quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Leo Bassi

"Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (...) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniqüidade. (...) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar." (Nélson Rodrigues).

Verdades absolutas..... será que isso existe? Vivemos num mundo mutante, somos mutantes. Estamos em processo de transformação a todo o momento, basta ver o nascer e por do sol... não há dia que se repita igual!! Sempre é diferente, tudo sempre novo ... Renovado. E que bom que tudo mude, o tolo é quem não muda, não é mesmo?
Nosso Nélson já dizia que toda a unanimidade é burra. Então... personalidade, estilo e gosto, cada um tem o seu, e que bom que seja assim! Esse papo todo é só pra me desculpar, me desculpar talvez, pela minha ignorância, ou talvez porque esteja enxergando além do que está aí, ou melhor, pode ser só um jeito diferente de entender, de ver além, ver além de mim... (tá ficando muito mediúnico esse papo de ver além), mas em se tratando do mestre Leo Bassi com seu espetáculo: La Revelación, tenho que fazer estas ressalvas, pois acredito que a noite do “La Revelación”, não aconteceu em Salvador, ou então, realmente o problema foi a minha expectativa... Pensei que ele ia botar fogo no teatro... Assim como na praça, quando ele apareceu com os extintores, pensei que ele ia botar fogo nele mesmo, num ato de purificação ou outra coisa parecida. Esperei crente da sua transgressão Bufão-radical
Leo Bassi é um mestre na arte de ser um Bufão. Mas essa guerra religiosa, não me interessa e talvez aí esteja o problema, admito, pode ter sido um lance de empatia pessoal. A relação espanhola com a fé (católica) soa bem diferente por aqui, onde fervemos de fé, acredite todos os espanhóis que conheço são ateus e morei em Madrid ano passado quase 06 meses e conheço muitos espanhóis.
A fé católica, se é que exista um tipo especifico de fé.... anda abalada por aquelas bandas. Daí a importância desse espetáculo..... lá! Aqui, ainda somos colonizados e manipulados pelo mundo dos ricos, poderosos e pela fé. (religião/disputas). Ainda importamos padrões culturais da Europa e companhia ltda. Importamos seus gostos, suas vestes, sua tecnologia e seus padrões antigos e arcaicos, importamos até métodos educativos, e esquecemos que aqui, o Brasil, pais do agora!! Do presente, é o que há de melhor!! em tudo! Acreditem!
Vejo religião como língua, cada um tem a sua, mas o Deus, (normalmente) é o mesmo. Então só muda a comunicação, o meio, o caminho.
A Europa está vigiada, controlada, velha de doer os dentes! Aqui no Brasil, apesar do contraste social imenso e da extrema miséria de muitos e a riqueza de poucos (financeiro), somos livres! e por isso mesmo, somos mais livres para criar, compor, refletir, interagir, trocar e transgredir. O novo somos nóix... é nóix na fita e os playboy no dvd... rsrsrsrs
Mesmo sem sabermos, já somos livres! O que precisamos realmente é de alguns ajustes: político-social-econômico, educação e saúde acima das burocracias. Portanto não preciso e não sinto a necessidade de refletir sobre dogmas estilizados, não somos necessitados de uma revelação ou libertação, da qual prisão, já fomos libertados. Pelo menos nós aqui que nascemos na Bahia. Rsrsrsrs, eu nasci na Bahia!
Quando saio nas ruas e vejo tanta miséria, que assola toda uma população de necessitados que não tem direito à nada, pois vivem como ratos explorados, esquecidos, sem nada! Vejo aí o grande desafio: como dar condições dignas para todos os seres do mundo, viverem felizes e satisfeitos, sem poluir ou destruir o planeta? Destas revelações eu preciso, preciso destas revelações! e não de visões exportadas de revelações bíblicas. Calma eu sei, é arte, o artista pode! Isso é só um espetáculo, entendo, mas não há mais tempo, precisamos contextualizar agora! Eu preciso é de alegria, e particularmente acredito que essa seja a melhor função de um palhaço. Resumindo: O espetáculo de Leo Bassi, aqui em Salvador, para mim, não aconteceu. Eu estava muito cansado e confesso que dei uma cochilada na poltrona do Tca, mas nada que me tirasse a concentração.
Acho até que ele mesmo percebeu isso e numa atitude veloz, botou os colhões pra fora da cueca no Tca! Bem, se tratando de transgressão ele começou a ganhar pontos.
Acredito que não fui só eu que saiu desapontado do Tca, mas mesmo assim, perguntei a muitas pessoas e muitos disseram que amaram o espetáculo. Comecei a pensar se eu era o ser defeituoso... mas não...Realmente sou sincero! E não vi nada de revolucionário e sim, achei ultrapassado! E chego a conclusão de que não preciso dessa “revelación”, e sim, já que é para filosofar, desejo discutir o que vamos fazer para nos salvar e salvar o planeta de nós mesmos, mas de outra forma...... Não precisamos mais da importação de modelos e estéticas artísticas, que se cristalizam em nossa imaginação, como se fossem o que há de melhor no mundo. Em exaltação nacionalista dou muitos salves aos mestres Pinduca, Trepinha, Picolino, Beijamin, Biribinha.....
