sexta-feira, 4 de abril de 2008

Picadeiro Quente apresenta quem tem o que dizer


No Anjos 5, realizado em dezembro de 2006, no Rio de Janeiro, fizemos uma série de entrevistas que foram parcialmente publicadas na Revista Anjos do Picadeiro 5. Agora, temos a satisfação de disponibilizar a vocês a versão completa de cada uma delas.

A partir deste mês e até a sétima edição do esperado encontro, publicaremos as entrevistas que gentilmente nos cederam os palhaços, bufões e pensadores presentes nos dois últimos Anjos do Picadeiro.

Leiam, comentem, façam novas perguntas: o blog é de vocês!


Pra começar:

Sérgio Machado entrevista Zé Vasconcelos




Sérgio- Bom, hoje, agora, neste momento, Anjos do Picadeiro 5, o Encontro Internacional de Palhaços, tem a grande honra de estar aqui, ao lado de um dos mestres da comicidade. Muita gente conhece essa figura, só que ninguém sabe a trajetória fantástica que o Zé Vasconcelos teve nesses anos de carreira. E a gente tá aqui com ele, o José Tomás da Cunha Vasconcelos Neto, o Zé Vasconcelos.
Zé Vasconcelos, prazer enorme. Eu vou logo perguntar de cara, não é uma pergunta, eu queria que você falasse um pouco da sua origem, enfim, até chegar nesse primeiro momento em que você se deparou com sua carreira.

Zé Vasconcelos- Bom, começa que já sou uma piada. Eu sou acreano. Nasci no Acre, filho de pernambucano e cearense. Deu isso. O Acre foi conquistado, colonizado, graças à bravura de portugueses, pernambucanos, cearenses e turcos. Impressionante como tem turco no Acre. Aliás, onde é que não tem, né?!
Para você ter uma idéia de como nós temos turco no Acre, o ex-ministro da saúde do governo de Figueiredo, professor Adib Jatene, turco, acreano. Ministro das comunicações do governo de Figueiredo, Said Farah, turco, acreano. Ministro das comunicações, “Jaime a Passarinho”. O Jaime um dia se encontrou comigo em Brasília, nós dois nos olhamos, ele disse “Zé, nós dois aqui?! Quem é que ficou no Acre?”
É difícil, hein, é difícil.
Eu sou aviador, não sei se você sabe, eu sou aviador. E eu voei muitos anos na Cruzeiro do Sul. E, numa das vezes que eu fui ao Acre, o governo colocou um avião a minha disposição. E o piloto desse avião foi um amigo que voou comigo na Cruzeiro. Aí ele disse: “Zé, o avião é teu, não quero nem botar a mão, voa você”.
Aí eu fui e cheguei em Sena Madureira. Fui de Rio Branco a Sena Madureira. Eu posei em Sena Madureira na principal avenida da cidade. E depois pra decolar? O povo não queria sair da rua.
Uma parada pra convencer o pessoal pra sair pra eu decolar, podia. Foi uma época maravilhosa, linda. Recebi uma homenagem querida dos meus acreanos, meus amigos, meus conterrâneos. Aí cantei pra eles uma música que eu fiz em homenagem à minha terra. Vou cantar aí:

Nasci muito longe daqui.
Numa terra tão boa, muito boa de viver.
Onde a borracha tem vida,
Onde a criança nascida começa logo a crescer
Ouvindo a voz que se entoa muito longe daqui.
Eu nasci lá no Acre,
Rio Branco, Xapurí.
Meu freguês tem a terra
Quantas cercas tem aqui.
Eu sou filho do Acre
E sou seu cantor
Que canta cheio de orgulho
O canto puro do amor

Sérgio - Que beleza!(palmas) Mas isso tudo, você quando conta essa história agora, você já era um cômico?

Zé Vasconcelos - Já.

Sérgio - Mas quando foi que você saiu do Acre, e pra onde você foi?

Zé Vasconcelos - Ah, eu saí do Acre com 3 meses. Eu nasci lá e vim embora pra cá.

Sérgio - E foi pra São Paulo?

