segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Entrevista com Ângela de Castro

Há quanto tempo você faz essa oficina que será realizada no Anjos do Picadeiro? O que é e onde está a base do trabalho que será realizado na oficina?

Há 19 anos. Minha oficina, A Arte da Bobagem, era de apenas 2 dias. Depois, a procura por oficinas de palhaço aumentou muito, minha oficina se tornou muito popular e meus cursos se tornaram mais freqüentes. Como a minha própria pesquisa no assunto foi se desenvolvendo e como fui progredindo no meu trabalho como palhaça, o curso foi também se desenvolvendo e passou de 2 para 5 dias. A base do trabalho está na minha própria observação e pesquisa sobre o assunto. Estudei com muitos dos melhores professores de palhaço da Europa, trabalhei com muitos palhaços de diferentes países e com diferentes estilos e a partir daí fui criando a minha própria metodologia e pedagogia. Quando a gente ensina, a gente aprende também. Muito.

Como você conseguiu organizar os conhecimentos para montar uma oficina? Qual é o seu processo de criação e repasse?

Eu nunca pensei em ensinar. Eu sempre fui muito estudiosa e sempre pesquisei muito (e ainda pesquiso). Sou completamente obcecada e dedicada ao trabalho do palhaço, do teatro. Quando comecei a organizar o meu curso, fiquei me lembrando de todos os professores que tive e se eu concordava ou não com seu modo de ensinar. Também, como sempre fiz muitas anotações durante meu treinamento, voltei a reler meus cadernos e li (como ainda leio muito) tudo que consegui encontrar sobre o assunto. Pensei muito sobre o que é o ponto mais importante do trabalho do palhaço e a dificuldade que encontrei para entender, praticar e começar a trabalhar com o palhaço da maneira que acreditava e acredito. Assim, desenvolvi uma linha condutora que leva os meus estudantes por um processo de trabalho e de descoberta de fácil e simples entendimento.
Primeiro, tive que entender bem o que o trabalho do palhaço significa para mim, o processo que passei e o tipo de palhaça que sou. A partir daí foi só ter a generosidade de passar o conhecimento com amor e com muita atenção a cada um dos estudantes. Cada pessoa é diferente e, portanto, tem uma maneira diferente de entender as coisas.
Com o passar do tempo, fui aperfeiçoando e criando novos exercícios. Com meu próprio crescimento, amadurecimento, experiência e entendimento, a oficina foi se transformando também. E pensei muito na pedagogia. Em como passar o que sei. Pensei em tudo o que me ajudou a entender o processo: filosofia, exercícios teatrais, jogos infantis, meditação.

Como você diria que foi e está sendo o seu processo de formação/criação do trabalho? Você passou por muitas oficinas ou ainda passa? Como você vê o ensino do palhaço e do humor de uma forma geral, hoje?

Como disse acima, estudei com muitos dos melhores professores de palhaço da atualidade. Em 2002 eu recebi um prêmio do governo inglês por um projeto chamado “O Palhaço no Mundo Moderno”. Este prêmio me proporcionou a oportunidade de voltar a estudar. Então, fiz mais cursos com professores que não conhecia, voltei a estudar com antigos professores e até organizei cursos particulares onde convidei outros artistas para estudarem comigo. Também fiz uma série de entrevistas, na Inglaterra, Canadá, USA e Bélgica com palhaços de todos os tipos e também com diretores e atores em geral, para saber o que eles acham do trabalho do palhaço de teatro. Eu adoro estudar. Adoro fazer cursos e estar sempre com outros artistas e/ou palhaços discutindo e conversando sobre nossos trabalhos. Tudo está sempre em movimento. Manter-se atualizado é fundamental para fazer com que o trabalho se desenvolva e para que possamos retratar a condição humana de maneira honesta.
Acredito haver uma grande falta de escolas que ensinem unicamente o palhaço. Normalmente os cursos oficiais têm o ensino do palhaço como parte de uma formação ou de teatro físico ou de circo. Eu fundei uma pequena organização chamada The Why Not Institute, que é unicamente dedicada ao estudo, pesquisa e ensino da arte do palhaço.
Parece-me que o ensino do palhaço está reduzido a outros palhaços passarem o que sabem. Isso na verdade é o que vem acontecendo há muitos anos. Grupos ou indivíduos tomam a iniciativa de dar continuidade ao trabalho e, generosamente, passar o que sabem. Quanto ao humor, acredito ser um pouco diferente, pois, pelo menos aqui na Europa, existem escolas para comediantes. O humor é uma coisa muito pessoal de cada país e de cada artista. Tem gente que tem humor por natureza, já nasceu assim. Tem gente que tem humor no que diz ou no que escreve. E tem gente que não tem humor nenhum, já nasceu mau humorado.

