quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Leo Bassi

"Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (...) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniqüidade. (...) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar." (Nélson Rodrigues).

Verdades absolutas..... será que isso existe? Vivemos num mundo mutante, somos mutantes. Estamos em processo de transformação a todo o momento, basta ver o nascer e por do sol... não há dia que se repita igual!! Sempre é diferente, tudo sempre novo ... Renovado. E que bom que tudo mude, o tolo é quem não muda, não é mesmo?
Nosso Nélson já dizia que toda a unanimidade é burra. Então... personalidade, estilo e gosto, cada um tem o seu, e que bom que seja assim! Esse papo todo é só pra me desculpar, me desculpar talvez, pela minha ignorância, ou talvez porque esteja enxergando além do que está aí, ou melhor, pode ser só um jeito diferente de entender, de ver além, ver além de mim... (tá ficando muito mediúnico esse papo de ver além), mas em se tratando do mestre Leo Bassi com seu espetáculo: La Revelación, tenho que fazer estas ressalvas, pois acredito que a noite do “La Revelación”, não aconteceu em Salvador, ou então, realmente o problema foi a minha expectativa... Pensei que ele ia botar fogo no teatro... Assim como na praça, quando ele apareceu com os extintores, pensei que ele ia botar fogo nele mesmo, num ato de purificação ou outra coisa parecida. Esperei crente da sua transgressão Bufão-radical
Leo Bassi é um mestre na arte de ser um Bufão. Mas essa guerra religiosa, não me interessa e talvez aí esteja o problema, admito, pode ter sido um lance de empatia pessoal. A relação espanhola com a fé (católica) soa bem diferente por aqui, onde fervemos de fé, acredite todos os espanhóis que conheço são ateus e morei em Madrid ano passado quase 06 meses e conheço muitos espanhóis.
A fé católica, se é que exista um tipo especifico de fé.... anda abalada por aquelas bandas. Daí a importância desse espetáculo..... lá! Aqui, ainda somos colonizados e manipulados pelo mundo dos ricos, poderosos e pela fé. (religião/disputas). Ainda importamos padrões culturais da Europa e companhia ltda. Importamos seus gostos, suas vestes, sua tecnologia e seus padrões antigos e arcaicos, importamos até métodos educativos, e esquecemos que aqui, o Brasil, pais do agora!! Do presente, é o que há de melhor!! em tudo! Acreditem!
Vejo religião como língua, cada um tem a sua, mas o Deus, (normalmente) é o mesmo. Então só muda a comunicação, o meio, o caminho.
A Europa está vigiada, controlada, velha de doer os dentes! Aqui no Brasil, apesar do contraste social imenso e da extrema miséria de muitos e a riqueza de poucos (financeiro), somos livres! e por isso mesmo, somos mais livres para criar, compor, refletir, interagir, trocar e transgredir. O novo somos nóix... é nóix na fita e os playboy no dvd... rsrsrsrs
Mesmo sem sabermos, já somos livres! O que precisamos realmente é de alguns ajustes: político-social-econômico, educação e saúde acima das burocracias. Portanto não preciso e não sinto a necessidade de refletir sobre dogmas estilizados, não somos necessitados de uma revelação ou libertação, da qual prisão, já fomos libertados. Pelo menos nós aqui que nascemos na Bahia. Rsrsrsrs, eu nasci na Bahia!
Quando saio nas ruas e vejo tanta miséria, que assola toda uma população de necessitados que não tem direito à nada, pois vivem como ratos explorados, esquecidos, sem nada! Vejo aí o grande desafio: como dar condições dignas para todos os seres do mundo, viverem felizes e satisfeitos, sem poluir ou destruir o planeta? Destas revelações eu preciso, preciso destas revelações! e não de visões exportadas de revelações bíblicas. Calma eu sei, é arte, o artista pode! Isso é só um espetáculo, entendo, mas não há mais tempo, precisamos contextualizar agora! Eu preciso é de alegria, e particularmente acredito que essa seja a melhor função de um palhaço. Resumindo: O espetáculo de Leo Bassi, aqui em Salvador, para mim, não aconteceu. Eu estava muito cansado e confesso que dei uma cochilada na poltrona do Tca, mas nada que me tirasse a concentração.
Acho até que ele mesmo percebeu isso e numa atitude veloz, botou os colhões pra fora da cueca no Tca! Bem, se tratando de transgressão ele começou a ganhar pontos.
Acredito que não fui só eu que saiu desapontado do Tca, mas mesmo assim, perguntei a muitas pessoas e muitos disseram que amaram o espetáculo. Comecei a pensar se eu era o ser defeituoso... mas não...Realmente sou sincero! E não vi nada de revolucionário e sim, achei ultrapassado! E chego a conclusão de que não preciso dessa “revelación”, e sim, já que é para filosofar, desejo discutir o que vamos fazer para nos salvar e salvar o planeta de nós mesmos, mas de outra forma...... Não precisamos mais da importação de modelos e estéticas artísticas, que se cristalizam em nossa imaginação, como se fossem o que há de melhor no mundo. Em exaltação nacionalista dou muitos salves aos mestres Pinduca, Trepinha, Picolino, Beijamin, Biribinha.....
Dou um grito de Não! E eu me nego a aceitar as coisas, só porque dizem que é bom! E sei que o bom também pode ser ruim, às vezes, ou mediano, midlle man, isso depende muito da situação e de quem está envolvido. E isso tem haver com o inesperado, tem haver com um por do sol com chuva e frio, ou um por do sol no porto da Barra, em Salvador, com amigos e cerveja.
Assim, o sol não deixa de ser sol, mas o momento pode ser diferente. O Leo Bassi tem todos os créditos e merece meu respeito pelo que ele é e já produziu e tudo mais! Mas não nos esqueçamos que somos o que somos, e somos principalmente o agora! Então que desfrutemos dessa dádiva. Não podemos viver do que foi feito e sim devemos fazer todos os dias algo de bom, de construtivo, de novo, de superação! todos os dias, como se fosse o último. Pode ser 1000 anos a 10 ou 10 anos a 1000, não importa, mas que se viva o agora! Que saibamos utilizar nosso livre arbítrio, e que sejamos flexíveis, sejamos água, ar, terra, fogo e coração.
Deixo claro que em nenhum momento tiro os méritos do mestre Leo Bassi, pelo contrário, exímio equilibrista e bufão anárquico-filosófico. Ainda digo mais, sua performance é muito interessante, convincente, madura, etc. mas me apego neste texto, exclusivamente ao que senti, e senti normalidade. Gosto de sair de uma peça ou filme, ou show, sentindo algo, pode ser alegria ou até raiva, mas tenho que sentir, tem que mexer com minhas emoções e não só com minha razão ou gosto pessoal.
Aí o espetáculo “La Revelación” caiu por terra, apesar dos questionamentos importantes trazidos em contraponto às informações bíblicas, eu estava afim mesmo é de dar risada como uma criança, e não me sentir num reino distante, pensando em problemas distantes e longe da minha realidade. Não contextualizou. E com todo respeito ao mestre Leo Bassi e contrariando aos que gostaram da sua performance, do dia 15 dezembro, eu peço desculpas, mas não mexeu em nada comigo. Não sei ao certo até onde isso é uma frustração de uma expectativa não realizada, mas o fato é que o espetáculo “La Revelación” ficou distante da minha realidade. Será porque eu o vi fazendo a cena do mel em Jô soares? Será porque pensei que ele ia raspar a cabeça de alguém? Ou cortar suas roupas? Não sei, será que o problema estava em minha expectativa no espetáculo?
Imagine..., eu sou do candomblé, do espiritismo, da umbanda, leio o tarô do caminho sagrado, curto o livro dos segredos de Osho, sou católico, Taoísta, aceito Buda, krisna, curto muito o Yogananda também... rsrsss e leio os livros de Herman Hesse.....(essa foi a lá Angelí do chiclete com banana Rsrsrsr). Vivo num lugar onde tem uma lenda que diz assim: “o que ainda vai acontecer no mundo acontece primeiro na Bahia”. É verdade! Com tudo isso misturado em mim, me pego em um questionamento, se realmente é importante em arte, trazer à tona velhos paradigmas, filosofar em cima de questões seculares, dos dogmas e dos medos.
Acredito na experimentação contextualizada, acredito na confluência. Assim, ao artista, querer induzir e dar sentido ao que o público sente, e ao que se percebe, é especulação, pois somos diferentes e sentir é uma ação idiossincrática. É a combinação de personalidade, identidade, estilo, gosto, prazer ... então isso tudo é muito pessoal.
Que seja bem vinda a diferença! que aprendamos a interagir melhor uns com os outros, que respeitemos a natureza e que cuidemos de nós mesmos. Que possamos a cada dia entender, que somos o que nós construímos. Nós escrevemos a nossa história, dia a dia, coisa por vez. Assim, respeitemos o inesperado, e aceitemos que tudo pode acontecer. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, mas podemos sempre entrar melhor no rio. Isso faz parte dos processos de escolha.
Que estejamos atentos às nossas intenções e que busquemos sempre fazer o melhor. Mesmo que às vezes as circunstâncias nos impeçam e possam favorecer às más impressões, como estou sentindo em relação ao espetáculo “Lá Revelación”. Mas concerteza, tudo é só impressão. E impressionista sou. E tenho certeza que o problema não está na peça e sim no meio de comunicação entre ela e o meu ser. Isso explica ou classifica uma sensação exclusivamente momentânea. Fiquei viciado em Biribinha e Gardi Hutter, em O sapato do meu tio. Viciado neste jeito de fazer o clown acontecer.
O mestre Leo Bassi é um bufão.... mas não entendi porque ele se explicou tanto, em performance, o que é, e porque ser um Bufão... ? esse negócio de explicar, me soa conduzir a uma certa linha lógica de fruição, de entendimento das pessoas daquilo com o que elas, nós, estamos em interação. Ou ele achou que somos realmente 3º mundo em tudo? Que as pessoas pensem o que quiserem pensar... Oras... livres para eleger escolher, trocar, ser o que é, transgredir e transcender... gostar e não gostar.
E como ao Bufão pode tudo, me visto das suas características e exprimo meu sentimento: Desculpe-me Leo Bassi, mas não curti. Mas juro a você, foi o momento. É que 500 anos de Bahia se faz muito mais misterioso para mim, que séculos europeus.
Salve Orixá!
Juracy do Amor

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Chacovachi

Depois da noite do Overdoze, em overdose.... foi difícil acordar cedo. Ainda bem que a programação do sábado só começava a partir das 16:00h. Aí deu pra descansar um pouco da noite agitada do Overdoze, e ir ao Largo do Cruzeiro, Pelourinho, para assistir ao espetáculo de gala, com direção de Chacovachi.
Cheguei no meio da performance e, quando adentrei a roda, estava o Chacovachi já interagindo com o público e apresentando seu número final, a torta na cara!!!
Muito interessante, bem inteligente e filosófico o desenrolar da cena de Chacovachi. O público respondeu bem às suas inquietações e foi uma grande surpresa, ao final do seu número, ver tanta gente com a cara cheia de creme de chantili! A interação foi garantida entre artista e público e a satisfação de estar ali, e de fazer parte de tudo, me deixou muito feliz! Uma verdadeira celebração no universo do ser palhaço, do ser humano. Filosofia e arte! Combinação explosiva!
Juracy do Amor

