quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

CRÍTICA

Dia 11 de dezembro de 2007

1ª Parte - Pipistrello- um contador de histórias

Metade da platéia do teatro do Centro Cultural Plataforma eram crianças com seus uniformes e a outra metade participantes dos Anjos.
Como sempre acontece quando se junta muita criança, estavam agitadas e felizes. Dentro do teatro os adultos tiveram dificuldades de segurá-las sentadas. E mesmo quando todos estavam sentadas, era um falatório alto. Havia algumas professoras e funcionários do teatro no trabalho de controlar as crianças.
Entrou então, o Pipistrello. Alguns se agitaram mais. Os professores cada vez mais preocupados.
No início uns meninos atrás de mim, em suas características de meninos-homens, disseram: “Ah! É um cara atrás”. Com o passar da apresentação, a maioria foi ficando totalmente compenetrada na história que Pipistrello ia contando com seu corpo e suas emoções.
Meninas e meninos suspiraram nas cenas das tentativas de conquista da moça da platéia pelo boneco. Em alguns momentos rápidos havia silêncio, pois estavam presos pela representação, mas logo em seguida um romper de risadas gostosas, próprias das crianças.
Os meninos-homens deixaram de se entreter com o artista atrás do boneco, e deixaram a risada tomar conta deles.
Abel, acho que essa breve e pequena descrição do que senti hoje à tarde, sentada no meio daquela garotada, é um elogio que todo contador de histórias gostaria de receber: a atenção do público totalmente compenetrado no enredo.Quando temos a mistura de contador e palhaço, transformamo-nos também nos personagens dessa história.


2ª Parte – Tomara que não chova – Teatro de Anônimo

Na praça do bairro da Plataforma uma estrutura de circo estava armada. No fundo da praça, cortinas de onde sairiam os artistas, e na frente um risco em formato de círculo no chão definindo o que seria o picadeiro.
No entorno da praça, casas comerciais formais, mas algumas informais também, iam ocupando espaço. Entrei em uma sorveteria e a atendente disse:
- Hoje vamos conseguir vender, em plena terça-feira?
Duas barracas de acarajé disputavam preços e filas. As lanchonetes vendendo refrigerantes e docinhos. A economia da cultura em total produção.
Enquanto o pessoal do circo sem cobertura, o Tomara que não chova, artistas e auxiliares, preparavam o local, sentei em um banco da praça e fiquei observando a população se formando ao redor do risco no chão.
Eram mulheres-meninas, mulheres-mães e avós. Eram homens-meninos e...não tão meninos. Algumas crianças eram escolares que já haviam visto Pipistrello se apresentar. Mas, agora, a maioria era formada de crianças que iam aparecendo de todos os lugares. Meninos-homens que largaram de suas bolas para assistir ao espetáculo. Meninas-mulheres que deixaram suas casas.
Mulheres e homens iam saindo de suas casas e se achegando na praça. Algumas não saíram das casas, mas colocaram suas cadeiras na calçada, e quando a apresentação começou, levaram as cadeiras para a praça e assistiram.
As filas do acarajé e da pipoca aumentaram.
Antes do início, perguntei para uns meninos perto de mim se eles sabiam quem ia se apresentar.
- É circo e é palhaço, não? – respondeu um.
- E de onde? – perguntei.
- Ah! É da Picolino.
- Então vocês já conhecem os artistas da Picolino?
- Sim, e a gente gosta muito deles.
- Não – respondi – é um pessoal do Rio de Janeiro.
- Do Rio, é?
Rapidamente me deixaram e foram sentar lá na frente, quase em cima do risco do chão.
Começou o espetáculo. Estava sentada perto de um menino de perna engessada, ao lado de seu pai. Perguntei se não foi difícil ir com aquele gesso, e ele me disse:
- Não vou perder por nada esses palhaços do circo. Eu não vi eles ainda não.
Como o menino, eu também, por incrível que pareça, estaria vendo o Roda Saia Gira Vida, do Teatro de Anônimo, pela primeira vez.
Entraram os artistas palhaços/acrobatas, e o menino ao meu lado falou:
- Ih! Os caras não são só palhaços, fazem acrobacias também!
Dei risada. Mas é isso. São artistas no sentido gostoso e competente - Angélica, João, Regina e Shirley fizeram um trabalho de qualidade para um público ávido de coisas boas.
Artistas como eles e eventos como o Anjos do Picadeiro estão transformando as ruas e as praças de espaços apenas de passagem e lugares de violência, em lugares de cultura, prazeres e desejos.
O menino ficou comigo até o final. Batemos muitas palmas e rimos muito.
- Osh! Esses caras são porretas!
- Olha a boca, menino – falou o pai.
- Eu também achei que eles foram porretas – disse ao menino.
E nos olhamos com cumplicidade por sairmos cheios de prazer.

Erminia Silva

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