas põem o que ninguém ganha, mas é nada menos do que é merecido.


Márcio - O público paga bem pelo que gosta.
Chacovachi - Em relação aos que têm. Se você trabalha em uma praça rica, haverá mais dinheiro...

Márcio - Eu lembro que trabalhei com eles em Santiago de Compostela e vi o Nino Costrini atuar aí, o Fede e o Javi Javiche, que é espanhol.

Chacovachi - Sim. Os três têm coisas minhas.

Márcio - E eu fui nessa mesma praça. Eu, como não sou um artista de rua de passar chapéu, eu consegui ganhar 190 euros. Cada um deles, das rodas (eu fui em dias distintos vê-los), cada um deles ganhava em torno de 350, 400, 450 euros. Qual foi o seu record?

Chacovachi - Aí, nessa praça foi meu record, na praça em Santiago de Compostela, na frente da catedral...

Márcio - Nessa praça não, seu record na sua vida.

Chacovachi - Foi nessa praça.

Márcio - Nessa praça que eu falei?

Chacovachi - Sim. Essa praça que você falou, Santiago de Compostela, em frente da catedral. Fiz 930 euros.

Márcio - 930 euros?!
Chacovachi - Em 40 minutos. Me dá vergonha. [rindo] Perdão professora, as pessoas que trabalham o tempo todo,... mas... é assim!

Márcio - Dá para ir e voltar duas vezes para a Europa com um chapéu desses.

Chacovachi - [rindo] Nem sempre é assim a minha vida... a apresentação foi boa... não paguei impostos, nem nada, rendas...

Márcio - E é muito profissional, porque, era muito interessante ver, todos com seu carrinho, com seu bom equipamento, bom equipamento eletrônico, um bom material, uma boa técnica, um bom figurino...

Chacovachi - Com certeza. Profissionalismo.

Márcio - Indo a qualquer hotel, qualquer restaurante, qualquer lugar...

Chacovachi - Sem dúvida. Comendo do melhor, se está entrando dinheiro, tem que gastá-lo! Primeiro para o cú é melhor.

Márcio - Eu fico trazendo essas coisas à tona, parece que a gente fica falando de dinheiro, mas acho que, para as pessoas que decidem ser o que elas são realmente, o maior desafio é ganhar dinheiro.

Chacovachi - Com certeza.

Márcio - Quando você consegue isso, tem que falar que existe isso! Porque senão o cara acha que a única possibilidade...

Chacovachi - Eu trabalhava numa praça fazia 25 anos. Havia um cara que eu olhava muito. Um artista de rua boníssimo, fino. Lembro que trabalhávamos no mesmo lugar, eu ganhava, como falava a você antes, eu ganhava 50 e esse garoto ganhava 300, eu não sabia, 400. Era bom de verdade. E lembro que abri uma porta no lugar que trabalhávamos e tinha uma montanha de dinheiro. A minha impressão não foi de roubar nem nada, não, eu olhei e disse assim: “pode-se”.

Márcio - “Eu quero”

Chacovachi - “Eu posso também”.

Márcio - Me lembro o susto que eu levei vendo você trabalhar em Buenos Aires com um saco de dinheiro.
Chacovachi - É verdade. Às vezes levava mais tempo contando e arrumando o dinheiro do que na apresentação...

Márcio - O dinheiro nunca foi para o banco, né cara? Algum dinheirinho ia pro banco?

Chacovachi - Não tenho nada no banco. O único que tive no banco ficou todo pro banco. Na crise. Eu trabalhei com o Circo Vachi, faltavam 10 dias para começar a temporada, vinham 20 pessoas, aluguei terreno, tudo, e fiquei sem nada.

Márcio - Eu lembro disso.

Chacovachi - Fiquei sem nada, 20 pessoas comendo pão, esperando que chegasse a temporada; fizemos apresentações dia 29 e 30 para conseguir para comer. Todos foram se divertindo, a temporada começou mais tarde, mas ia toda a família... como acreditar? Bancamos tudo, pagamos tudo e ainda ganhamos um pouco de dinheiro. Em plena crise. Era com chapéu, lotava de gente, as pessoas não tinham dinheiro. O pouco que tinham davam para nós.

Márcio - Não paga para entrar, paga para sair. Então enche.

Chacovachi - Claro, com certeza. Então estava sempre cheio, êxito total. Isso traz alegria e traz aquela gente [gesto pegando dinheiro]. Porque entendem que rir é algo social, ninguém ri sozinho. Rir é algo social. Então quando há mil pessoas rindo, por mais que não entenda o que aconteceu, te faz bem.