Loco Brusca

Saindo dali fui saborear o maravilhoso sorvete da Cubana, ali no elevador Lacerda, e em seguida fui ao Terreiro de Jesus e me deparei com o Loco Brusca, apresentando: Speerman.
Sua atuação teve a colaboração das crianças, que participaram entusiasmadas das brincadeiras propostas. Sua performance teve altos e baixos e acredito que o público estava esperando mais... Mas nada que prejudicasse seu desempenho, pois o Loco Brusca se mostrou um artista experiente e soube se livrar das enroscadas em que ele mesmo se meteu.
O que foi apresentado nas duas praças, tanto a performance do Loco Brusca, quanto a de Chacovachi, deram-me impressões positivas do andamento do evento, e encaixaram-se perfeitamente na proposta das trocas. Adoro quando o espetáculo é realizado na rua! Por isso mesmo, parabenizo os dois artistas, que mesmo com as diversas interferências, como: ventos fortes, bêbados, despercebidos e transeuntes do centro histórico de Salvador, souberam contagiar o público e colaboraram para abrilhantar a agenda do evento dos Anjos do picadeiro 6. Tudo continuou em plena efervescência, fervilhando.
Juracy do Amor

Gardi Hutter

Saindo do terreiro de Jesus, fui direto ao teatro do Sesc garantir o convite para assistir o espetáculo da artista Gardi Hutter, apresentando: Joana DarPpo.
Teatro lotado e muita expectativa no ar, Gardi adentra ao tablado do Sesc e arrebenta! Que clown!! Em performance perfeita, interativa, única e extremamente apaixonante, Gardi desenvolveu o que há de melhor no mundo da performance do ser palhaço. Ela conseguiu, ao mesmo tempo, representar o tradicional e o contemporâneo.
O público delirou com as brincadeiras, as cenas e principalmente com o jeito de fazer. Caras e bocas, sussurros e gritos fizeram parte da construção meta-simbólica, histórica e subjetiva da personagem. E essa construção da personagem em cena trouxe ao meu imaginário a vontade de ser palhaço, foi fantástico! Em mim, gerou um sentimento de repleta satisfação em poder estar ali. Uma identificação imediata ocorreu com toda a platéia e a artista, que soube aproveitar todo o espaço cênico e realmente apresentou um belíssimo espetáculo.
Terminando o espetáculo, e após a fala do grande João, que sempre tira gargalhadas do público quando aparece em cena, houve mais uma performance.
A performance final agradou ao público, que realmente queria mais e mais daquela noite! A interação entre os artistas se fez valer no palco e as trocas aconteceram! Interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, transgressões! Parabéns pelo dia!!! Foi realmente um prazer incrível vivenciar uma tarde de extrema palhaçada!
Seguindo do Sesc ao passeio Público para a roda de samba, tive um pequeno surto, cadê o Overdoze? Rsrsrs, A noite depois do Overdoze, realmente não foi a mesma!
A noite seguiu sem muitas animações, pouca cerveja e pouco público. Fui para casa, mas soube no outro dia, que às altas da noite, parceiros de vida lá da Picolino começaram um pequeno show musical, com a artista Lívia no acordeom!!! Me disseram que ferveu!!! Pena que eu não estava lá.. rsrsrs
Uma saudade começou a bater... o encontro estava chegando ao final....
Dia de aprendizado e reflexão.
Asé!
Juracy do Amor.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Overdoze

Satisfação incrível poder vivenciar o fantástico Overdoze aqui em Salvador da Bahia! Que lindo!!! Um conceito contemporâneo, diversificado, intrigante! Onde a metáfora já é uma verdadeira overdose, que instiga a nossa capacidade criativa, a nossa imaginação e subjetividade.
Um conceito que me agrada muito, uma verdadeira overdose de cultura e realização artística. Uma maratona artística, uma ode à dualidade, multiplicidade e pluralidade artística, sincronicidade, exposição, manifestação, trocas, modos diferentes de se fazer e pensar arte.
O Overdoze consiste basicamente em: doze horas de programação artística ininterrupta, onde não necessariamente uma atração irá começar após a outra, pelo contrário, as ações artísticas simplesmente aconteceram em horários às vezes sincrônicos, ou não. Assim cabe ao público eleger e escolher o que mais lhe agrada a assistir, o que é maravilhoso, pois dá ao espectador o poder da escolha, da entrega e da troca. Uma partilha de sentimentos, ações, ou o que seja! O overdoze me traz um sentimento de que a noite nunca terá fim.

Juracy do Amor

Carroça de mamulengo + Djammal

Quando cheguei ao Passeio público, fui direto ao “circo tomara que não chova” o grupo Carroça de Mamulengo do Ceará estava em cena. Com poesias e canções desenvolvidas com naturalidade e musicalidade, me deixei embalar, mas algo me cutucou e me senti atraído até a lona da Petrobrás e lá estava Djammal com o número: Clown on Popping.
Percebi em tal performance, a vivencia de um artista atuante, conectado com as novas demandas sociais. Djammal já tem em sua trajetória, diversas atuações em ruas e palcos da Europa, América do Sul e África.
Em sua performance no Overdoze, ele deu continuidade ao uso da linguagem gestual e verbal, interagindo bastante com o público, o que proporcionou um bom desenvolvimento do seu personagem. Achei-o muito simpático e engraçado.
Com bastante humor e improvisos rápidos, Djammal utilizou em sua performance elementos do hip hop, trazendo à cena elementos do beatbox e do break beat. Com uma linguagem popular, dos guetos e bairros de qualquer metrópole do nosso mundo globalizado, seu personagem trazia características típicas da gente do “bairro”, dos “guetos”, como ele mesmo diria. A sua performance teve um bom crescendo, ganhou ritmo e arrancou gargalhadas do público.

Juracy do Amor

Biriba

Saindo da Lona, adentrei o teatro Vila Velha, Biriba já estava no ar! Sentei e comecei a viajar... e tudo foi ressurgindo em minhas lembranças. Minhas memórias de um tempo remoto.
Biriba apresentou um espetáculo com histórias engraçadas e educativas, fantásticas!!! Algumas delas, histórias que nós conhecemos quando éramos crianças, quando éramos artistas puros e livres de tantas pressões e obrigações do dia a dia. Numa releitura de clássicos, a maestria de Biriba e sua trupe da alegria contagiaram o teatro Vila Velha na noite do Overdoze. Com muitas brincadeiras e improvisos, o Biriba desenvolveu o seu jeito de fazer a cena acontecer, isso reflete o excelente profissional que é.
Natural e espontâneo, o Biriba apresentou diversos números e inúmeras piadas, muitas histórias engraçadas. Em destaque, apresentou o número da orquestra e máquina de escrever e finalizou a sua performance com um belo discurso, falando da alegria e importância de ser palhaço.
Ao final fez questão de retirar a sua maquiagem no palco em homenagem ao grande Pinduca, o homenageado do Anjos do Picadeiro 6. O mestre Biriba finalizou o espetáculo com forte sentimento de alegria, simplicidade e esperança de novos grandes momentos. Um excelente palhaço! Foi um prazer conhecê-lo.
Ao final da apresentação do Biriba, entre uma gelada e outra e os pequenos e estratégicos atrasos de programação, o teatro foi sendo preparado para a noite do Espetáculo de gala com direção de Leris Colombaioni.

Juracy do Amor

Espetáculo de gala com direção de Leris Colombaioni

Com tudo pronto muitas pessoas adentraram ao teatro, que teve a sua lotação atingida em poucos minutos. O espetáculo começou com meu amigo Torquato apresentando a mesma gag realizada anteriormente por Biriba, o número da orquestra e máquina de escrever. Foi muito bom poder em poucos minutos, presenciar duas performances distintas da mesma gag, por palhaços distintos. Isso só faz reafirmar que o mais importante não é exatamente o que se faz, mas sim, como se faz! E isso contextualiza toda a história do encontro. E os dois palhaços foram ótimos.
O espetáculo de gala teve seus excelentes momentos, mas também momentos onde o timing em cena se perdeu, mas nada que mudasse o curso da embarcação, que atracou em porto seguro, sob chuva de palmas e assovios.
Porém, novamente senti a falta de conexão técnica entre a trilha musical e os números apresentados, ou seja, som e cena, técnico de som e cena. Isso também prejudicou o andamento e timing das performances, e novamente aproveito para cutucar e salientar a importância de espetáculos com trilhas originais e/ou releituras geniais, trilhas que transgridam, que transitem entre espaços e linguagens, contextualizem e se mesclem à cena. Movimento, emoção, expressão e dinâmicas.
O espetáculo de gala foi um espetáculo de bricolagens de números muito interessante! Ali, cada artista teve seu momento de expressão, chegando a diferentes clímax, pois naturalmente cada número agradava mais a umas pessoas que outras, mas isso faz parte do espírito e propósito do Overdoze. Tudo ao mesmo tempo agora!

Juracy do Amor

+ Over12

Uma noite realmente mágica e muito especial, tanto que no dia seguinte, na roda de samba, na lona da Petrobrás, senti muita falta da movimentação que o Overdoze proporcionou. Fiquei como um viciado necessitado! Desejando mais uma dose, uma dose dupla, tripla, overdose... doze! De palhaçada, riso, burburinho... Emoção e cultura!
A impressão deste Overdoze foi de conexão, e disseminação de referencias diversas, o que valorizou o encontro dos Anjos do Picadeiro 6.
Em meu ponto de vista, o Overdoze, renascido no Anjos 6, já se torna um elemento imprescindível à programação dos futuros encontros. Aqui se faz importante parabenizar a incrível Dane de Jade, profissional em Overdoze!!! Incrível articuladora e produtora deste evento na mostra Cariri de cultura, no belo estado do Ceará e criadora, junto com Sidnei Cruz e Julio Adrião, do primeiro Overdoze.
De repente fui ao Ceará e me peguei repensando o tema: trocas. Voltei e senti uma dose de felicidade. E entendi! Então aqui, faço a magia e que seja assim, que o Overdoze sempre se transforme e sempre renasça em programações de outros festivais, mostras e encontros como é o caso. O Overdoze no Anjos! Eita.... e pode ser Anjos do Overdoze? Ou Anjos em overdose? Eita....vai pegar fogo, tudo misturado!