Zé Vasconcelos - Pro Rio. Vim morar no Rio. No Leblon. E aqui me desenvolvi, aqui foi quando começou tudo, meus colégios, foi quando eu vivi a minha primeira época, minha infância, minha juventude. Aqui no Rio de Janeiro. Morei no Leblon, morei no Flamengo, morei na Gávea, morei nas Laranjeiras, morei no Engenho de Dentro, no Engenho Novo. Ah, eu morei por esse Rio de Janeiro todo. E aqui me criei. Meu primeiro programa de rádio, que eu comecei em rádio - naquela época era rádio - Rádio Clube do Brasil. E eu fiz o primeiro programa de rádio da Rádio Clube do Brasil. Ganhei o prêmio. E aí, foi a minha vida começando. Eu conheci Manuel da Nóbrega, meu querido amigo, uma das pessoas mais maravilhosas que eu tive o prazer de conhecer. E o Nóbrega, eu encontrei com ele na Rádio Tupi, aqui ainda no Rio. Ele me viu, e ele tinha ao lado dele um cidadão alto, loiro, forte. Me viu e perguntou ao cara em inglês, o cara era americano: “Peter, do you know that fellow?”. O cara olhou pra mim: “no”. Ele falou: “zé, imita aqui, pra esse senhor ouvir, o Fernando de Sá”. Fernando de Sá foi o narrador dos jornais cinematográficos americanos. E eu fiz [alterando a voz]: “Em Londres tinha uma torre de madeira que foi completamente destruída pelos pica-paus. Os engenheiros de Londres mandaram fazer uma outra, de aço, à prova de pica-pau”. E ele olhou pra mim e disse assim: “Você vai trabalhar comigo”. E eu ganhei o meu primeiro emprego de rádio. Fiquei dois anos na Tupi como radiador.

Sérgio - Como radiador. E quando é que foi que começou? Foi a partir daí que você começou também a trabalhar como locutor?

Zé Vasconcelos - Daí eu fui pra Rádio Ministério da Educação. Foi a minha verdadeira escola de rádio. Porque aí eu fiz tudo. Locutor, contra-regra, operador, rádio-ator, escrevia programa, interpretava, fazia miséria. Eles deixavam! Cinco anos. Eu amadureci naquela casa entre bons amigos. Aí eu fui pra Rádio Nacional a convite de Haroldo Barbosa. Aí começaram a surgir as oportunidades.

Sérgio - E foi aí que você voltou pra Tupi, ou não?

Zé Vasconcelos - Não.

Sérgio - Então quando você foi locutor esportivo da Tupi?

Zé Vasconcelos - Foi logo no início.

Sérgio - Que teve aquela famosa história que você contou, né?

Zé Vasconcelos - É, mas foi por causa do meu tio. Meu tio é que me arranjou esse emprego, Ciro Aranha, que era o presidente do Vasco. Ele conversou com o Antônio Cordeiro, e o Antônio Cordeiro me colocou atrás do gol. Aquele cara que fica falando comentário: era eu. E aí foi começando. Começaram a surgir os boatos. Teatro. Quando eu pisei no palco, no primeiro teatro que eu pisei, eu disse “essa vai ser a minha casa”. E foi. Eu amo. Amo teatro. E o teatro foi a grande revelação pra mim no mundo artístico e, principalmente, no mundo dos enganadores, por que eu sou um enganador. (risos) E é verdade, por que a gente brinca com a vida. E é isso que é importante. Brincar com a vida.

Sérgio - Eu queria só voltar um pouquinho...

Zé Vasconcelos - Claro, volta. [imita o som de uma fita rebobinando]

Sérgio - Como é que se deu, por que esse amor? Por que o rádio? O que você fazia pra chegar no rádio? Ou foi por acaso?

Zé Vasconcelos - Não. Porque eu era o ídolo do colégio.

Sérgio - Ah... isso é que eu queria saber...

Zé Vasconcelos - Eu era um imitador dos meus professores todos. Entendeu? E os meus amigos, meus colegas de classe diziam “Zé, você é um imitador”. Eu imitava 120 vozes diferentes de artistas de cinema, do teatro. E isso empolgava as pessoas. Aí eu fui fazer o programa de rádio. E ganhei o meu primeiro prêmio, que eu vou contar no espetáculo, que é exatamente a história de como começou a minha carreira na rádio. Rádio Clube do Brasil.

Sérgio - Isso foi em mil novecentos e quanto?

Zé Vasconcelos - 1942. São 166, 168 anos de carreira! Rádio Clube do Brasil. PRA2.

Sérgio - Você deu uma passagem por um programa da PRK30, né?

Zé Vasconcelos - Mas foi depois. Isso foi depois que eu fiz a Rádio Nacional. E o próprio Haroldo Barbosa me convidou, e o Renato Murse, que foi o cara que me botou no programa dele. A primeira vez que eu fiz rádio na minha vida foi com o Renato Murse. E eu vou contar essa história amanhã. Eu fui fazer o programa dele e aí o Renato Murse que, era o diretor da emissora, me convidou pra ser locutor. Locutor de estúdio. E eu comecei a fazer locução de estúdio na PRAT. Depois fui pra PRA2 que era a rádio do Ministério da Educação. E aí começaram todas essas coisas, as imitações que eu fazia, o programa de rádio que eu criei na Rádio Nacional. Foi uma época maravilhosa, quando eu convivi com pessoas incríveis, uma época maravilhosa, meu Deus do céu! E ali eu comecei a minha carreira como engraçado. E me chamaram pra fazer “Piadas do Manduca”. O Manduca era um garoto, então ele falava assim [mudando a voz] “eu gosto de fazer as coisas por que eu sou um brincalhão”. Eu era o Manduca. E fui substituir o Lauro Borges, que é quem fazia o Manduca. E nasceu minha grande amizade com Lauro Borges. Lauro Borges tinha um parceiro que era o Castro Barbosa e eles faziam um programa na PRK 30. E eu os imitava em tudo que eles faziam. Tanto que até um dia os dois ficaram muito doentes e eu fui substituir os dois. E fiquei um mês fazendo o programa pra eles. Aí os mandaram embora. (risos) Isso é uma piada, não preciso explicar. Mas Lauro Borges e Castro Barbosa foram duas pessoas únicas, maravilhosas, puxa vida! Foram pessoas incríveis, incríveis mesmo. E eu trabalhei com eles várias vezes em vários lugares.