Dou um grito de Não! E eu me nego a aceitar as coisas, só porque dizem que é bom! E sei que o bom também pode ser ruim, às vezes, ou mediano, midlle man, isso depende muito da situação e de quem está envolvido. E isso tem haver com o inesperado, tem haver com um por do sol com chuva e frio, ou um por do sol no porto da Barra, em Salvador, com amigos e cerveja.
Assim, o sol não deixa de ser sol, mas o momento pode ser diferente. O Leo Bassi tem todos os créditos e merece meu respeito pelo que ele é e já produziu e tudo mais! Mas não nos esqueçamos que somos o que somos, e somos principalmente o agora! Então que desfrutemos dessa dádiva. Não podemos viver do que foi feito e sim devemos fazer todos os dias algo de bom, de construtivo, de novo, de superação! todos os dias, como se fosse o último. Pode ser 1000 anos a 10 ou 10 anos a 1000, não importa, mas que se viva o agora! Que saibamos utilizar nosso livre arbítrio, e que sejamos flexíveis, sejamos água, ar, terra, fogo e coração.
Deixo claro que em nenhum momento tiro os méritos do mestre Leo Bassi, pelo contrário, exímio equilibrista e bufão anárquico-filosófico. Ainda digo mais, sua performance é muito interessante, convincente, madura, etc. mas me apego neste texto, exclusivamente ao que senti, e senti normalidade. Gosto de sair de uma peça ou filme, ou show, sentindo algo, pode ser alegria ou até raiva, mas tenho que sentir, tem que mexer com minhas emoções e não só com minha razão ou gosto pessoal.
Aí o espetáculo “La Revelación” caiu por terra, apesar dos questionamentos importantes trazidos em contraponto às informações bíblicas, eu estava afim mesmo é de dar risada como uma criança, e não me sentir num reino distante, pensando em problemas distantes e longe da minha realidade. Não contextualizou. E com todo respeito ao mestre Leo Bassi e contrariando aos que gostaram da sua performance, do dia 15 dezembro, eu peço desculpas, mas não mexeu em nada comigo. Não sei ao certo até onde isso é uma frustração de uma expectativa não realizada, mas o fato é que o espetáculo “La Revelación” ficou distante da minha realidade. Será porque eu o vi fazendo a cena do mel em Jô soares? Será porque pensei que ele ia raspar a cabeça de alguém? Ou cortar suas roupas? Não sei, será que o problema estava em minha expectativa no espetáculo?
Imagine..., eu sou do candomblé, do espiritismo, da umbanda, leio o tarô do caminho sagrado, curto o livro dos segredos de Osho, sou católico, Taoísta, aceito Buda, krisna, curto muito o Yogananda também... rsrsss e leio os livros de Herman Hesse.....(essa foi a lá Angelí do chiclete com banana Rsrsrsr). Vivo num lugar onde tem uma lenda que diz assim: “o que ainda vai acontecer no mundo acontece primeiro na Bahia”. É verdade! Com tudo isso misturado em mim, me pego em um questionamento, se realmente é importante em arte, trazer à tona velhos paradigmas, filosofar em cima de questões seculares, dos dogmas e dos medos.
Acredito na experimentação contextualizada, acredito na confluência. Assim, ao artista, querer induzir e dar sentido ao que o público sente, e ao que se percebe, é especulação, pois somos diferentes e sentir é uma ação idiossincrática. É a combinação de personalidade, identidade, estilo, gosto, prazer ... então isso tudo é muito pessoal.
Que seja bem vinda a diferença! que aprendamos a interagir melhor uns com os outros, que respeitemos a natureza e que cuidemos de nós mesmos. Que possamos a cada dia entender, que somos o que nós construímos. Nós escrevemos a nossa história, dia a dia, coisa por vez. Assim, respeitemos o inesperado, e aceitemos que tudo pode acontecer. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, mas podemos sempre entrar melhor no rio. Isso faz parte dos processos de escolha.
Que estejamos atentos às nossas intenções e que busquemos sempre fazer o melhor. Mesmo que às vezes as circunstâncias nos impeçam e possam favorecer às más impressões, como estou sentindo em relação ao espetáculo “Lá Revelación”. Mas concerteza, tudo é só impressão. E impressionista sou. E tenho certeza que o problema não está na peça e sim no meio de comunicação entre ela e o meu ser. Isso explica ou classifica uma sensação exclusivamente momentânea. Fiquei viciado em Biribinha e Gardi Hutter, em O sapato do meu tio. Viciado neste jeito de fazer o clown acontecer.
O mestre Leo Bassi é um bufão.... mas não entendi porque ele se explicou tanto, em performance, o que é, e porque ser um Bufão... ? esse negócio de explicar, me soa conduzir a uma certa linha lógica de fruição, de entendimento das pessoas daquilo com o que elas, nós, estamos em interação. Ou ele achou que somos realmente 3º mundo em tudo? Que as pessoas pensem o que quiserem pensar... Oras... livres para eleger escolher, trocar, ser o que é, transgredir e transcender... gostar e não gostar.
E como ao Bufão pode tudo, me visto das suas características e exprimo meu sentimento: Desculpe-me Leo Bassi, mas não curti. Mas juro a você, foi o momento. É que 500 anos de Bahia se faz muito mais misterioso para mim, que séculos europeus.
Salve Orixá!
Juracy do Amor