Juracy do Amor

Crítica construtiva

E por falar em encontro, gostaria de fazer uma crítica construtiva. Acredito que os workshops oferecidos deveriam ser gratuitos e destinados exclusivamente aos participantes do encontro, com uma porcentagem de abertura ao púbico geral de 30% das vagas (se for o caso). Penso nas diferenças conceituais entre “festival e encontro”, (eu vejo essa diferença, mas realmente não sei até onde isso é questionável. Cutuco para reflexões e discussões). Percebo o termo: “encontro” muito mais próximo ao movimento de troca! Insisto no tema: trocas... de saberes, experiências, vida.
Num festival de palhaços, acredito em workshops abertos ao grande público, mas num encontro de palhaços, os workshops deveriam ser destinados exclusivamente, às trocas de saberes e informações, técnicas e experiências entre os participantes do encontro. Trocas que despertem os processos de interação entre as pessoas/artistas, trocas vivas, presenciais. Seja qual linguagem e/ou dinâmica se apresente, e/ou que possa ser gerada/criada/sugerida: circo, teatro, música, poesia, palhaço, técnicas, plásticas, malabarismo, etc, etc, etc. Como já havia dito, poderiam existir algumas vagas destinadas às pessoas interessadas em assistir, interagir e fazer parte das vivências nas quais surgem as trocas, únicas, lúdicas, transdisciplinares.
Assim, penso que o mais importante é estarmos atentos e conectados, pois as trocas sempre acontecem. E se nós nos permitirmos estar nesse movimento, as experiências construídas e vivenciadas vão contribuir significativamente para o enriquecimento total do ser humano, do ser palhaço! E é aí onde tudo se transforma! Ou melhor, se conecta! Nos conectamos com um processo de contínua transformação. Já que o mais importante é sempre estar em processo de troca, independentemente do que se troca. Isso conduz, e/ou favorece o fortalecimento das ações dos palhaços do Brasil em sua interação com o mundo e os diversos espaços que possam existir.
Asé pro overdoze em overdose!

Juracy do Amor

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A festa final

Logo após o espetáculo de Leo Bassi, uma chuva fina caiu do céu banhando a última apresentação da mesma forma que o fez no primeiro dia do encontro. Seriam lágrimas de comoção vindas de palhaços celestes? Quem sabe águas de Oxalá a limpar o peso de tanto trabalho daqueles que por sete dias cobriram a capital baiana de Anjos, cuja função talvez seja pairar sobre nós mostrando suas asas em forma de malabares, acrobacias, música, humor, amor.
Numa conversa breve com a Mãe da Carroça dos Mamulengos falamos sobre o sentido que sua arte tem diante de tantos estímulos tecnológicos. Eles sabem que seus descentes hoje trilham ao lado e a eles confia a tarefa de prosseguir. Ela chegou a confessar certa preocupação. Será que eles vão continuar ?
Esse pensamento assombra muito o artista em momentos distintos. O fato é que o elemento de que o Anjos é feito transborda e vivifica até palhaços com cheiro de mofo. Para sintetizar, que Leo Bassi me dê licença, o Anjos do Picadeiro é feito de fé em uma força absoluta, que talvez alguns chamem de Deus, e que se apresenta quando apesar das dores se sobe ao trapézio; mesmo sem aplausos se prossegue o número e se faz do riso o conector de almas.
Quem é Anjo sabe o que isso significa.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Os fios da rede

Num círculo formado para apresentar e reconhecer pessoas e possibilidades de discussão de gestão, Sidnei Cruz evidenciou a importância do encontro físico para se destacar o nó onde cada um se amarra e se segura enquanto viabilizador de intercâmbios circunvizinhos ao universo do picadeiro. A quem quis tomar conhecimento de eventos no território nacional não faltou indicações de festivais, congressos, movimentos e até algumas extensões possíveis fora do Brasil. Mas ainda não era o núcleo da pauta. Curiosamente o manifesto surpresa em forma de poesia que Antonio (do Ceará) apresentou, delineava a filosofia em questão: eles têm um problema (o reflorestamento) e estão trabalhando numa ampliação das soluções (doam mudas). Ainda que ele trouxesse uma abordagem específica para a sua visão de problema, ela parece que ressoou como um exemplo que surtiu efeito na discussão do dia, ou seja, quantas idéias dali podem ser plantadas e podem gerar frutos ou ensinamentos do modo de processar esses encontros que visam uma partilha econômica e gestora? Será, portanto, no FestClown que essa discussão será retomada e – queremos todos – ganhará novas dinâmicas.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

A fé não pode, o dogma sim

Leo Bassi critica de modo pormenorizado e excessivamente verbal a fé em Deus e na Bíblia, com discurso que beira a revolta adolescente. Há muito tempo que se toma essa referência católica como mitológica. Quem é realmente fiel à igreja talvez se ressinta, mas, caso contrário, ele não expõe nada que seja a grande descoberta da fraude cristã. Se soubéssemos que íamos a uma palestra animada teríamos mais disposição. Então ele que se auto-explica como bufão e como pensador traz imagens provocativas, mas parece debater sozinho e chega a recusar a reação da platéia se dizendo pronto para a indiferença. Será?

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Beleza com Bônus

Quem assistiu a apresentação de Gardi Hutter pode provar de momentos genuínos dessa alegria do simples, do indivíduo que se deixa ver pela chave da fechadura que há no cérebro e que quando se dá conta que está sendo espiado abre a porta por inteiro e te convida: Entra! Só que lá dentro a gente nota que, na verdade, entramos no coração. Isso porque no coração tudo pode, a destruição da lógica que permite uma nova ordem dos sentidos, a recolocação de tudo de volta se assim der vontade.
A estrutura parte da entusiástica leitura de Joana Darc e Outras Grandes Heroínas, numa condução deliciosa de quem se empolga com feitos que cabem em nosso quintal.
É um estágio recuperado da infância. A platéia não ri em espalhafato, mas brota em risos como flores. Quando não ri por fora, ri por dentro. E Gardi parecia sondar a todos com seu olhar guiado pela farta narina que como uma palhaça clássica, tem nela seu farol.

E como prêmio da noite surge o trio Gardi, Leris e Ricardo Pucetti, em homenagem a Nani Colombaioni. A cena continha elementos de alto contraste que combinaram para um excelente humor: figuras mórbidas, alturas gritantes em suas diferenças e ares de um espanto além do comum. Essa sátira ao temível com um pezinho no meio macabro é sempre bem-vinda. Por isso brindemos a eles!

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Speerman divaga

Quando um artista de rua exige que o público atenda a certos códigos como urros e aplausos de modo sistemático, algo está errado com o artista, certo? Na lógica de Loco Brusca não. Ele tem energia em cena, mas fez de sua apresentação um manifesto de incômodo. As crianças trouxeram suas melhores chances de desenvoltura. Viva as crianças! Afora este mal estar, que incluiu aborrecimentos com o vento e a equipe técnica, ele traz um bom exemplo de jogos de comunicabilidade e provocação com a platéia.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

As edificações líquidas

Se compararmos as atrações do Overdoze a um edifício veremos uma distribuição bem peculiar. Os que moram no térreo, por segurança, não ousam tanto e preferem os códigos da tradição seja esta velha ou renovada. Entre estes está o performer Djammal numa busca de junção de códigos urbanos aos números com malabares e de habilidades corporais. Vizinhos dele os palhaços Pimenta e o pequeno Baratinha trazem a harmonia das gerações no que há de mais simplificado, com jogos e troças tão previsíveis quanto engraçadas pela total falta de pretensão ou, como diria Pimenta, “total falta de absolutamente.”
Moradores de andares acima às vezes são pedantes, tem uma visão mais privilegiada e passam pela portaria sem dizer boa noite. A referência cabe a algumas cenas dos espetáculos de Gala.
No primeiro dirigido por Ângela de Castro somos surpreendidos com uma fileira de belíssimos palhaços a caminhar o passo errante deste tipo de personagem. A presença de Ângela surge como uma assinatura misteriosa junto a um texto em off, uma Hitchcock clown. Das apresentações coube à Intrépida Trupe a mais contagiante e a Ésio Magalhães do Barracão Teatro a mais carismática. Esses não dizem boa noite, mas sempre sorriem pro porteiro!
Já o grupo regido por Leris Colombaione seria daquele andar do prédio em que os vizinhos são marcadamente distintos em suas rotinas, juntos não dariam bom papo. Boas são as atrizes do Pé de Vento na absurda luta por espaço e os encantos mímicos do Etc e Tal. Os três integrantes do Namakaca sabem valorizar suas presenças, sustentam lindamente as habilidades. Por outro lado uma palhaça que entrava a fazer medidas e depois enfaixava seu corpo com fita adesiva fez do pior o pior ainda, sem sensibilidade e sem graça. A melhor coisa que aconteceu foi ser tirada de cena pelos cabelos. Enfim, o conjunto dessa sessão de Gala não foi bem arranjado.
Há finalmente os que moram na cobertura. Talvez não sejam ricos, podem ter ganhado uma herança, mas moram lá por merecimento. Maku Jarrak é violentamente viva! Desperta a todos para o espaço que estamos, somos todos elementos da cena e devemos estar acordados para que o comodismo não nos pegue. Assim ela é habilidosa com corpo, com objetos, com a comunicação e com o repertório diverso que talha em seu picadeiro. Não importa o que os vizinhos falam, o fato é que todos querem conhecê-la.
É claro que num prédio não se conhece todo mundo mas ouvimos comentários: “Você não viu a Carroça dos Mamulengos?”; “Ei, aquele cortejo de palhaços, ali.”
Pelo Passeio Público víamos também a beleza das árvores que ali residem faz tempo e não abrem a boca pra nada, apenas testemunham essa gente miúda que tudo faz pra se agigantar. Exibição de vídeos de outros universos artísticos como o instigante trabalho de Loco Brusca. E muita gente, muito trabalho, morando nesta edificação de anjos que zelam pelo melhor do humor.
A noite seguiu. Uns desligaram as luzes mais cedo... outros acordaram o sol.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Leia o texto produzido por Vanda Jacques, da Intrépida Trupe, e de Erminia Silva, nossa blogueira, pesquisadora a partir da entrevista de Erminia

Vanda Jacques fez oficina com Ângela de Castro e agora fala um pouco sobre a experiência:

Estou super feliz de estar no Anjos do Picadeiro. Só a convivência com esta diversidade já é puro alimento. Sempre quis fazer as oficinas e só agora consegui. Ter escolhido a oficina da Ângela de Castro foi bingo!!!
Quero retomar meu aprendizado e me aprofundar nessa arte. Meu trabalho com palhaço é muito intuitivo e tem a ver com as coisas que eu aprendi lá no início da Intrépida, fruto da minha convivência com Xuxu, Dudu e Piru Piru. Este movimento de retorno é uma busca da essência do palhaço que eu vivi.
Eu já conhecia Ângela de Castro antes da Intrépida, mas foi a primeira vez que a gente conviveu mais de perto e foi uma grata surpresa! Como mestra ela é muito dedicada, cria uma atmosfera de acolhimento e cumplicidade e nos prepara muito bem para cada exercício. Isso torna o aprendizado muito confortável. Você sente que tem uma pedagogia construída ali.
Na nossa prática cotidiana não temos uma consciência mais elaborada dos caminhos para atingir o estado do palhaço. Tudo é muito intuitivo. Por exemplo, não tinha idéia de como a qualidade de um olhar faz a diferença: um olhar com curiosidade e amor provoca instantaneamente uma relação de cumplicidade.
Na oficina, a gente aprende diversos exercícios que tratam de como aproximar o palhaço do público. Aprendemos principalmente a perceber a humanidade do palhaço. Ângela de Castro nos mostra que o fato de sermos educados para não errar gera em todos nós um conflito muito grande. Ela reforça sempre que errar é humano e como palhaços somos autorizados a errar!
Uma vez compreendido o sentido do erro, a gente se sente mais a vontade e com muito mais liberdade para errar. Conviver com o erro numa boa, com humor e alegria, é uma situação muito confortável. E qualquer um pode alcançá-la. É muito simples: basta assumir sua própria humanidade.
Para quem faz palhaço, ter consciência disso é muito importante, porque até alcançar o estado de palhaço vive-se esse conflito.
Ter participado dessa oficina e reencontrado a Ângela de Castro reforçou em mim o desejo de seguir investigando sobre o tema.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Impressões sobre 13 de dezembro