Márcio - É, acho que é isso, o que a gente tinha que falar. Se você tivesse que dizer alguma coisa o que você diria? Certamente o público do Anjos do Picadeiro é formado por muitos alunos, muitas pessoas, atores, palhaços de vários lugares do Brasil, do mundo, querendo iniciar nessa arte, têm admiração pelo trabalho dos mais velhos... o que a gente pode deixar como legado? A gente sabe que não vai deixar nada nesse mundo a não ser escrito lá na lápide “eu fui palhaço”. O que você diria para quem está querendo seguir esse caminho?

Chacovachi - [Sorrindo] Eu acho que para ser artista de rua somente tem que ter a intenção de querer ser. Eu vi artistas de rua com muito pouco material, quase sem nada. Com muito menos que qualquer ator que tem medo de estar na rua e tem um montão de material mas não se anima. Está cheio de vergonha. Trabalhar na rua é como manejar um avião. São horas de vôo. Se alguém quer aprender tem que rapidamente fazer, viver a experiência, ter as tragédias e as alegrias. Ir a busca de algo.

Márcio - Aprender o ofício.

Chacovachi - Aprender o ofício. Por quê? Porque primeiro se aprende o ofício: tem que aprender a entreter, divertir, assombrar. Logo, tem que se transformar em artista. Tem que aprender a negociar, a filosofar, a delirar, a provocar, a criticar, a expressar sua visão pessoal do mundo. E, por último, tem que aprender a emocionar, que isso é somente dos mestres. E se vai começar a trabalhar na rua eu acho que primeiro, como tudo, primeiro tem que trabalhar na esquina da sua casa. Sem pressões, talvez sem passar o chapéu. Porque o pior de tudo é “não sei fazer isso”. Por que vou passar o chapéu se realmente não acredito que estou merecendo? Poderia ser uma experiência, trabalhar na rua sem passar o chapéu até que realmente se tenha material. Não tem que parar diante das pessoas para passar o chapéu com dignidade porque seguramente tem a dignidade, não inventou a dignidade. E não há nada que tire essa dignidade.
Então, primeiro tem que trabalhar na esquina de sua casa, depois tem que ir ao centro da cidade, depois tem que ir pelo mundo, trabalhar em lugares que ninguém nem imaginava que existissem, nem que seus sonhos lá estavam. Eu trabalhei ao lado de um encantador de serpentes, na África do Norte. Compartilhei um lugar com um encantador de serpentes, com uma serpente! Maravilhoso. E a partir daí deverá voltar à esquina da sua casa. Sem dúvida que tem que ser assim. Por gosto. Porque o dinheiro serve para poder fazer essas coisas. O dinheiro é pelo dinheiro mesmo, como o poder é pelo poder mesmo. Não servem. Isso de que se pode viver da rua tem que estar combinado com uma filosofia de vida. Não serve para uma pessoa que somente quer dinheiro. Não gostaria que uma pessoa se transformasse em artista de rua para ganhar dinheiro.


Márcio - Eu acho que a gente fecharia com chave de ouro com isso aí que você falou mas eu não posso deixar de falar aqui que encontrei contigo, se não me engano, em 2000. Na Paraíba. 2001.

Chacovachi - Riso da terra?

Márcio - Riso da terra, na Paraíba. Eu lembro que a gente estava num hotel de madrugada, bebendo e tal. E agora você está com o cabelo todo branco, não pinta mais o cabelo.

Chacovachi - Eu vi, eu vi...

Márcio - E aí eu lembro que você falou uma coisa que me marcou naquela época, e eu fiquei muito surpreso de ver, quando você divulgou sua oficina no Anjos... a conversa começou assim: o Jango falou “eu tenho 40 horas de espetáculo.” Aí Tortell falou “eu tenho um jeito de começar, um jeito de terminar sempre, e no meio eu posso meter 15 horas de espetáculo.” E aí, no meio desse papo, você vem com essa história do tabuleiro de xadrez, que você ia para a rua com os seus números, com tantos números, mas você não sabia exatamente quais números iria usar. Você sabia como ia começar e como ia terminar aquele jogo. Fala um pouquinho como é essa lógica do tabuleiro de xadrez.

Chacovachi - Esse é o método que eu ensino na oficina. É o método de jogar xadrez. Fazer um número de palhaço na rua é como jogar xadrez. Quem sabe jogar, sabe como se joga. O palhaço joga contra o público. O rei é sua energia e sua dignidade. São duas coisas que você não pode perder: se você perde a energia ou a dignidade, qualquer uma ou as duas, terminou a partida, você tem que parar. A rainha é sua personalidade. A que vai te salvar, a mais forte de todas. A rainha...