4 comentários:

Alhuris disse...

Meu Deus (olha ele aí!)! Pensei que fosse a única que tivesse pensado dessa maneira sobre o espetáulo de Leo Bassi. Que bom é poder ler suas palavras, Juracy. Fantástico... cada observação feita, desfrutei de uma mesma sensação. Também me questiono quanto as expectativas, mas também não as culpo não... aquele era o grande último dia de um encontro tão enriquecedor. Realmente esperava algo que me cutucasse, que me fizesse levantar daquela cadeira do TCA com outras perspectivas... e olhando por esse lado, elas até existiram.
O que penso agora é que bom que existem os contrapontos.
Pois então, parabéns pela sua colocação e pelo textos aqui do blog. Foram um complemento importante para tantos acontecimentos.
Abraço,
Larissa.

talita melone disse...

Uau !!Parece que revivi pensamentos de 3 anos atrás no mesmo espetáculo do Anjos 4.Concordo em número ,gênero e grau só pra ser normal.Valeu!
Talita

Anônimo disse...

Comentário lamentável....se o baiano aí levantasse a cabeça, parasse de olhar propróprio umbigo, ia perceber em toda a miséria que o pelourinho vomita nos turistas e na miseria que a bahia esconde atraz de mil ieparreiansãs e axés de propaganda de cerveja, os traços de exploração da mente e dos corpos muito bem difundidos pelo catolicismo navegador que ficou tão seguro em terras baianas....todo o mistério que se encerra na bahía é a permissão jesuítica desse mistério existir...assim, o mercado americano acredita que é livre pra manipular suaprópria cultura sendo q nem tem uma! Viva portugal, que nos empresta o portugues pros juracys escreverem bons contracensos risiveis....ai daqueles que ainda acreditam em nações! Leo Bassi, apoiado na crítica demente desse baiano, só prova que os dogmas persistem...deus nos ajude!salve-se quem puder

talita melone disse...

Não é a toa que esse picadeiro é quente rsrsrs...muito bom o debate,só uma pergunta:o anônimo é anônimo?Pois como visitante da cidade, concordo com suas colocações,porem é sempre a gente saber com quem tá concordando ou não.Ma s enfim o tema era o Grad Léo né que deve amar esse tipo de discussaão ,afinal é disso que ele vive e faz sua arte !!!vIVA A INDGNAÇÃO BASSIEÍSTICA!!