Como diria Paulo Freire: “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo de busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”. E essa busca pelo melhor da performance, me contagiou na noite de abertura, realizada sob a lona do maravilhoso circo Picolino, do qual sou músico, pesquisador e fã. Nesta noite me senti imerso num caldeirão de aprendizagem e de trocas.
A turma do Biribinha é fantástica, o melhor de todos os tempos! Genial! Um encontro onde a música era extraordinária! Os temas, o modo de fazer, o tudo e o todo, reinventados, reeditados e exclusivos! Extra! Coleções de alegria e performances contagiantes e verdadeiras no picadeiro! Um trânsito entre o que é, e como pode ser!
Modos de fazer e se expressar, de construção criativa em nosso imaginário de sensações, imagens e histórias. A construção e o desenvolvimento da virtude do ser imaginativo, criança, clown, músico, ator, guerreiro desbravador, consciente, experiente e com sensibilidade e frescor pulsante de vida, repleta de palhaçada. Palhaço-atitude. Com interconexões, personalidade e experiência! Um verdadeiro luxo, uma aula sofisticada, gentil e marcante, que deixou impressões fantásticas em nossos corpos e corações! E a vontade de fazer parte de toda essa viagem! Só nos resta agradecer!
Com instrumentos não convencionais, a turma do Biribinha contou uma verdadeira história de circo. Desenvolveu o que há de melhor em circo tradicional brasileiro, numa narrativa que se recriava e ressurgia de pontos diversos do nosso consciente e inconsciente coletivo, era o circo que invadia a nossa alma e nos transformava!!! Um espetáculo onde a música é uma das atrações principais. Um trabalho com trilha original e releituras geniais que se transformavam, a cada som e silêncio, e os nossos corpos transformavam-se em receptáculos de vibrações de alegria das performances sinceras dos palhaços.
Com um belíssimo piano de garrafas afinado em Ré, o palhaço instrumentista desenvolveu toda a sua técnica e musicalidade de modo surpreendente. Melodias como Brasileirinho, composta em 1947 por Waldir Azevedo (1923-1980), incendiaram a platéia que ia ao delírio com os solos expressivos.
Um serrote sendo feito de violino, sendo explorado em suas mais longínquas possibilidades de produção sonora! Sensibilidade! Uma bateria eletrônica, que me parecia ser uma Medeli, executada com baquetas, dava a pulsação rítmica imprescindível aos números de clown.
O acordeon, a gaita, a escaleta, o violão e as vozes, conduziam as melodias que traduziam as cenas e traziam à tona uma arte dinâmica e contextualizada. Arranjos funcionais invadiam nossos ouvidos. Nem pouco nem muito, a medida certa!
E vamos aos sinos... Seguindo a lógica do piano, onde os graves surgem da esquerda e as freqüências continuam para a extrema direita chegando às paisagens agudas, assim era o piano de garrafas, da garrafa mais cheia à mais vazia, bem como, a disposição dos sinos, partindo do maior ao menor, ou seja, do mais grave ao mais agudo.
Os sinos refletiam uma inteligente pesquisa de freqüências onde o palhaço, utilizando-se da 7º menor da escala, nota característica da música nordestina, executou Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) de forma bem expressiva e fez uma bela homenagem aos baianos tocando: We are the world of carnaval (Nizan Guanaes).
Um brinde à atuação magnifica de todos da Turma do Biribinha, grandes palhaços. Eu realmente pensei que o palhaço Lingüiça era um bêbado intruso no circo. Eu e muita gente!!! Que aula de representação!!!
A noite de abertura oficial do encontro foi extremamente contagiante! Muitos reencontros históricos, únicos! Uma noite de emoções incríveis, o relato do mestre Pinduca me emocionou muito, e a noite vibrou num espiral que alcançou os mais longínquos cantos do espaço sideral e do meio intra-terreno e de nossas sensibilidades e emoções.
Agradecimentos feitos e realizada a apresentação da equipe, o espetáculo começa com a apresentação da palhaça Hilary Chaplain, com o espetáculo: A life in her day. Numa narrativa onde aspectos de nossa vida foram traduzidos e representados de forma inusitada. Nossas imaginações, fugas, encontros e desencontros, amor, carinho e o dia a dia. Um belo personagem! Numa interpretação convidativa, Hilary conduziu o público a uma experiência interessante, e facilitando um grande contraponto ao espectador, quando assistiu a Turma do Biribinha.
A partir daqui, cabe voltar algumas horas antes, pela manhã, no teatro do Sesc, onde aconteceu a palestra de lançamento dos livros das três maiores pesquisadoras de circo no Brasil: Erminia Silva, Verônica Tamaoki e Alice Viveirtos de Castro.
O mais interessante para mim, em particular, foi ouvir das três, as quais eu pesquisei e citei muito em minha pesquisa sobre circo, música e educação, tudo que já tinha lido em seus trabalhos publicados. Atenção: daí a importância do registro, das publicações e da divulgação e distribuição destes trabalhos!
Lembro-me de que, em entrevista com a doutora Erminia Silva, em Salvador, quando eu estava em pleno furor da minha pesquisa, ela me falou do surgimento do mímico na França, quando o ator foi proibido de falar, o surgimento das pantomimas e tudo mais que se foi produzido. Ouvir a Alice Viveiros realçar esse assunto, sobressaltando as diferenças e características das personalidades dos palhaços, realmente foi muito interessante. E na noite de abertura do encontro, essas diferenças ficaram claras, onde o palhaço brasileiro é muito mais falastrão, brincalhão.
Dois mundos diferentes: Biribinha e a Hilary. A noite foi uma demonstração prática da importância das diferenças e das diversas qualidades artísticas no mundo do circo e da palhaçada!
O teatro onde foi realizada a palestra tinha a metade da sua capacidade de público, e o tema principal discutido foi sobre os livros escritos e os caminhos escolhidos por cada escritora para a realização e divulgação dos seus materiais.
Alice comentou sobre as dificuldades encontradas por ela em 1985, e sobre seus processos de aprendizagem no mundo circense. Já a Erminia falou sobre os preconceitos encontrados e a discriminação à gente de circo, e sobre a falta de registro da história do circo. Falou também sobre suas experiências acadêmicas e sobre o grande Benjamim de Oliveira. A Verônica Tamaoki, mãe da minha super amiga Luana Tamaoki, ressaltou a importância de estar em Salvador, e falou sobre a importância de alguns livros de Jorge Amado: Jubiabá e Tenda dos Milagres, no mundo do circo. Revelou o enorme tempo dispensado à produção do livro Circo Nerino e no meio da sua fala, convidou o grande Trepinha para um depoimento fantástico.
O discurso do mestre Trepinha foi muito emocionante e expressivo, uma verdadeira aula que me ensinou que ser palhaço é um elixir da longevidade! Um salve ao grande Trepinha e ao grande Pinduca, o homenageado do Anjos do Picadeiro 6!
Quando Trepinha terminou de falar e a emoção ainda estava no ar, antes mesmo que Verônica pudesse voltar a falar, ops... o teatro foi invadido por três palhaços... num primeiro momento pensei que seria uma homenagem ao Trepinha, mas quando alguém falou: “não! Aqui, agora não...” percebi que algo de errado aconteceu no reino encantado do mundo do circo e infelizmente percebi que os meninos e a menina foram inoportunos! O momento foi inadequado para a intervenção, nós estávamos extasiados com o Trepinha e com seu depoimento, e a manifestação espontânea dos três não ressoou muito bem no espaço físico e pintou um clima...mas nada que atrapalhasse o desenvolvimento da apresentação das donzelas, ou melhor, pistoleiras do saber circense! As acrobatas mentais!
Logo depois do mico pago pelos palhaços intrusos, Alice retornou com a fala e fortemente contextualizou, e exprimiu através de muito sentimento, o caminho longo do que é ser um verdadeiro palhaço de circo.
A única coisa que senti falta foi a abertura para as perguntas! Faltou a troca... Acredito que este tenha sido o lado que faltou e que acredito que seja imprescindível a qualquer palestra ou lançamento de livros. Essa é uma crítica construtiva, pois desejei perguntar e percebi muitas pessoas com o mesmo desejo! Então o que nos resta agora é o desejo de que venham novos lançamentos, ou novas possibilidades de discussões para o fortalecimento dos pesquisadores de circo no Brasil. Assim, proponho que façamos uma grande rede de trocas e de reflexões acerca da arte circense e de todos os seus desdobramentos. Uma rede que possibilite a construção dinâmica de uma identidade plural, transdiciplinar, nacional e universal, mas sem perder as suas raízes! A essência do circo, seja ele tradicional, contemporâneo, social ou qualquer outra coisa.
Bem, só me falta comentar sobre a palhaceata!!! Foi muito engraçada!!! Só achei que iríamos até o elevador Lacerda! Estávamos tão pertinho!!! Que pena que não fomos!!! Mas foi lindo demais ver tanto palhaço nas ruas de Salvador!!! O dia ficou mais bonito e tudo acabou com um magnífico pôr-do-sol na Bahia de todos os santos! Asé Babá!!! Que venham mais encontros como este!!!

Dia de sorte!

Juracy.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Dando nome aos bons

Enfim abriu-se o que já estava aberto e a noite do Anjos no Circo Picolino saudou palco e platéia numa detalhada apresentação daqueles que fazem, daqueles que bancam, daqueles que curtem a arte do circo e do teatro. Os nomes foram ditos; os meios de realizar, ressaltados. Ali muitos tomaram conhecimento de Pinduca, o Sr. Almir Rodolpho Almeida, que com a dignidade que o tempo não apaga, fez seu discurso autobiográfico em tom palhacesco. Parecia impossível detê-lo no seu momento de júbilo.
A platéia foi recebida com pipocas e seguiu-se a festa com a apresentação de Hilary Chaplain: A Life in her Day. Muito habilidosa, a performance da artista é somada a temas como a esperança platônica, os desajustes do corpo, a alegria barata. Surpreende por muitas estratégias que não se esgotam e pela maneira como são abordadas. Um rolo de papel é transformado em véu de noiva, tapete, gravidez e até o próprio bebê, numa manobra de construção bem alinhada ao enredo. E aquele imenso público vai acreditando e participando do universo extraordinário daquela personagem, numa intimidade tão crível que é de se admirar, ao final, que tenha sido apenas um dia a mais.
Momentos depois, o picadeiro foi invadido por criaturas que com ele têm respeitável intimidade. A Turma do Biribinha demonstrou que sabe engendrar humor com talentos diversos. Tendo uma comunicação constante com a platéia, seus números musicais são uma força para fazer vibrar os sentidos e os sentimentos. Há uma direção que coloca cada coisa em seu tempo e dose certos. Um pequeno melodrama surge para incluir o palhaço Lingüiça: em certo momento ele chegou a confundir um segurança do circo que achou que seria um penetra. Ótimo isso!
E Biribinha arrebatou a todos trazendo uma criança para o picadeiro, mas não para adaptá-la a um número e sim evidenciar a beleza do sorriso. Isso comoveu a todos.
Aí apagaram-se as luzes, as pessoas foram se encontrando e confraternizando, mas sabe que dava a impressão de que o show ainda continuava ali com palhaços imaginários que nunca deixam de se apresentar?


Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Impressões do dia 12 de dezembro de 2007

Esperamos o ônibus e fomos à periferia de Salvador. Realmente a Plataforma é um lugar especial! Mas que visual!!! A Bahia é linda!
Ver um centro de cultura de ali na praça foi muito instigante! Mas será que a população local freqüenta aquele centro? Bom... isso eu não posso dizer, realmente não sei! Não sei quais ações culturais são desenvolvidas por ali, mas tudo bem, estávamos ali! E só por ser ali, já me senti em pleno movimento da descentralização da cultura! Fomos à periferia: isso é muito bom!
Fomos assistir La Scarpeta. O público da peça, assim como o do Faixa de Gaza, foi difícil. Mas ao contrário do Faixa de Gaza, onde me parecia ter muitos estudantes e praticantes do mundo das artes, em Plataforma eu via os verdadeiros artistas da vida, digo, o povo de verdade, (Se é que existe um povo de verdade) no bom sentido claro! Mas sim, os que precisam fazer alguma arte pra viver, se é que vocês me entendem!!! Senti que para aquele público tudo era novo, principalmente estar num teatro!
Estranhei muito a comunicação numa voz em off que surgia no teatro, não sei quem falou, porém, suas recomendações foram um pouco incisivas, tipo: não pode ficar em pé de jeito nenhum! Esse menino é muito grande pra ficar no seu colo e tal... me senti acuado. Olhei para mim mesmo e tentava ver se eu estava de acordo com as normas do teatro para assistir a peça! Rsrsrsr. Havia muitas crianças, e muito inquietas, o que é muito normal. Tudo era novo, estar ali era novo! E ver um palhaço num teatro ao lado de casa, mais novo ainda! O que de fato é muito bom! Nós vamos invadir sua praia!
Confusões à parte, começa a peça...Posso dizer: o palhaço é bom!!! É engraçado, as gags são boas... mas o espetáculo foi difícil, o público não se deixou segurar! Às vezes o dia não tá bom! Acho que por ser em Plataforma: esse espetáculo deveria ser na rua! Sim! Na rua! À vontade, aí iria acontecer. Claro!!! Palhaço em Plataforma? Claro, tinha que ser na rua!
Dentro do teatro o palhaço foi muito prejudicado pela luz e pelo som! Não houve sincronicidade entre esses elementos tão importantes, e a partir daí tudo foi ficando muito longo... Mas o número dos pratos e o grand finale foram muito legais!
Sinto que ali em Plataforma devem ocorrer mais incentivos na área artística, ou melhor, aquela galera está ali doida para interagir. É uma questão vital. Uma necessidade! Era só ouvir as crianças, elas estavam dentro demais do espetáculo, elas vivenciaram e aproveitaram muito! Então, vamos botar esse povo pra ser artista! A arte é nossa! É de todos!!! Vamos girar a roda!
Saindo de Plataforma fomos direto ao Pelourinho!!! Teatro do Sesc! O sapato do meu tio! Que coisa!!! Ali tudo funcionou! Trilha original e luz perfeita! Nada como vivenciar um espetáculo com uma trilha original!!! O público muuuito mais tranqüilo! Na verdade era outro público, e ali o espetáculo aconteceu! Mexeu muito comigo e me emocionei bastante! Muito lindo, sincero e simples, e ao contrário do La Scarpeta, onde senti a ausência de uma narrativa (não que precise ter uma!), O sapato do meu tio esbanja na arte de contar uma história. E que história linda! Genial!!! Um verdadeiro conto! Um brinde ao teatro baiano e ao mundo dos palhaços!!! Tudo sem texto e claro como dia de sol! Num mesmo conto um mega drama e uma excelente comédia. O palhaço Biancorino, ou melhor Alexandre, esbanjou talento. É um espetáculo para fazer escola!
Do Sesc para uma pizza e da pizza para Dona Zefinha!!! Eita!!! Gostei!!! Banda de personalidade e é assim que tem que ser. Fusão de instrumentos e ritmos! A banda traz em sua bagagem raízes e influências clássicas nordestinas, mescladas com a contemporaneidade da velocidade de informações globalizadas, e soube transmitir tudo de forma tranqüila espontânea clara e honesta!!! Gostei bastante! E o público ajudou bastante também!!! Adorei quando retiraram as cadeiras! Era isso que estava faltando, só faltou tirar a lona, rsrsrsrsrs, mas isso fica pro último dia, hehehe!
O dia foi produtivo e todas as atrações foram boas! Acredito que o La Scarpeta foi uma questão de dia e de lugar, sabe: público, hora, lugar, etc... Coisa de momento! Mas o cara é bom e todo mundo riu! Então já é!!!! O dia tá pago!
Juracy

No oito e no oitenta

Penetrando como platéia, surge o encantador clown de olhos e sorrisos sinceros de Ricardo Puccetti. Ele desmonta as regras do próprio teatro e assim atravessa pela platéia e, no público, algumas pessoas têm seu minuto de ridículo exposto. Ele avança e é bem desenvolto neste momento de mostrar-se ao público, de situar o cenário como coadjuvante. Mas há, na diversidade de sua performance, momentos que são interrompidos antes de se dar a chave do entendimento da “piada” e isso é um ponto delicado de se tratar pois acontece algumas vezes no meio do espetáculo. Exemplo disso é o número com o boneco. E assim uma parte do encanto se quebra.
Também há uma fragilidade em alguns momentos da comunicação verbal. Ao dizer que as crianças não têm “capacidade mental” pra entender uma certa palavra, mesmo que não proposital, é um modo violento de expressão.
Então a peça que começou bem e deslizou no meio vai ter um final es-tu-pen-do. Euforia entre pratos quebrados, platéia delirante, música exaltativa. Uau! Parecia com aquelas brincadeiras gostosas onde a gente esquece tudo pra se divertir de corpo e alma.
Dizer que agradou dos oito aos oitenta seria uma extremada gentileza, pois coube ao começo e ao final o melhor de La Scarpeta.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Rodas do imaginário e rodas da vida

Os patins e a carroça. Um conduzindo pra a fantasia, o outro pra vida. Esses elementos ligam um mestre em artes circenses e seu servidor-aprendiz. O aprendiz não vê completamente o desempenho do mestre pois se ocupa de comer bananas, arrumar a carroça, preguiçar...Ao voltar de seu show, o mestre é recebido com abobalhado entusiasmo, nunca correspondido. Assim segue-se a sucessão de dias: apresentação, brigas, alimentação, treino.
Muito disso é meticulosamente refeito em várias cenas, o que dá ao Sapato do Meu Tio uma lentidão meio mórbida, extravasando a idéia de rotina – o que parece ser o propósito – a ponto de penetrar em terreno pesaroso. Era visível que a platéia ansiava por um fim e em várias cenas houve sinais para isso, podendo ser notado nos comentários em voz baixa.
A carência de afeto do aprendiz é muito dilatada e ele se torna mais que um bobo. Sua dor fere e nisso talvez haja um certo exagero, pelo menos no tempo que é dado ao público partilhá-la.
A carroça percorre novos caminhos, que são simbolicamente os mesmos, mas os patins trazem as surpresas: O aprendiz vira parceiro de cena e um sucessor evidente.
Nessa dupla os opostos, o caráter acentuadamente melodramático e os atores são emblemáticos ao personificar essa face tosca da vida artística com poesia, sem prosa.



Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

Entrevista com Teófanes Silveira – Palhaço Biribinha

Nelson Silveira, primeiro palhaço Biriba, pai de Teófanes, não era de circo. No final do curso médio, em Salvador, o diretor do curso de artes cênicas da escola que ele freqüentava deu a ele a função de declamar a poesia Virtude ou Castigo. O modo como a recitou, a entonação, as expressões faciais impressionaram tanto que ele foi convidado a freqüentar, então, o curso de teatro. Tornou-se, assim, um ator teatral. Paralelamente, ingressou na Faculdade de Direito. Só que quando cursava o terceiro ano foi contratado pelo circo Pavilhão Teatro Guarani para ser diretor teatral. Após algum tempo, além de exercer o papel de diretor, foi ator e aprendeu acrobacias – trabalhando, então, tanto na primeira, quanto na segunda parte do espetáculo. Para Teófanes, foi a partir daquela poesia que principiou toda a história circense da família Silveira. Seu pai foi de circo e circo-teatro e faleceu com 65 anos de idade, em 1977.

Nelson se casou três vezes, sendo que sua terceira esposa, Expedita, foi a mãe de Teófanes. Ela também não era de circo, uma semi-analfabeta. Como o teatro no circo era uma escola, ele ensinava a ler de forma correta e também a falar certo, pois o texto que chegava nas mãos dos artistas era todo gramaticalmente corrigido, sua mãe, após um prazo não muito longo, tendo o marido como mestre e diretor, aprimorou sua aprendizagem a partir das peças teatrais e foi se constituindo em uma das melhores atrizes do grupo, tanto nos dramas como nas comédias. Seu nome artístico ficou Dita Silveira.

Apesar de ser uma excelente atriz cômica, não exerceu o papel de palhaça, pois, segundo ele, antigamente havia um “cuidado” com isso. Dizia-se que mulher não nasceu para ser palhaça. E muitos palhaços dizem isso até hoje. “Eu acho massa, eu acho lindo, eu acho belíssimo e maravilhoso. Temos que dar palmas a elas. E louvo a descoberta que elas fizeram em mostrar que a diferença entre os seres humanos homens e mulheres é só o sexo, e que os sentimentos são iguais. Então, elas colocaram para fora esse dom e talento que foi dado por Deus, demonstrando também a sua capacidade em fazer rir. De serem engraçadas e de serem palhaças”.

Nelson e Dita tiveram 06 filhos e todos se tornaram artistas de circo e de circo-teatro. Seu pai exercia os papéis de diretor, ator e acrobata, mas foram as grandes atuações nos papéis cômicos que o fizeram ator cômico de palco e abriram caminho para que pisasse também o picadeiro, como palhaço, com o nome de Biriba. Foi no palco do circo-teatro que houve a necessidade de pegar aquele ator cômico e descobrir o palhaço, jogando-o no picadeiro – ele teve, então, 35 anos para consolidá-lo e desenvolver a linhagem dos palhaços que está hoje na quarta geração.