Sérgio - E foi aí, se não me engano, que surgiu a sua imitação do Sá Silva?

Zé Vasconcelos - Não, foi muito depois.

Sérgio - Mas não foi imitando um dos dois?

Zé Vasconcelos - Claro, foi imitando o Lauro Borges. Foi um locutor esportivo que era... replay [alterando a voz]: “Atenção senhores, a nossa partida vai começar automaticamente no estádio Pacaembu. Com a palavra o Metralha”. Era o Metralha. O Lauro Borges fazia o Metralha. E eu o imitava em tudo: “senhoras e senhores ouvintes...”, o Lauro e o Carlos faziam coisas incríveis. E eu fazia tudo. Tudo o que eles faziam eu fazia. E nasceu essa amizade maravilhosa que durou muitos anos. E há muitos anos atrás, eu andando lá em Campinas, São Paulo, cruzei com um casal e pedi uma informação. E o homem disse: “o senhor vai, é logo aqui. O senhor vira aqui à esquerda e é a casa que o senhor está procurando”. Aí ele olhou e disse: “Sabe de uma coisa? Meu pai era seu grande amigo e seu grande admirador. E eu disse: “quem é seu pai?”. “Lauro Gomes”. Aí eu fui conhecer o filho. Também é meu amigo, ficou meu amigo e a partir daí nós convivemos muito tempo. São essas memórias que valem a pena a gente guardar porque são as relações que a gente vai cultuar pro resto da vida.

Sérgio - É claro que, naturalmente, essas coisas te influenciaram muito. Mas quando você começou a fazer essas imitações na escola, quais personagens te influenciaram?

Zé Vasconcelos - Meu ídolo, por incrível que pareça, foi um americano que foi, na minha opinião, o maior comediante de todos os tempos. Chamava-se Danny Kaye. Danny Kaye era um comediante excepcional. E a minha carreira, o princípio da minha carreira, foi todo baseado em Danny Kaye, porque ele tinha um humor que ninguém mais tem. Só ele e eu. Era um humor musical. Tudo dele era musical. E eu fazia tudo. Olha, eu vou tentar lembrar uma coisa que é muito rápida, um número dele.
[imitação de um número cantado em inglês]
Esse era o Danny Kaye. Danny Kaye é um músico sensacional. Sapateador, bailarino, cantor, músico, tudo. Era um homem maravilhoso. E eu fiz exatamente, eu segui os passos dele: “A história da música”, “O professor de música”, “A água, sinônimo de diversão”. Esses eram os meus números. E um último número que eu fiz até há bem pouco tempo, que era “Ópera a Minuta”, onde eu imitava uma ópera fazendo o barítono, o tenor, o soprano e o baixo.

Sérgio - O Danny Kaye era fantástico. Ele tinha um potencial... físico. Essa coisa mesmo de ... [gestos]

Zé Vasconcelos - Ele era fantástico. Você é um cara jovem e você conhece o Danny Kaye. Dany Kaye foi um cara sensacional. Único.

Sérgio - É mesmo. É o que faz a gente guardar, ter a memória dele, é isso. Ele era único.

Zé Vasconcelos - Ele usava o mesmo instrumento que eu, que é a voz. Já o Chaplin não, o Chaplin é o gesto [gestos]. O Chaplin não era um comediante de humor. Ele era um cara engraçado. Os gestos dele, a fisionomia, o tipo que ele criou, sensacional.

Sérgio - Acho que é por isso que tem uma diferença... eu já assisti alguns shows de outros humoristas, o Chico Anísio, o Juca Chaves, cada um com seu estilo, excelentes, grandes mestres... Mas você tem uma característica, talvez tenha sido essa a influência do Danny Kaye, você tem uma fisicalização, dentro do teu humor, que é um pouco diferente da deles, pouco não, bastante diferente. Você usa muito o gesto, o corpo, a largura dos gestos.

