sábado, 15 de dezembro de 2007

Impressões sobre 13 de dezembro

Como diria Paulo Freire: “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo de busca. E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”. E essa busca pelo melhor da performance, me contagiou na noite de abertura, realizada sob a lona do maravilhoso circo Picolino, do qual sou músico, pesquisador e fã. Nesta noite me senti imerso num caldeirão de aprendizagem e de trocas.
A turma do Biribinha é fantástica, o melhor de todos os tempos! Genial! Um encontro onde a música era extraordinária! Os temas, o modo de fazer, o tudo e o todo, reinventados, reeditados e exclusivos! Extra! Coleções de alegria e performances contagiantes e verdadeiras no picadeiro! Um trânsito entre o que é, e como pode ser!
Modos de fazer e se expressar, de construção criativa em nosso imaginário de sensações, imagens e histórias. A construção e o desenvolvimento da virtude do ser imaginativo, criança, clown, músico, ator, guerreiro desbravador, consciente, experiente e com sensibilidade e frescor pulsante de vida, repleta de palhaçada. Palhaço-atitude. Com interconexões, personalidade e experiência! Um verdadeiro luxo, uma aula sofisticada, gentil e marcante, que deixou impressões fantásticas em nossos corpos e corações! E a vontade de fazer parte de toda essa viagem! Só nos resta agradecer!
Com instrumentos não convencionais, a turma do Biribinha contou uma verdadeira história de circo. Desenvolveu o que há de melhor em circo tradicional brasileiro, numa narrativa que se recriava e ressurgia de pontos diversos do nosso consciente e inconsciente coletivo, era o circo que invadia a nossa alma e nos transformava!!! Um espetáculo onde a música é uma das atrações principais. Um trabalho com trilha original e releituras geniais que se transformavam, a cada som e silêncio, e os nossos corpos transformavam-se em receptáculos de vibrações de alegria das performances sinceras dos palhaços.
Com um belíssimo piano de garrafas afinado em Ré, o palhaço instrumentista desenvolveu toda a sua técnica e musicalidade de modo surpreendente. Melodias como Brasileirinho, composta em 1947 por Waldir Azevedo (1923-1980), incendiaram a platéia que ia ao delírio com os solos expressivos.
Um serrote sendo feito de violino, sendo explorado em suas mais longínquas possibilidades de produção sonora! Sensibilidade! Uma bateria eletrônica, que me parecia ser uma Medeli, executada com baquetas, dava a pulsação rítmica imprescindível aos números de clown.
O acordeon, a gaita, a escaleta, o violão e as vozes, conduziam as melodias que traduziam as cenas e traziam à tona uma arte dinâmica e contextualizada. Arranjos funcionais invadiam nossos ouvidos. Nem pouco nem muito, a medida certa!
E vamos aos sinos... Seguindo a lógica do piano, onde os graves surgem da esquerda e as freqüências continuam para a extrema direita chegando às paisagens agudas, assim era o piano de garrafas, da garrafa mais cheia à mais vazia, bem como, a disposição dos sinos, partindo do maior ao menor, ou seja, do mais grave ao mais agudo.
Os sinos refletiam uma inteligente pesquisa de freqüências onde o palhaço, utilizando-se da 7º menor da escala, nota característica da música nordestina, executou Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) de forma bem expressiva e fez uma bela homenagem aos baianos tocando: We are the world of carnaval (Nizan Guanaes).
Um brinde à atuação magnifica de todos da Turma do Biribinha, grandes palhaços. Eu realmente pensei que o palhaço Lingüiça era um bêbado intruso no circo. Eu e muita gente!!! Que aula de representação!!!
A noite de abertura oficial do encontro foi extremamente contagiante! Muitos reencontros históricos, únicos! Uma noite de emoções incríveis, o relato do mestre Pinduca me emocionou muito, e a noite vibrou num espiral que alcançou os mais longínquos cantos do espaço sideral e do meio intra-terreno e de nossas sensibilidades e emoções.
Agradecimentos feitos e realizada a apresentação da equipe, o espetáculo começa com a apresentação da palhaça Hilary Chaplain, com o espetáculo: A life in her day. Numa narrativa onde aspectos de nossa vida foram traduzidos e representados de forma inusitada. Nossas imaginações, fugas, encontros e desencontros, amor, carinho e o dia a dia. Um belo personagem! Numa interpretação convidativa, Hilary conduziu o público a uma experiência interessante, e facilitando um grande contraponto ao espectador, quando assistiu a Turma do Biribinha.
A partir daqui, cabe voltar algumas horas antes, pela manhã, no teatro do Sesc, onde aconteceu a palestra de lançamento dos livros das três maiores pesquisadoras de circo no Brasil: Erminia Silva, Verônica Tamaoki e Alice Viveirtos de Castro.
