sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Rodas do imaginário e rodas da vida

Os patins e a carroça. Um conduzindo pra a fantasia, o outro pra vida. Esses elementos ligam um mestre em artes circenses e seu servidor-aprendiz. O aprendiz não vê completamente o desempenho do mestre pois se ocupa de comer bananas, arrumar a carroça, preguiçar...Ao voltar de seu show, o mestre é recebido com abobalhado entusiasmo, nunca correspondido. Assim segue-se a sucessão de dias: apresentação, brigas, alimentação, treino.
Muito disso é meticulosamente refeito em várias cenas, o que dá ao Sapato do Meu Tio uma lentidão meio mórbida, extravasando a idéia de rotina – o que parece ser o propósito – a ponto de penetrar em terreno pesaroso. Era visível que a platéia ansiava por um fim e em várias cenas houve sinais para isso, podendo ser notado nos comentários em voz baixa.
A carência de afeto do aprendiz é muito dilatada e ele se torna mais que um bobo. Sua dor fere e nisso talvez haja um certo exagero, pelo menos no tempo que é dado ao público partilhá-la.
A carroça percorre novos caminhos, que são simbolicamente os mesmos, mas os patins trazem as surpresas: O aprendiz vira parceiro de cena e um sucessor evidente.
Nessa dupla os opostos, o caráter acentuadamente melodramático e os atores são emblemáticos ao personificar essa face tosca da vida artística com poesia, sem prosa.



Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

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