Zé Vasconcelos - E o gesto é fundamental na construção do humor. A pausa, o gesto, o rosto, o olhar, isso tudo faz parte. Essa construção que eu quero dar pra minha escola de humor que eu estou criando agora lá na minha cidade. Vou fazer um curso de teatro principalmente visando o humor. Eu vou pedir para as pessoas fazerem as graças delas. Aí eu vou corrigi-las. Porque a única forma que você tem de ajudar é corrigindo. E a primeira coisa fundamental nisso é a respiração. A respiração é a base de tudo, inclusive da nossa vida. Se você não souber respirar, você não vai ter boa vida. [inspirando profundamente] Saber receber esse ar que entra dentro de você te renova. Por que cada vez que nós fazemos uma respiração, é um exercício maravilhoso pra reconstruir o organismo. Então é fundamental na vida da gente saber respirar. [Levanta-se] Isso, que eu estou fazendo aqui e agora, levantar. Usar o gesto. Sentar. Rir. Isso é que faz o humor. Eu vejo um cara contar uma piada, não tem nada. Porque eu não conto piadas. Eu conto histórias. Eu sou um contador de histórias. E eu fiz uma outra coisa que parece que veio se encaixar na minha vida: voar! O vôo abre pra você um outro mundo, um mundo maravilhoso que eu amei e amo até hoje. Nos vôos que faço, recebo homenagens dos aviadores, que coisas maravilhosas! São recordações que a gente vai guardar pro resto da vida. Quando termina um vôo eles escrevem no projeto do vôo deles, todos os amigos pilotos e os comissários assinam, oferecendo a mim a viagem que fiz com eles e agradecendo os conhecimentos que trocamos. Isso é uma coisa maravilhosa.

Sérgio - Maravilhoso, né? Eu vou passar agora uma parte, assim, você falou da sua paixão, você chegou a trabalhar na Cruzeiro do Sul, inclusive.

Zé Vasconcelos - É, na Cruzeiro no Sul. Voei muito na Cruzeiro. A maior companhia brasileira que teve na aviação. Foi uma época maravilhosa. O avião, eu costumo dizer, que era o DC3, era um avião em que entravam 28 passageiros pra descer 3: o comandante, o copiloto e eu. Foi um caminho para o humor. Porque as piadas, as brincadeiras a bordo, não existem mais hoje. O aviador perdeu a força que ele tinha dentro do avião, ele era o dono do avião.

Sérgio - É verdade, é verdade. Ele era homenageado na rua. Se viam um aviador na rua as pessoas comprimentavam.

Zé Vasconcelos - Era isso aí.

Sérgio - Hoje o pessoal tem até medo, né.

Zé Vasconcelos - Recebi uma homenagem: eu, vestido de comandante da Cruzeiro, recebi um crachá da companhia, de ouro, pra carregar pro resto da minha vida o emblema da companhia Cruzeiro do Sul. Então essas coisas você não vai esquecer nunca. E você vai trilhar isso aí, vai falar delas a vida inteira. E não só no Brasil, em qualquer lugar que eu voava, eles sempre lembravam de alguma coisa da aviação na minha vida.

Sérgio - Agora me diga uma coisa, pulando aqui a questão um pouco da aviação [Zé pula na cadeira], eu queria chegar na televisão. Eu soube de uma coisa que eu não sabia, que você fez o primeiro programa de humor na televisão.

Zé Vasconcelos - É verdade.

Sérgio - Se chamava Toca do Céu?

Zé Vasconcelos - “Toca do José”. Era um bar e eu era o dono do bar. Comigo trabalharam os melhores comediantes de humor daquela época.

Sérgio - Mas você já fazia carreira solo nessa época?

Zé Vasconcelos - Fazia, claro. Você sabe que quando me chamaram pra ir pra lá a discussão que nós tivemos na sala era sobre o valor que eu tinha pedido. E eu pedi um preço que na época era exorbitante. Aí eu disse assim “eu vou embora, você não quer assinar o contrato”, o cara “não, não, peraí, tamo preparando o contrato”. E deram exatamente aquilo que eu queria. E fiquei lá anos e anos, na TV Tupi fazendo humor.

Sérgio - E fala um pouquinho da carreira do seu espetáculo, espetáculo que você colocou o nome de Eu Sou o Espetáculo.
Zé Vasconcelos - Esse espetáculo eu preparei na minha casa. Os números que eu fazia... eu fui unindo tudo, unindo tudo até fazer o espetáculo completo. E em 1952 ou 53, eu fui pra Belo Horizonte fazer um espetáculo de teatro do Luis Iglesias. Eu era contratado da companhia dele. Eu fui como primeira figura do espetáculo dele. Resolvi fazer um espetáculo especial na segunda-feira, e estreei pela primeira vez o original do Eu Sou o Espetáculo. Aí eu reservei e só fui voltar a estrear em 1958 em São Paulo, no Teatro Record, ali na Brigadeiro Luiz Antônio. E aí o sucesso foi tão grande que eu fui pro Paramount, que era um teatro de 1980 lugares, e eu lotei durante três anos consecutivos, até viajar pra Portugal. Eu fiquei um ano e meio viajando todo Portugal, as cidades mais importantes da Europa e da África. Aí voltei para o Brasil e fiquei mais dez anos no palco.