O mais interessante para mim, em particular, foi ouvir das três, as quais eu pesquisei e citei muito em minha pesquisa sobre circo, música e educação, tudo que já tinha lido em seus trabalhos publicados. Atenção: daí a importância do registro, das publicações e da divulgação e distribuição destes trabalhos!
Lembro-me de que, em entrevista com a doutora Erminia Silva, em Salvador, quando eu estava em pleno furor da minha pesquisa, ela me falou do surgimento do mímico na França, quando o ator foi proibido de falar, o surgimento das pantomimas e tudo mais que se foi produzido. Ouvir a Alice Viveiros realçar esse assunto, sobressaltando as diferenças e características das personalidades dos palhaços, realmente foi muito interessante. E na noite de abertura do encontro, essas diferenças ficaram claras, onde o palhaço brasileiro é muito mais falastrão, brincalhão.
Dois mundos diferentes: Biribinha e a Hilary. A noite foi uma demonstração prática da importância das diferenças e das diversas qualidades artísticas no mundo do circo e da palhaçada!
O teatro onde foi realizada a palestra tinha a metade da sua capacidade de público, e o tema principal discutido foi sobre os livros escritos e os caminhos escolhidos por cada escritora para a realização e divulgação dos seus materiais.
Alice comentou sobre as dificuldades encontradas por ela em 1985, e sobre seus processos de aprendizagem no mundo circense. Já a Erminia falou sobre os preconceitos encontrados e a discriminação à gente de circo, e sobre a falta de registro da história do circo. Falou também sobre suas experiências acadêmicas e sobre o grande Benjamim de Oliveira. A Verônica Tamaoki, mãe da minha super amiga Luana Tamaoki, ressaltou a importância de estar em Salvador, e falou sobre a importância de alguns livros de Jorge Amado: Jubiabá e Tenda dos Milagres, no mundo do circo. Revelou o enorme tempo dispensado à produção do livro Circo Nerino e no meio da sua fala, convidou o grande Trepinha para um depoimento fantástico.
O discurso do mestre Trepinha foi muito emocionante e expressivo, uma verdadeira aula que me ensinou que ser palhaço é um elixir da longevidade! Um salve ao grande Trepinha e ao grande Pinduca, o homenageado do Anjos do Picadeiro 6!
Quando Trepinha terminou de falar e a emoção ainda estava no ar, antes mesmo que Verônica pudesse voltar a falar, ops... o teatro foi invadido por três palhaços... num primeiro momento pensei que seria uma homenagem ao Trepinha, mas quando alguém falou: “não! Aqui, agora não...” percebi que algo de errado aconteceu no reino encantado do mundo do circo e infelizmente percebi que os meninos e a menina foram inoportunos! O momento foi inadequado para a intervenção, nós estávamos extasiados com o Trepinha e com seu depoimento, e a manifestação espontânea dos três não ressoou muito bem no espaço físico e pintou um clima...mas nada que atrapalhasse o desenvolvimento da apresentação das donzelas, ou melhor, pistoleiras do saber circense! As acrobatas mentais!
Logo depois do mico pago pelos palhaços intrusos, Alice retornou com a fala e fortemente contextualizou, e exprimiu através de muito sentimento, o caminho longo do que é ser um verdadeiro palhaço de circo.
A única coisa que senti falta foi a abertura para as perguntas! Faltou a troca... Acredito que este tenha sido o lado que faltou e que acredito que seja imprescindível a qualquer palestra ou lançamento de livros. Essa é uma crítica construtiva, pois desejei perguntar e percebi muitas pessoas com o mesmo desejo! Então o que nos resta agora é o desejo de que venham novos lançamentos, ou novas possibilidades de discussões para o fortalecimento dos pesquisadores de circo no Brasil. Assim, proponho que façamos uma grande rede de trocas e de reflexões acerca da arte circense e de todos os seus desdobramentos. Uma rede que possibilite a construção dinâmica de uma identidade plural, transdiciplinar, nacional e universal, mas sem perder as suas raízes! A essência do circo, seja ele tradicional, contemporâneo, social ou qualquer outra coisa.
Bem, só me falta comentar sobre a palhaceata!!! Foi muito engraçada!!! Só achei que iríamos até o elevador Lacerda! Estávamos tão pertinho!!! Que pena que não fomos!!! Mas foi lindo demais ver tanto palhaço nas ruas de Salvador!!! O dia ficou mais bonito e tudo acabou com um magnífico pôr-do-sol na Bahia de todos os santos! Asé Babá!!! Que venham mais encontros como este!!!

Dia de sorte!

Juracy.

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