No seu ponto de vista, quais elementos que um aprendiz de palhaço precisa dominar para começar a trabalhar por conta própria e desenvolver o seu trabalho? Existe alguma técnica que seja mais necessária do que outras?

Acredito que o mais importante é entender que, primeiramente, o trabalho do palhaço não é uma técnica, mas um ‘estado’. Um estado de liberdade, de imaginação, de criatividade, de inspiração, um estado de graça. Um estado que nos transporta a uma outra zona e nos libera da censura, do julgamento, e dessa forma podemos ter acesso ao novo, ao revolucionário, ao subversivo, encontrando, então, a verdade. A verdade nunca ofende. Assim que se consegue atingir este estado, você pode ser e trabalhar do jeito que quiser.
A Arte do Palhaço requer muita coragem e muita disciplina. Não é fácil. Precisamos nos tornar ignorantes e bobos para que a platéia se sinta mais inteligente do que nós e se delicie com nossos erros e fracassos. Fracassar é muito difícil. Fomos educados para sermos inteligentes. Para sermos vencedores. Pela nossa vida inteira ouvimos coisas como: “Não seja bobo”, “Seja um campeão”, “Seja inteligente”. E, com isso, muitas vezes nos tornamos extremamente competitivos e não temos nenhum espaço para errar. Acredito que seja por isso que todos gostam do palhaço. O palhaço representa os erros, enganos e fracassos de todos.
Como disse, para mim, a coisa mais importante é descobrir esse estado do palhaço. As técnicas são disciplinas de apoio. Como por exemplo: técnicas circenses, texto, dança, canto, tocar instrumentos, usar a voz, mágica, acrobacia, slapstick...Essas técnicas não são exclusivamente de palhaço, elas podem ser utilizadas em muitas outras formas de arte.
Para mim, o ponto de partida para criar um novo espetáculo, ou um novo número, ou mesmo um outro palhaço, é estar aberto para o que me inspira no momento. Não ter ansiedade. Me ouvir e respeitar o processo de criação. Muitas vezes as pessoas ficam super ansiosas em criar números e apresentá-los e daí fazem tudo às pressas.

Qual grupo de pessoas que você espera encontrar nas oficinas? Para você como é feita a relação entre mestre e aprendiz? Você como mestre se vê ou se diz aprendiz em alguma coisa na vida?

Aprendiz serei por toda a minha vida. O quanto mais eu aprender sobre pessoas, sobre mundo, sobre sentimentos, mais honestamente poderei representar a natureza humana. Assim que perder a curiosidade e parar de fazer perguntas, acho que posso abotoar meu paletó. A relação mestre e aprendiz só acontece se existe uma base sólida de confiança mútua. Também é necessário um grande amor e generosidade por parte do mestre e uma entrega por parte do aprendiz.
Os meus cursos atraem todos os tipos de pessoas. Às vezes dou cursos abertos ao público em geral e todo tipo de pessoa aparece. Atores, palhaços, curiosos, artistas em geral...Outras vezes dou aula em escolas de teatro e universidades, o que me traz pessoas mais intelectualizadas, que querem entender tudo com a mente e não com o coração. Também dou aulas para grupos e companhias de circo e de teatro e para palhaços em geral. Dou aulas para escritores e cantores de ópera. Dou aulas para empresas, agências de publicidades etc... Portanto, encontro todo tipo de gente. O mais legal de tudo, é que a oficina sempre funciona. Sempre.

É possível ensinar alguém a ser palhaço?

Isso depende da disponibilidade e do desejo de cada pessoa. Do quanto querem descobrir seu palhaço interior, ou do quanto querem aprender a arte do palhaço do circo, por exemplo. Todos temos um palhaço dentro de nós. Depende de cada um ter o desejo de expô-lo(a) ou não. Não precisamos ter um espetáculo para mostrar ou ter um palhaço: ele pode aparecer em qualquer lugar ou simplesmente ser ele mesmo e nos fazer companhia em nossos momentos mais solitários.

http://www.contemporaryclowningprojects.com/
http://www.thewhynotinstitute.com/

Um comentário:

Lúdica disse...

Axé, axé com força, anjos!
Impossibilitada que fiquei de estar aí nessa Bahia de todos os santos. Fiquei daqui, ainda assim, na contagem regressiva. Agora que começou, daqui estou aí, me projetando pelo astral. Tem um monte de palhaços daqui de Ouro Preto que está aí com vocês! Ai que saudade... Amor - Ludmilla