Sérgio - Considerados um record esses dez anos.

Zé Vasconcelos - Impressionante.

Sérgio - Era de segunda a segunda?

Zé Vasconcelos - Era impressionante, sabe. Disputa de briga na bilheteria pra comprar lugar.

Sérgio - Fazia mais de uma sessão?

Zé Vasconcelos - Não, era sempre uma sessão por dia.

Sérgio - Nunca chegou a fazer duas?

Zé Vasconcelos - Não, não, não. Era muito cansativo. O espetáculo era muito pesado. Por causa dos números, que eu fazia muitas coisas, os números cantados. Eu tinha sempre uma orquestra tocando comigo. Um maestro me acompanhou durante muitos anos. Renato de Oliveira.

Sérgio - Naquela época tinha muito isso, né, orquestra presente...

Zé Vasconcelos - Isso é fundamental. Eu comecei com seis músicos. Aí fui aumentando. Na minha orquestra tinha 22 figuras. Violinos, viola, cello, baixo, barítono, tudo.
Sérgio - Tem uma pergunta... quer falar alguma coisa?

Zé Vasconcelos - Use e abuse do Mate Leão e já foi queimado né...

[risos]

Sérgio - Você fez comerciais também, né?

Zé Vasconcelos - Comerciais... puxa vida. Tem um comercial da Cruzeiro que eu era justamente o dono. Eu abria a janela do avião e dizia assim: “Nunca foi tão fácil voar!”

Sérgio - [rindo] Eu acho que me lembro disso. De que ano?

Zé Vasconcelos - Isso? Foi 52, 50... e tinha um outro comercial que eu fiz pra Sadia, lembra da Sadia?

Sérgio - Sim, claro

Zé Vasconcelos - Eu entrava vestido de Tarzan, numa árvore, olhava pro relógio “ih!”, pegava o cipó e saia “vuum, vuum” e quando eu saltava, eu saltava no meio do aeroporto de São Paulo. Aí eu olhava assim e o avião “vooom”. Eu dizia: “Sadia é fogo. Sai com o horário”.

Sérgio - [rindo] Boa essa. Tem uma pergunta que está acontecendo, inclusive aconteceu agora à tarde no debate das 5 horas, que é “palhaço bom nasce feito”?

Zé Vasconcelos - Claro. Claro. E você vê quantos palhaços maravilhosos criaram do nada coisas sensacionais, inesquecíveis. E um bom retorno. Então, palhaço nasce do nada. Porque aí você cria. Não tinha nada, surgiu. Isso que é maravilhoso. É a criatividade, a criação que o homem dá a tudo que está a sua volta.

Sérgio - Fantástico, porque a gente teve esse debate agora, seria muito interessante se você estivesse presente lá porque você ia poder dar uma opinião contrária à maioria das pessoas.
Zé Vasconcelos - Por quê?

Sérgio - Porque muitos acham que não. Eu, por exemplo, tenho uma teoria de que palhaço nasce feito. Bom, é outra coisa. Bom vai mais ou menos pelo caminho que ele quer trilhar. Mas é muito bom ter esse depoimento seu.

Zé Vasconcelos - É verdade, é verdade.

Sérgio - É muito importante ter esse depoimento seu porque muitas pessoas ali são pessoas jovens e que acham uma outra coisa. Eu acho fantástico isso.

Zé Vasconcelos - Você tem que encarar a vida como ela é. Hoje em dia tem uma frase que eu acho maravilhosa: “La vida, hay que tomarla con soda”, a vida se tem que beber com soda. A vida é alegria, você tem que viver com alegria. Isso é que é importante. O que eu acho: seja alegre, acredite em você, você é a pessoa mais importante do mundo.

Sérgio - Agora vou te fazer uma pergunta, eu ia até te perguntar antes da gente começar essa entrevista, porque eu não sei como é que você está com teu tempo...

Zé Vasconcelos - Pergunta depois de eu responder.
[risos]

Sérgio - Aí então veio a televisão. O rádio, a televisão... e você teve também a sua carreira no cinema.

Zé Vasconcelos - Sim.

Sérgio - Você produziu, chegou a dirigir também?

Zé Vasconcelos - Não, não.

Sérgio - Atuou e produziu?