Márcio - É o seu número mais forte?

Chacovachi - Não é um número. É a personalidade. É a personalidade que está em tudo, é sua ética, sua filosofia, sua forma de sair das situações, sua forma de manejar suas energias, seu dinamismo.

Márcio - Sua pegada.

Chacovachi - É isso mesmo. E se pode ir para todos os lados. Cuidado com a rainha. Cuidado com a personalidade desse palhaço! As torres, os cavalos e os bispos são seus números, suas rotinas. Que funcionam, que têm vida própria, que você pode colocar em qualquer lado ou pode ter em sua mala para poder tirar quando você quiser.

Márcio - Isso aí são as torres, os cavalos, os bispos...

Chacovachi - As torres, os cavalos e os bispos. Os peões, importantíssimos, os peões são as piadas. Piadinhas, números de meio minuto, piadas camicases.

Márcio - E com isso também você conhece o público.

Chacovachi - Por isso se faz o mesmo jogo com um menino de sete anos e com um profissional de xadrez. É o mesmo público. O mesmo. O público de hoje voltará amanhã. Diferente de irmos numa festa para dançar.

Márcio - Você pode pegar um jogo de xadrez para uma criança de sete anos.

Chacovachi - Seguramente. Eu já joguei, como não? Você também pode jogar xadrez com uma criança de sete anos. Para isso lhe basta que arrematem uma jogada. Toma cuidado com ele, vai que desenvolva. Com quem joga. Não quero ganhar, quero jogar o xadrez. Então movo eu, ou move o público. Conforme move o público, movo eu. Por isso, com o mesmo material, nunca saem duas apresentações iguais. Porque não saem dois jogos de xadrez iguais.

Márcio - E quando você começa seu espetáculo, hoje com seu primeiro número, você...

Chacovachi - Certamente que como bom jogador tenho que sair de uma maneira. Você gosta de sair dessa maneira. Mas, como hoje, que havia um público tão diferente do que estou acostumado, meninos, excitados, juntos em um lugar assim, eu não fiz o princípio, comecei de outra maneira. Comecei molestando um senhor machão, me sentando com os meninos, arranquei o sapato de um... eu não sei o que fiz. Tratei de começar de outra maneira.

Márcio - E aí não sabe como vai ser.

Chacovachi - Não sei como vai continuar. Se eu estou jogando não sei se vou ganhar. Porque não há um xeque-mate. Eu posso avaliar a apresentação, entender. Você pode analisar. Foi uma boa apresentação. Foi uma boa partida. Foi uma partida corrida. Foi difícil. Foi travada.

Márcio - No final você sabe que vai sair vivo.

Chacovachi - Certamente.

Márcio - Por isso você tem essa tranqüilidade.

Chacovachi - Isso é o que eu falava. Eu sei que vou sair vivo por isso sou um expert em sobreviver a essas situações. Isso é o que tem que ser um palhaço...

Márcio - Se criou essas situações...

Chacovachi - Certamente. Já perdi muito. A princípio não ia bem. Ia mal. Mas eu dizia que algum dia eu iria bem como eu queria. Dez apresentações ruins, uma apresentação boa. Oito ruins, duas boas. Cinco e cinco. Quatro, três... Agora eu estou esperando as apresentações ruins, para ver se continuo aprendendo algo. Não porque não posso aprender, mas porque necessito isso porque cheguei a um estado em que é muito difícil que eu vá mal.

Márcio - Mas todo jogo de xadrez é assim, porque o mestre é aquele que mais jogou. E se ele joga com você, ele vai ganhar vinte vezes.

Chacovachi - Não há nada pior do que brigar com golpes com uma pessoa que não se importa em morrer. É impossível.

Márcio - Aí tem que ter medo.

Chacovachi - Aí tem que ter medo. Se você vai brigar com uma pessoa que não se importa em morrer, bom...

Márcio - Melhor nem começar a briga.

Chacovachi - Melhor que não. Bom, se você, como artista, como palhaço, não tem medo de fracassar, tem todo o poder. E terminou o problema. Não importa nada.

Márcio - Isso é impressionante. Daí você chegou em um nível da excelência da arte. Porque nada vai destruir o tempo, a convicção, a certeza...

Chacovachi - Meu sentimento...

Márcio - Pode um menino passar correndo, pode passar um carro...

Chacovachi - Passe nada. Pode ser uma apresentação muito bela. Pode ser muito ruim, que as pessoas não riam, que não façam nada. Bem-vinda. Eu não sou melhor nem pior.

Márcio - É isso aí, Chaco. Já é. Valeu.

Chacovachi - Obrigado amigo.

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