Tornou-se o palhaço somente de entradas e o principal da companhia. Isso, para a região do nordeste, representava e representa até hoje uma importante responsabilidade, pois o público escolhe o circo de acordo com seu palhaço. Houve um tempo também em que ele e a esposa fizeram uma dupla caipira, no Circo Teatro Liendro, de nome Zé e Dita.
Teófanes, filho mais velho dos seis, iniciou sua aprendizagem e estréia no circo-teatro aos sete anos de idade, representando o papel principal na peça Marcelino pão e vinho, tendo seu pai como mestre. Estava em cartaz no cinema em Angra dos Reis, “meu pai adaptou e quando estreou no circo o cinema fechou e os circos não paravam mais de trabalhar. E circo-teatro, naquela época, não tinha recurso técnico nenhum, mas nós tínhamos a criatividade de provocar no expectador a reação do inesperado”.

Nelson ensinava acrobacias também, mas principalmente a representação do teatro. Em vários momentos de sua atuação em uma peça de Gilda de Abreu, Teófanes falava algumas palavras erradas, o que acabou provocando risadas das platéias. O pai o chamou e perguntou quem havia autorizado a fazer daquele jeito. Ele disse que ninguém. Nelson falou: “Aguarde então até amanhã”. No dia seguinte, colocou o filho para representar a mesma peça, mas antes pintou o rosto do filho de palhaço. O eletricista da companhia sugeriu que se o pai era o Palhaço Biriba, então que colocasse o nome do filho de Biribinha.

Quando Nelson faleceu, Teófanes herdou o nome de palhaço do pai, tornando-se Biribinha até hoje. Em 2008 irá fazer 50 anos de palhaço. Faz uma declaração de amor ao palhaço, que lhe ensinou a ser feliz e as pessoas a serem também felizes.

Muitos foram seus mestres, importantes para os diversos processos de consolidação de seu palhaço. Para além de seu pai e sua mãe que faziam com ele duplas cômicas nas peças, quando tinha 8 anos, um ano depois de estrear, disse “ter tido o privilégio de conhecer Georges Savalas Gomes, o palhaço Carequinha”, que se tornou uma das referências mais importantes de profissional, principalmente para montagens de espetáculos voltados exclusivamente para crianças. Até que ele não tivesse definido sua própria maquiagem, baseou a sua na de Carequinha – boca larga, com a diferença apenas de que a sua era para baixo e a dele para cima. Sente que até hoje conversa com ele. Outro importante também foi Chaplin que revelou dentro dele a possibilidade, ou mesmo a potência de dialogar, o palhaço que falava com aquele que não falava. Começou a descobrir que a sua composição cênica precisava mudar de um formato colorido para um pobre, para que “pudesse revelar a riqueza através do ato, através da ação”. Foi aí que para ele começou a surgir o impacto da composição cênica com a interpretação.

A família viveu no circo por alguns anos após o falecimento do pai. Quando o circo fechou, Biribinha ficou na cidade fazendo palhaço em festas de aniversário e em outros eventos. Tudo isso com muita dificuldade e sem prazer. Sonhou que tirava a lona e ficava apenas o público e o picadeiro. A partir desse sonho iniciou um outro momento de sua produção enquanto palhaço que é: o de trabalhar na rua. A imagem que lhe ficou: “na rua apenas não há cobertura”. Reaprendeu algumas formas de se relacionar com o público, que na rua fica diretamente no olho a olho. Reaprendeu a se posicionar cenicamente. A rua é mais um estágio de escola em sua vida.
Hoje considera que, depois de dois anos, o espetáculo Reencontro de palhaços está redondo. E faz dois anos também que deixou a lona para a rua e para o circuito de festivais de teatro.

Ao ser perguntado sobre sua iniciação em festivais e eventos como o Anjos do Picadeiro, fala que de início teve muita resistência em participar, especialmente nos festivais que tinham mostras competitivas. Gostaria de mostrar seu trabalho, “não que tivesse medo, mas não queria competir, só participar.” Teve a proposta de um amigo – Eugenio Talma, da Bahia, para se inscrever no Festival de Londrina. Aceitou se inscrever, como teatro de rua, e para sua surpresa foi aceito. As relações, aprendizagens e transformações que se iniciaram a partir de suas participações nesses eventos são constituídas de uma riqueza da diversidade. “Eu nunca pensei na minha vida, que depois de 48 anos de profissão, eu ainda precisava aprender tanta coisa de palhaço, de ator, de comunicador do circo, como o teatro de rua vem me ensinando. E eu sei que ainda tem muita coisa pela frente”.

Participou dos Anjos dos Picadeiros, pela primeira vez, no ano de 2006. “Ser selecionado para o Anjos, vou te falar, porque Anjo já tá dizendo 'é divino, é maravilhoso'. Saber que o picadeiro é uma representação celestial, onde os anjos estão ali com a sua oração engraçada e lúdica, o ser Anônimo, que não tem nada de anônimo, tem tudo de verdadeiro... o que importa é eu estar com vocês, fazer parte deste coro nesta grande arena onde estão outros colegas também. E o Anjos começa a mostrar para gente como o palhaço deve ser, porque começa a mostrar uma diversidade. De um segmento, mas com formas de ser e fazer completamente diferentes.”

Em meio a sua entrevista, Biriba reforça que tudo isso está sendo ensinado para seus filhos e netos.

Erminia Silva

De que é feito o Anjos do Picadeiro?

Chacovachi responde:


É o encontro de palhaços mais comprometido com seus artistas e raízes que jamais conheci. Tem esta ordem de prioridades:
Raízes, ideologia e filosofia
Artistas
Público
Produtores
Quando geralmente a ordem é:
Produtores........................................... o interesse econômico como motivação
Público................................................. é quem manda
Artistas................................................. a serviço do público
Raizes, ideologia e filosofia…………. geralmente não tem.

Faixa de Gaza, 12 de dezembro de 2007, Passeio Público-Salvador Bahia.

Vocês disseram que eu podia me sentir à vontade para falar do que quisesse... Então posso??? Lá vai...
Vou começar pela lona. Entendo que a lona é interessante por determinar um espaço físico, ou limitar... mas, vejam bem, se tratando do Passeio Público de Salvador, chega a ser um crime ter a lona. Entendo até que possa chover, mas estamos no nordeste e na Bahia... verão.,. e acho que não vai chover. Como abrigo de chuva realmente é uma opção funcional, mas concordemos, a beleza natural do local, a energia do espaço em si já é muito interessante e convidativa. Sem a lona, acredito que seria mais interessante, contagiante, mais natural.
Aposto numa Faixa de Gaza sem lona e sem arquibancadas! Só os artistas, público, palco, luz, céu, lua e o mar da Bahia de todos os santos, isso com certeza!
Até porque a verdadeira Faixa de Gaza é um território que não é reconhecido internacionalmente como pertencente a um país soberano, assim a nossa Faixa de Gaza deveria também ser livre de delimitações, sem espaço físico determinado. Isso é só uma sugestão.
Falando do todo do espetáculo, assim como a verdadeira Faixa de Gaza, que têm vivido momentos que beiram a anarquia nos últimos dias, a nossa Faixa de Gaza foi um pouco difícil. Até os números apresentados (com raríssimas exceções, como o palhaço Biancorino, o da Jezebel que teve seu momento, o da caixa de fósforos fiat lux, que souberam conquistar), foram difíceis.
E essa é a palavra: conquista! Assim foi o clímax da noite, uma intensa disputa entre o que o público queria ver, ou até onde queria ver. Uma longa conquista... uma luta metafórica entre a vida e a morte! Tirando uns poucos artistas, os outros foram fracos e com pouca expressividade, isso devido a duas coisas: de um lado o público que se tornou um feroz e severo juiz, aos quais os artistas acabaram por se render. Terrível armadilha! E do outro lado, o amadorismo de alguns participantes. Se couber aqui dizer isso, mas não se estende ao coletivo, e quero comentar que ser amador é um processo natural, um caminho até ser profissional, não há nada de errado nisso.
Sabendo disso, a Faixa de Gaza se mostrou para mim, como uma possibilidade de expressão para o artista, e essa possibilidade faz parte de um crescimento e amadurecimento numa prática artística que contextualize as ações apresentadas e representadas e que tenham uma relação dialógica na construção do conhecimento em arte. O fazer do artista em cena, essa é a grande questão. Então não é o que você faz, mas como você faz!
E a Faixa de Gaza teve em sua proposta o escancarar do modo de fazer, isso é muito positivo e enriquecedor. Isso gera um natural processo investigativo que norteia os processos das trocas entre as pessoas! Isso facilita a construção de um alicerce forte pelo artista em sua ascensão no mundo da arte.
Também na Faixa de Gaza aconteceram pequenos freak´s show, bem show de programas de auditório, um perdidos na noite, ou seja lá o que for. Mas o grande lance foi se apresentar, estar exposto, ser visto e pagar seu mico.
E por falar em mico, na verdade a grande atração do show da Faixa de Gaza foi a macaca! O grande lance foi a macaca!!! Sem a macaca nada teria sentido. Dou um salve à macaca e isso contextualiza e reinventa toda a história.
Voltando à anarquia, o público que estava presente foi um público muito difícil. Inquietos e ansiosos desejavam loucamente a macaca. Ocorreram muitas interferências por parte do público e isso atrapalhou alguns artistas, ou os salvou em alguns momentos. As gangs foram re-criadas.
Para falar de intervenções eu sou suspeito, pois gosto de ver o artista dar um jeito, improvisar para não dançar.... Muitos dançaram, e lá vem a macaca...Monga...ou Monka? Mas o público permaneceu até o final! E isso foi muito bom! E quer saber? Tudo foi muito engraçado! Todo mundo riu, riu porque gostou, porque não acreditou no que via, riu! A Faixa de Gaza me lembrou também o muito massa real, “Meia noite se improvisa” que acontecia ali ao ladinho, no teatro Vila Velha! O “Meia noite se improvisa” tinha muito disso. Só o apresentador que era a transformista e artista Bagagerie Spielberg! Famosa aqui em Salvador! Mas o apresentador do Faixa de Gaza também segurou uma boa onda, bateu uma boa bola, e foi peça importante em todo o esquema anárquico. Muito bom!
Lembrem-se, isso tudo que escrevo é uma mera visão de quem assistiu tudo de fora, não briguem comigo, hein!!!! Aqui não faço crítica e sim uma simples visão de um mero espectador. Mas como me deixaram livre para também criticar, tenho uma: o grande problema foi com o som!!! Logo com o som!!! Muitas coisas não funcionaram e muitos números foram desarmados pela falta ou desarticulação entre número e música! Empobreceu... cadê o som, dj?
Salvo por algumas releituras engraçadas, a falta de trilha original me deixa muito inquieto! Os artistas e produtores, devem investir em trilhas originais!!! Um dos aspectos que mais me fascina na música é seu poder de integração de elementos e de características estéticas, condução das ações apresentadas e representadas. Tudo fica mais fácil com uma boa trilha! Essa conexão faltou!!! Mas não nos preocupemos, não, é só aqui que falta.
Tô me sentindo meio mal agora... Tô achando que tô descendo o pau na Faixa de Gaza. Acreditem, não é isso! Rsrsrsrsrs. É só uma provocação, em todos os bons sentidos! Que venham as réplicas! Se o grande lance é cutucar... Cutuco. Mas como diriam os baianos: de boa hein!!! Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs. Afinal de contas, o grande lance de tudo é podermos rir e nos divertir!