Zé Vasconcelos - Atuei com o maior produtor do cinema brasileiro... a cabeça está me falhando muito, meu Deus do céu... essas coisas que são claras através do tempo vão desgastando... Massaini, Oswaldo Massaini. Eu tenho uma memória que eu acho prodigiosa. Doutor Omar Fontana, presidente da Transbrasil, meu querido, é um dos homens mais importantes que nós tivemos nesse país. Ele ligava para a minha casa e dizia assim: “Ô Zé, me canta o check do 727”. E eu fazia o check na brincadeira. O check era em inglês. [“recita” em inglês] “bacon, galley power, start pressure, air conditioning, start valve open, oil pressurized, AGD, fuel flow, line south”. E eu fazia tudo isso, eu mudava, abrasileirava. Então “bacon” eu dizia “bacon”, “galley power”, “dá-lhe pau”; “air conditioning”, “a condessa”; “start valve”, “estás a ver o roubo”; “oil pressurized”, era o numero dois; “Ladislau”... tudo isso falando termos da aviação. E o Omar, dois dias antes de morrer - eu fiquei com ele dois meses porque ele entrou em uma depressão muito grande - Dona Denilda, a mulher dele, dizia “Zé, você sai daqui e o Omar faz assim ó [gesto] afunda. Você entra aqui ele fica com vontade de fazer as coisas”. E eu dizia pra ele “você não pode abandonar sua companhia. Sua companhia é sua vida. Você é um homem estraordinário e é um burro. Você é um cara maravilhoso”. Mas ele estava, claro, destruindo a vida dele. Não vamos falar nisso... e ele ligou pra minha casa pra pedir pra eu fazer o check do 727. Eu vi que ele estava no fim da vida dele. Assim é a verdade, que dois dias depois ele morreu.

Sérgio - Ele ligou pra você...

Zé Vasconcelos - Sujeito maravilhoso. Um cara único. “Chega aqui Zé”. E eu dizia “Vamos lá. Vamos fazer a coisa”. E a gente viajava... ele, como eu, era amante da música. Eu toco piano e ele tocava bem... mas, bom, ele era um pianista. Eu era um gozador do piano. Eu fazia a minha música. Mas inclusive eu fiz muitas letras para as melodias dele. O Omar era uma figura única, única mesmo. E o pior é que eu não pus isso na gravação, não gravei nada. Porque... não ligava... nascia dentro da gente, cantava junto, brincava junto e era assim a nossa vida.

Sérgio - E que idéia foi aquela da Vasconcelândia?

Zé Vasconcelos - Uma loucura. Eu acreditei no Brasil.

Sérgio - Eu me lembro que eu passava com a minha família indo para São Paulo e via aquela placa, era uma placa de cidade!
Zé Vasconcelos - Olha, foi uma loucura.

Sérgio - Uma empreitada...

Zé Vasconcelos - Eu tinha 1 milhão de metros quadrados de área e era terra, era uma área muito bonita. Tinha um rio que passava, eu preparei esse rio. Fiz um rio pra você velejar dentro. Pus barco, pedalinho. Fiz uma cidade de bandeira, uma cidade de faroeste e fui construindo aos pouquinhos, o projeto era grande... eu investi muito dinheiro. E perdi muito dinheiro. Graças a Deus foram 30 anos de vida. Quanto eu lutei pra tentar levar a frente! Mas percebi que não adiantava. Prometeram muita coisa e não cumpriram nada. Eu me lembro das promessas que fizeram para o primeiro homem do Brasil, deste país, um sonhador. Cara maravilhoso que sonhou fazer o primeiro carro brasileiro. E o governo cancelou e acabou com a vida dele. Essas coisas dão tristeza na gente.

Sérgio - Que faz parte, esse tipo de sofrimento faz parte da vida do palhaço.

Zé Vasconcelos - É, exatamente. E tudo aquilo que ele trocar por risada. Por gargalhada, por alegria. Que é a coisa mais importante. Rir é o melhor remédio.

Sérgio - Pra dizer para essa galera nova, que está começando, que está pesquisando técnicas, você tem essa idéia da escola, eu sei que você tem dois cursos também... você dá esses cursos até hoje?

Zé Vasconcelos - Dou, dou. “O desenvolvimento do pensamento positivo” e “A filosofia do sucesso”. Como você pode aprender a viver. Aí tem 16 itens que você precisa analisar um por um e vivê-los. Construí-los. É a única forma de você realmente poder vencer na vida.

Sérgio - Interessante isso...

Zé Vasconcelos - E esse outro eu faço mais para as pessoas da terceira idade. Que são as pessoas que mais precisam de ajuda. Os velhos, e eu digo isso de mim mesmo, nós somos culpados porque nós não ensinamos os nossos filhos a apreciar aquilo que nós fazemos. E a maioria das vezes os filhos não vêem a gente como a maioria das pessoas nos vêem. E é triste. E nós não damos oportunidade para que pensem, que acreditem e construam um mundo conosco.

Sérgio - Você falou do curso que você tem vontade de fazer. Dessa escola de humor.

Zé Vasconcelos - Vou começar no Rio de Janeiro.

Sérgio - O que que é preciso, no básico, o que é preciso para que alguém se torne um cômico? Porque a gente já falou da origem, quer dizer, se é nato, se não é, se nasce com a pessoa, se não. E você disse que nasce com a pessoa.

Zé Vasconcelos - Nasce.

Sérgio - Mas pra quem não nasce com isso, é possível ele fazer graça, que tipo de coisas é preciso para fazer rir?

Zé Vasconcelos - É claro. Primeiro: construir o humor com coisas que acontecem com você e com a maioria das pessoas. Eu conto piadas da minha própria vida, do meu cotidiano. E você tem que pegar e.... por exemplo: cara, me deu uma idéia! Eu trabalhei essa idéia e construí um número que foi um sucesso brutal na minha vida. A história do italiano que nunca tinha visto um jogo de futebol. Conhece essa história?

Sérgio - Não, não.

Zé Vasconcelos - É a verdade do futebol. Era um Italiano... eu morei lá em São Paulo, é a mesma coisa que morar na Itália. Metade de São Paulo descende de italiano e a outra metade é italiano. Então eu construí... não vou contar agora, mas vou contar só a idéia: o filho comprou a entrada para assistir ao jogo daquela tarde e o pai o proibiu porque ele fez uma malcriação. O garoto chorou, disse que ia rasgar a entrada; o pai disse “No rasga, José, no rasga perché io vou assistir questa porcaria”. Foi, assistiu o jogo, voltou pra casa e chegou ao filho: “filho, vem cá. Tu gosta daquela porcaria? Ma o que que tu acha de engraçado naquilo? Evidente, você queria rasgar o bilhete aqui em casa e eu não deixei. Primeira coisa que eles fizeram quando cheguei lá foi rasgar o bilhete. Io sono arrivato em campo, tá todo mundo brigando no meio do campo, olhando pros pasto verde, bonito... Nenhum bezerro, nenhuma vaca. E os imbecille gritando ‘Palmeiras, Palmeiras!’. Perché palmeiras? Não vi palmeiras, só vi grama”. E aí vai a história toda, né... e é isso, é construir coisas como essa. O italiano que comprou um Cadillac, conhece essa história? Também foi outra história famosa da minha carreira. Aonde eu entrava num teatro o pessoal gritava “Cadillac, Cadillac!”. O Cadillac foi o grande carro de venda no Brasil nos anos 50. Era sinônimo de que você era um vencedor. Se comprou um Cadillac, você comprou o maior carro do mundo. Cadillac, chamado também de rabo-de-peixe. Custava 60 milhões de cruzeiros naquela época. Ele compra o Cadillac rabo-de-peixe, vai experimentar o carro na melhor estrada do país. Fura o pneu, ele salta do carro “ih, furou o pneu, vou ver donde está o macaco”, vai lá, “ué, ma como? Não tem macaco? Me cobraram uma fortuna e não botaram macaco! E a mi, me disseram que estava equipado. Ma che equipado! Não tem macaco! Como é que tá equipado? Tem acendedor de cigarro e eu não fumo. E agora o macaco, que eu preciso pra suportar o carro, não tá. E me cobraram 60 milhões de cruzeiros. Cadillac 1960! Mas não tem macaco! Porque que não botaram... me combrassem mais 10 mil, mas botassem o macaco!”. E aí vai... até que pára um carro perto dele, e ele pede se o carro tem um macaco pra emprestar. E ouve: “não, não tenho. Mas a 1km daqui tem uma garagem que aluga macaco.”; “Uma garagem, que aluga macaco? Ah, eu vou lá”. Aí ele vai, aí ele vai [olhando para o lado e apontando] olha aí, entrou o macaco, viu?. [risos] Aí, o Cadillac foi uma coqueluche. Todo mundo, aonde eu ia, pedia pra eu contar a história do macaco. Então, essas coisas é que fazem daquilo que você criou uma coisa gostosa.

Sérgio - Interessante. Você quer perguntar alguma coisa, Shirley, pra incrementar?

Shirley- Eu queria saber se o senhor já participou de encontros de comediantes, de palhaços; se isso é comum na sua carreira...

Zé Vasconcelos - Não, difícil. Muito difícil. Eu trabalhei com muitos comediantes. Eu vi a grande época do humor no mundo, foi o teatro-revista. O vaudeville, onde eu vi os grandes comediantes italianos, os franceses, os alemães, os ingleses. E no Brasil, na Argentina. E o teatro de revista teve uma evolução fantástica. E foi a grande peça do mundo. De repente começou a acabar o teatro de revista, acabou o humor. Acabou. Não apareceu mais. Eu vi peças na França sensacionais. Na Itália, meu Deus do céu! Alberto, Sordi e coisas fantásticas... os franceses... olha... e, pena, acabou. Isso acabou. E aqui nós tivemos Oscarito, Mesquitinha, Walter D’ávila, Otelo Zeloni... até o nosso mais próximo aí, o Costinha, que era um cara muito engraçado. Muito engraçado.