Asé!!!
Juracy

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

CRÍTICA

Dia 11 de dezembro de 2007

1ª Parte - Pipistrello- um contador de histórias

Metade da platéia do teatro do Centro Cultural Plataforma eram crianças com seus uniformes e a outra metade participantes dos Anjos.
Como sempre acontece quando se junta muita criança, estavam agitadas e felizes. Dentro do teatro os adultos tiveram dificuldades de segurá-las sentadas. E mesmo quando todos estavam sentadas, era um falatório alto. Havia algumas professoras e funcionários do teatro no trabalho de controlar as crianças.
Entrou então, o Pipistrello. Alguns se agitaram mais. Os professores cada vez mais preocupados.
No início uns meninos atrás de mim, em suas características de meninos-homens, disseram: “Ah! É um cara atrás”. Com o passar da apresentação, a maioria foi ficando totalmente compenetrada na história que Pipistrello ia contando com seu corpo e suas emoções.
Meninas e meninos suspiraram nas cenas das tentativas de conquista da moça da platéia pelo boneco. Em alguns momentos rápidos havia silêncio, pois estavam presos pela representação, mas logo em seguida um romper de risadas gostosas, próprias das crianças.
Os meninos-homens deixaram de se entreter com o artista atrás do boneco, e deixaram a risada tomar conta deles.
Abel, acho que essa breve e pequena descrição do que senti hoje à tarde, sentada no meio daquela garotada, é um elogio que todo contador de histórias gostaria de receber: a atenção do público totalmente compenetrado no enredo.Quando temos a mistura de contador e palhaço, transformamo-nos também nos personagens dessa história.


2ª Parte – Tomara que não chova – Teatro de Anônimo

Na praça do bairro da Plataforma uma estrutura de circo estava armada. No fundo da praça, cortinas de onde sairiam os artistas, e na frente um risco em formato de círculo no chão definindo o que seria o picadeiro.
No entorno da praça, casas comerciais formais, mas algumas informais também, iam ocupando espaço. Entrei em uma sorveteria e a atendente disse:
- Hoje vamos conseguir vender, em plena terça-feira?
Duas barracas de acarajé disputavam preços e filas. As lanchonetes vendendo refrigerantes e docinhos. A economia da cultura em total produção.
Enquanto o pessoal do circo sem cobertura, o Tomara que não chova, artistas e auxiliares, preparavam o local, sentei em um banco da praça e fiquei observando a população se formando ao redor do risco no chão.
Eram mulheres-meninas, mulheres-mães e avós. Eram homens-meninos e...não tão meninos. Algumas crianças eram escolares que já haviam visto Pipistrello se apresentar. Mas, agora, a maioria era formada de crianças que iam aparecendo de todos os lugares. Meninos-homens que largaram de suas bolas para assistir ao espetáculo. Meninas-mulheres que deixaram suas casas.
Mulheres e homens iam saindo de suas casas e se achegando na praça. Algumas não saíram das casas, mas colocaram suas cadeiras na calçada, e quando a apresentação começou, levaram as cadeiras para a praça e assistiram.
As filas do acarajé e da pipoca aumentaram.
Antes do início, perguntei para uns meninos perto de mim se eles sabiam quem ia se apresentar.
- É circo e é palhaço, não? – respondeu um.
- E de onde? – perguntei.
- Ah! É da Picolino.
- Então vocês já conhecem os artistas da Picolino?
- Sim, e a gente gosta muito deles.
- Não – respondi – é um pessoal do Rio de Janeiro.
- Do Rio, é?
Rapidamente me deixaram e foram sentar lá na frente, quase em cima do risco do chão.
Começou o espetáculo. Estava sentada perto de um menino de perna engessada, ao lado de seu pai. Perguntei se não foi difícil ir com aquele gesso, e ele me disse:
- Não vou perder por nada esses palhaços do circo. Eu não vi eles ainda não.
Como o menino, eu também, por incrível que pareça, estaria vendo o Roda Saia Gira Vida, do Teatro de Anônimo, pela primeira vez.
Entraram os artistas palhaços/acrobatas, e o menino ao meu lado falou:
- Ih! Os caras não são só palhaços, fazem acrobacias também!
Dei risada. Mas é isso. São artistas no sentido gostoso e competente - Angélica, João, Regina e Shirley fizeram um trabalho de qualidade para um público ávido de coisas boas.
Artistas como eles e eventos como o Anjos do Picadeiro estão transformando as ruas e as praças de espaços apenas de passagem e lugares de violência, em lugares de cultura, prazeres e desejos.
O menino ficou comigo até o final. Batemos muitas palmas e rimos muito.
- Osh! Esses caras são porretas!
- Olha a boca, menino – falou o pai.
- Eu também achei que eles foram porretas – disse ao menino.
E nos olhamos com cumplicidade por sairmos cheios de prazer.

Erminia Silva

De que é feito o Anjos do Picadeiro?

Erminia Silva responde:


De pessoas que - independente de onde nasceram, com quem aprenderam, de como fizeram e fazem suas artes - construíram uma relação de paixão e cumplicidade com este personagem que chamamos de palhaço.De pessoas com relações e emoções as mais diversas, que constroem, há dez anos, uma agenda cultural artística no Brasil, que mexeu e mexe com a vida de seus participantes e dos habitantes das cidades.

Entrevista com Chacovachi

Há quanto tempo você faz essa oficina que será realizada no Anjos do Picadeiro?O que é e onde está a base do trabalho que será realizado na oficina?

Há três anos que estou dirigindo essa oficina. A base é a minha própria experiência nas técnicas, a filosofia, a transmissão oral, os exercícios de improvisação e, principalmente, o método do xadrez (desenvolvido no meu site: www.chacovachi.com/taller).

Como você conseguiu organizar os conhecimentos para montar sua oficina? Qual o seu processo de criação e repasse desses conhecimentos?

Como tudo na vida, fazendo. A estrutura a princípio era básica: exercícios de aquecimento, teoria, técnica, jogo e improvisação, tudo nessa ordem. Depois começou a mudar, dependendo do que eu achava na hora. Agora é igual às minhas apresentações: tudo fica em movimento e pronto para improvisar sobre um programa claro: teoria e transmissão oral, estrutura e dramaturgia do espetáculo, partitura física, treinamento de improvisação.E, quanto ao processo para transmitir esse conhecimento aos outros, é o natural: primeiro se faz, depois se descobre o que é que se está fazendo, então isso é analisado e finalmente ensinado. Meu processo levou muito tempo, uns vinte anos. Há pouco tempo que eu comecei a compreender o que eu fazia. Eu não sou professor, sou mestre. O professor pedagógico teve de inventar.

Como você diria que foi e está sendo o seu processo de formação-criação do trabalho? Como você vê o ensino do palhaço e do humor de uma forma geral, hoje?

Meu processo divide-se em duas partes: a primeira muito primitiva, na qual eu aprendi a profissão sem informação. A segunda (abrange os últimos 10 anos) na qual fui influenciado pelos maravilhosos palhaços desse mundo, me conhecendo e me reconhecendo nos seus trabalhos.Eu nunca participei de oficinas, eu estudei teatro cômico, mímica e técnicas de circo. O ensino do humor é muito particular e, principalmente nessas oficinas curtas, o mundo está cheio de iniciados ensinando ao Lecoq e de grandes mestres ensinando seus segredos.

No seu ponto de vista, quais elementos que um aprendiz de palhaço precisa dominar para começar a trabalhar por conta própria e desenvolver o seu trabalho? Existe alguma técnica que seja mais necessária do que outras?

É preciso trabalhar a partir de cada um dos quatro órgãos principais dos artistas:

O coração Sentimento

A cabeça Inteligência

O estômago Dinheiro

Os ovos Porque tem que ter culhões

Os elementos não são muito importantes, as técnicas devem ser aprendidas e depois esquecidas. A técnica mais necessária é saber sobreviver ao fracasso.

Qual grupo de pessoas você espera encontrar nas oficinas? Para você como é feita a relação entre o mestre e o aprendiz? Você como mestre se vê ou se diz aprendiz em alguma coisa na vida?

Eu espero encontrar pessoas comprometidas. A relação mestre-aprendiz é formada a partir do respeito e o amor pela profissão. Eu me considero mestre da profissão e aprendiz de professor.

É possível ensinar alguém a ser palhaço?

É possível guiar, passar experiências e ensinar certas técnicas. Eu ensino as técnicas do palhaço de rua, metade artista, metade safo, as quais reconheço em mim e em muitos outros artistas. Atualmente ser palhaço é como dirigir um avião: tem que somar as horas de vôos.Um palhaço é um ser livre, exagerado nos seus sentimentos e com o simples fim de fazer rir. Agora bem, ter sucesso ou não é outra coisa.O mais importante é desenvolver o poder de comunicação, o poder de projetar o que está dentro sem ser visível (portanto imune) ao olhar superficial.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

CRÍTICA

11 de dezembro de 2007


Pipistrello - Seres de Luz (SP); Tomara Que Não Chova - Teatro de Anônimo (RJ)

Como se move o sentimento
O primeiro espetáculo da 6ªedição dos Anjos do Picadeiro foi assistido em Salvador por uma especial platéia de alunos de escola pública, além de artistas e equipes de trabalho, no Centro Cultural Plataforma. Parte desta platéia deslocou-se para a periferia da cidade e confirmou junto à comunidade a força que elementos clownescos têm em sua comunicabilidade. Esse deslocamento físico foi apenas um dos movimentos a que nos submetemos. E, quero acrescentar, o quanto é bem vinda a digníssima idéia de incluir novos “centros” desta cidade no circuito de eventos culturais deste porte .
Após o pequeno tour, a estranheza da figura homem-boneco de Pipistrello nos exige um recolocar dos sentidos. Ora mergulhamos no boneco, ora mergulhamos no artista, no técnico, no homem. Ganha o boneco! Isso se evidencia pela habilidade detalhada com que ritmos corporais, jogos de repetição e estruturas de números tradicionais são perfilados para revelar a personagem e seu jeito de ser. Há momentos em que os sentidos da platéia são ordenados como se ele quisesse que as emoções fossem por aqui ou por ali.
Risos vibrantes; sons de espanto; uma partner “surpresa” (naqueles truques de parecer alguém da platéia) e detalhes como um brilho de purpurina deixado cair em cena no meio do espetáculo e que fica a brilhar no centro até seu final, são algumas das imagens desses Seres de Luz que inauguraram este Encontro.

Anônimos em dia célebre

Seguiu-se para a praça, domínio do povo. Apesar da estrutura física clamar por números acrobáticos o público foi surpreendido com algo mais que isso. O Teatro de Anônimo mostra os personagens do circo em seu lado tosco, permeado de erros. A arte que os caracteriza é, surpreendentemente, o real conhecimento destas técnicas. Eles fazem como não o soubessem fazer. Mostram que são belos em figuras feias. Pedem o partido da platéia, dialogam com esta e são, nesta aproximação corporal e verbal, figuras que geram uma identidade onde o espetacular pode se tornar familiar, mesmo sendo um membro torto da família, daqueles que temos vergonha, ou até mesmo daqueles que em nós esmagamos. Neste contexto até um cachorro apareceu e contribuiu com o célebre número de tentar morder o próprio rabo. Em alguns momentos o bichinho tentou até entrar nos bastidores, queria mesmo se engajar!
Como um exemplar de “maior espetáculo da terra” esse circo teatralizado trouxe elementos de magia; equilíbrio; luta de boxe, e - similar às grandes formações circenses - incluiu uma atração da expressão local: o passista de samba e seu número com chapéu coco. Singular no elenco destas figuras, ali se revelou, neste tipo de brasileiro, que estar no centro do picadeiro é mérito de todo aquele capaz de sustentar a força e graça de sua arte. E se eles são anônimos, na memória e no sentimento de quem assistiu ao espetáculo não mais o serão.




Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Entrevista com Ângela de Castro

Há quanto tempo você faz essa oficina que será realizada no Anjos do Picadeiro? O que é e onde está a base do trabalho que será realizado na oficina?

Há 19 anos. Minha oficina, A Arte da Bobagem, era de apenas 2 dias. Depois, a procura por oficinas de palhaço aumentou muito, minha oficina se tornou muito popular e meus cursos se tornaram mais freqüentes. Como a minha própria pesquisa no assunto foi se desenvolvendo e como fui progredindo no meu trabalho como palhaça, o curso foi também se desenvolvendo e passou de 2 para 5 dias. A base do trabalho está na minha própria observação e pesquisa sobre o assunto. Estudei com muitos dos melhores professores de palhaço da Europa, trabalhei com muitos palhaços de diferentes países e com diferentes estilos e a partir daí fui criando a minha própria metodologia e pedagogia. Quando a gente ensina, a gente aprende também. Muito.

Como você conseguiu organizar os conhecimentos para montar uma oficina? Qual é o seu processo de criação e repasse?

Eu nunca pensei em ensinar. Eu sempre fui muito estudiosa e sempre pesquisei muito (e ainda pesquiso). Sou completamente obcecada e dedicada ao trabalho do palhaço, do teatro. Quando comecei a organizar o meu curso, fiquei me lembrando de todos os professores que tive e se eu concordava ou não com seu modo de ensinar. Também, como sempre fiz muitas anotações durante meu treinamento, voltei a reler meus cadernos e li (como ainda leio muito) tudo que consegui encontrar sobre o assunto. Pensei muito sobre o que é o ponto mais importante do trabalho do palhaço e a dificuldade que encontrei para entender, praticar e começar a trabalhar com o palhaço da maneira que acreditava e acredito. Assim, desenvolvi uma linha condutora que leva os meus estudantes por um processo de trabalho e de descoberta de fácil e simples entendimento.
Primeiro, tive que entender bem o que o trabalho do palhaço significa para mim, o processo que passei e o tipo de palhaça que sou. A partir daí foi só ter a generosidade de passar o conhecimento com amor e com muita atenção a cada um dos estudantes. Cada pessoa é diferente e, portanto, tem uma maneira diferente de entender as coisas.
Com o passar do tempo, fui aperfeiçoando e criando novos exercícios. Com meu próprio crescimento, amadurecimento, experiência e entendimento, a oficina foi se transformando também. E pensei muito na pedagogia. Em como passar o que sei. Pensei em tudo o que me ajudou a entender o processo: filosofia, exercícios teatrais, jogos infantis, meditação.

Como você diria que foi e está sendo o seu processo de formação/criação do trabalho? Você passou por muitas oficinas ou ainda passa? Como você vê o ensino do palhaço e do humor de uma forma geral, hoje?

Como disse acima, estudei com muitos dos melhores professores de palhaço da atualidade. Em 2002 eu recebi um prêmio do governo inglês por um projeto chamado “O Palhaço no Mundo Moderno”. Este prêmio me proporcionou a oportunidade de voltar a estudar. Então, fiz mais cursos com professores que não conhecia, voltei a estudar com antigos professores e até organizei cursos particulares onde convidei outros artistas para estudarem comigo. Também fiz uma série de entrevistas, na Inglaterra, Canadá, USA e Bélgica com palhaços de todos os tipos e também com diretores e atores em geral, para saber o que eles acham do trabalho do palhaço de teatro. Eu adoro estudar. Adoro fazer cursos e estar sempre com outros artistas e/ou palhaços discutindo e conversando sobre nossos trabalhos. Tudo está sempre em movimento. Manter-se atualizado é fundamental para fazer com que o trabalho se desenvolva e para que possamos retratar a condição humana de maneira honesta.
Acredito haver uma grande falta de escolas que ensinem unicamente o palhaço. Normalmente os cursos oficiais têm o ensino do palhaço como parte de uma formação ou de teatro físico ou de circo. Eu fundei uma pequena organização chamada The Why Not Institute, que é unicamente dedicada ao estudo, pesquisa e ensino da arte do palhaço.
Parece-me que o ensino do palhaço está reduzido a outros palhaços passarem o que sabem. Isso na verdade é o que vem acontecendo há muitos anos. Grupos ou indivíduos tomam a iniciativa de dar continuidade ao trabalho e, generosamente, passar o que sabem. Quanto ao humor, acredito ser um pouco diferente, pois, pelo menos aqui na Europa, existem escolas para comediantes. O humor é uma coisa muito pessoal de cada país e de cada artista. Tem gente que tem humor por natureza, já nasceu assim. Tem gente que tem humor no que diz ou no que escreve. E tem gente que não tem humor nenhum, já nasceu mau humorado.

No seu ponto de vista, quais elementos que um aprendiz de palhaço precisa dominar para começar a trabalhar por conta própria e desenvolver o seu trabalho? Existe alguma técnica que seja mais necessária do que outras?

Acredito que o mais importante é entender que, primeiramente, o trabalho do palhaço não é uma técnica, mas um ‘estado’. Um estado de liberdade, de imaginação, de criatividade, de inspiração, um estado de graça. Um estado que nos transporta a uma outra zona e nos libera da censura, do julgamento, e dessa forma podemos ter acesso ao novo, ao revolucionário, ao subversivo, encontrando, então, a verdade. A verdade nunca ofende. Assim que se consegue atingir este estado, você pode ser e trabalhar do jeito que quiser.
A Arte do Palhaço requer muita coragem e muita disciplina. Não é fácil. Precisamos nos tornar ignorantes e bobos para que a platéia se sinta mais inteligente do que nós e se delicie com nossos erros e fracassos. Fracassar é muito difícil. Fomos educados para sermos inteligentes. Para sermos vencedores. Pela nossa vida inteira ouvimos coisas como: “Não seja bobo”, “Seja um campeão”, “Seja inteligente”. E, com isso, muitas vezes nos tornamos extremamente competitivos e não temos nenhum espaço para errar. Acredito que seja por isso que todos gostam do palhaço. O palhaço representa os erros, enganos e fracassos de todos.
Como disse, para mim, a coisa mais importante é descobrir esse estado do palhaço. As técnicas são disciplinas de apoio. Como por exemplo: técnicas circenses, texto, dança, canto, tocar instrumentos, usar a voz, mágica, acrobacia, slapstick...Essas técnicas não são exclusivamente de palhaço, elas podem ser utilizadas em muitas outras formas de arte.
Para mim, o ponto de partida para criar um novo espetáculo, ou um novo número, ou mesmo um outro palhaço, é estar aberto para o que me inspira no momento. Não ter ansiedade. Me ouvir e respeitar o processo de criação. Muitas vezes as pessoas ficam super ansiosas em criar números e apresentá-los e daí fazem tudo às pressas.

Qual grupo de pessoas que você espera encontrar nas oficinas? Para você como é feita a relação entre mestre e aprendiz? Você como mestre se vê ou se diz aprendiz em alguma coisa na vida?

Aprendiz serei por toda a minha vida. O quanto mais eu aprender sobre pessoas, sobre mundo, sobre sentimentos, mais honestamente poderei representar a natureza humana. Assim que perder a curiosidade e parar de fazer perguntas, acho que posso abotoar meu paletó. A relação mestre e aprendiz só acontece se existe uma base sólida de confiança mútua. Também é necessário um grande amor e generosidade por parte do mestre e uma entrega por parte do aprendiz.
Os meus cursos atraem todos os tipos de pessoas. Às vezes dou cursos abertos ao público em geral e todo tipo de pessoa aparece. Atores, palhaços, curiosos, artistas em geral...Outras vezes dou aula em escolas de teatro e universidades, o que me traz pessoas mais intelectualizadas, que querem entender tudo com a mente e não com o coração. Também dou aulas para grupos e companhias de circo e de teatro e para palhaços em geral. Dou aulas para escritores e cantores de ópera. Dou aulas para empresas, agências de publicidades etc... Portanto, encontro todo tipo de gente. O mais legal de tudo, é que a oficina sempre funciona. Sempre.

É possível ensinar alguém a ser palhaço?

Isso depende da disponibilidade e do desejo de cada pessoa. Do quanto querem descobrir seu palhaço interior, ou do quanto querem aprender a arte do palhaço do circo, por exemplo. Todos temos um palhaço dentro de nós. Depende de cada um ter o desejo de expô-lo(a) ou não. Não precisamos ter um espetáculo para mostrar ou ter um palhaço: ele pode aparecer em qualquer lugar ou simplesmente ser ele mesmo e nos fazer companhia em nossos momentos mais solitários.

http://www.contemporaryclowningprojects.com/
http://www.thewhynotinstitute.com/

TE CUTUCO

“O palhaço é um transgressor, um excêntrico; está fora dos eixos, das regras, da lógica, do bom senso, do bom gosto e das boas maneiras. Ao palhaço tudo é permitido?”Alice Viveiros de Castro, Elogio da bobagem

De que é feito o Anjos do Picadeiro?

Ângela de Castro responde:

Da generosidade da troca. Da dedicação a esta forma de arte. Do compromisso de promover o trabalho do palhaço junto ao público e junto aos outros palhaços. De amor. De vontade de fazer. Da dedicação do pessoal do Teatro de Anônimo. Do desejo de celebrar o que somos. Da consciência de que é importante ocupar um lugar e ser respeitados e representados pelo que somos e pelo que representamos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

TE CUTUCO

Os setores populares não têm mais obrigações do que os letrados: não é licito esperar que sejam mais espertos, nem mais rebeldes, nem mais persistentes, nem que vejam com mais clareza, nem que representem outra coisa senão eles mesmos. Mas, em contraste com as elites econômicas e intelectuais, eles dispõem de uma quantidade menor de bens materiais e simbólicos, estão em condições de usufruto cultural piores e têm menores possibilidades de praticar escolhas não condicionadas pela pobreza da oferta ou pela escassez de recursos materiais e instrumentos intelectuais. [...] Os setores populares não dispõem de nenhum recurso todo-poderoso para compensar aquilo que uma escola em crise não lhes pode oferecer, aquilo que o ócio dos letrados pode adquirir quase que sem dinheiro, aqueles bens do mercado audiovisual que não são gratuitos ou que não se adaptam ao gosto que o mercado protege, justamente porque é o gosto favorável a seus produtos padronizados.
Beatriz Sarlo. Cenas da vida pós-moderna, intelectuais, arte e vídeo – cultura na Argentina. Trad. Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997, p. 120-121.


"Quanto mais cultura houver, maior, mais diverso será o prazer" Roland Barthes