Sérgio - O Costinha, eu fui assistir dois shows dele, nos dois shows que eu fui assistir ele me pegou na platéia. Muito azar. Ele me pegou as duas vezes. Era um gozador.
Agora eu queria te perguntar, já que ela perguntou isso, como é que é pra você ser homenageado aqui, no Rio de Janeiro, nesse encontro que é o quinto encontro Anjos do Picadeiro, um encontro internacional de palhaços.

Zé Vasconcelos - É uma coisa maravilhosa. Porque, o que é um palhaço? O palhaço é exatamente a criação. É uma criação do que já foi feito por outras pessoas. São as pessoas que vivem o cotidiano. O palhaço é o cotidiano. É uma repetição do cotidiano, da graça autêntica. Da graça do circo. É coisa que você na hora encontra uma saída e faz uma piada. É isso aí.

Sérgio - Bom, eu acho que a gente fez uma entrevista ótima. Você gostaria de dizer alguma coisa pra finalizar?

Zé Vasconcelos - Eu só posso dizer uma coisa: do orgulho que eu sinto da minha vida. Da beleza que ela foi durante todos esses anos, do respeito que as pessoas têm para comigo, que é uma coisa autêntica. E da simplicidade. Eu fiz questão de ser sempre um homem absolutamente simples, que ama o que faz. E é isso que faz um indivíduo: amar aquilo que faz. Eu amo o que faço. Eu amo o humor e eu amo a aviação. Foram duas coisas que completaram a minha vida. E, ao mesmo tempo, se completaram.

Sérgio - Zé Vasconcelos... [cumprimentando o Zé]

Zé Vasconcelos - Foi uma hemorragia de prazer.

Sérgio - Nossa senhora, eu tenho que dizer o mesmo. Acho que a piada até dançou.
A piada da porta. Agora me diga uma coisa que é uma curiosidade minha, não precisa nem gravar. Você vai fazer nesse show aí o Stol de Badalo?

Zé Vasconcelos - Faço. Eu conto a história. Lógico, lógico.

Sérgio - Então estou salvo. Eu tinha que ver isso ao vivo

Zé Vasconcelos - Porque eu fiz isso com um dos maiores aviadores que nós tivemos nesse país. Coronel Braga. Que na minha época era Major Braga. Braga era um querido amigo, um sujeito gozador e um brincalhão, sujeito fantástico... o Braga...
[abrem a porta, apresentações, cumprimentos]

Zé Vasconcelos - Esse é o lado carioca da minha vida.

Sérgio - Mas você falou do Braga...

Zé Vasconcelos - Ele era um cara fantástico. O Braga... eu voei com ele de PT19, nós fizemos miséria.

Sérgio - Eu não vou esquecer nunca. Eu tenho isso gravado, é uma fita até velha, ela tá no finalzinho da fita, eu tenho que passar isso de alguma forma pra DVD pra ter esse registro porque... você inclusive fez que abriu uma versão do “Who’s on first”, não foi? Daquele... “quem está na primeira base”? Só que você passou para o futebol... isso é teu, é de quem isso?

Zé Vasconcelos - Isso é de um comediante americano. Aliás, ele me deu de presente esse número. Ele escreveu esse número e me deu de presente. “Quem é o lateral? Não sei. Esse é o Orlando. Quem é o Orlando? Não, quem é o lateral, não sei...”

Sérgio - Era no baseball, né?

Zé Vasconcelos - Era, era. Tudo que foi feito... era uma coisa fantástica.

Sérgio - E era fantástico aquele texto... muito bom. Eu estou felizão né, a gente até já se despediu, não tá nem mais valendo nada.

[se cumprimentam]

Sérgio - Olha, foi... vou até poder contar pra todo mundo.

Zé Vasconcelos - Que isso...

Sérgio - Tá todo mundo morrendo de inveja lá... saber que eu fui escolhido?!

Zé Vasconcelos - Nós fomos os escolhidos, essa é que é a verdade.

Um comentário:

Anônimo disse...

Bela entrevista!Sem os achismos das edições anteriores....
mas eu acho engraçado mesmo vc dizer "o blog é de vocês" sendo q nenhum comentárioaparece....eu mesmo ja enviei uns 3 sobre a barbarie Leo Bassi escrita aqui....
Cade o "profissionalismo" tão aclamado pela anônima no anjos 6? Estrada não constrói caráter....o profissionalismo de vocês morre quando pensam que o nariz vermelho de vocês é mais alto que o de qualquer outro...espero que as entrevistas apareçam mesmo, pois os mestres são os convidados...a organização ainda émuito mirim.