quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

CRÍTICA

11 de dezembro de 2007


Pipistrello - Seres de Luz (SP); Tomara Que Não Chova - Teatro de Anônimo (RJ)

Como se move o sentimento
O primeiro espetáculo da 6ªedição dos Anjos do Picadeiro foi assistido em Salvador por uma especial platéia de alunos de escola pública, além de artistas e equipes de trabalho, no Centro Cultural Plataforma. Parte desta platéia deslocou-se para a periferia da cidade e confirmou junto à comunidade a força que elementos clownescos têm em sua comunicabilidade. Esse deslocamento físico foi apenas um dos movimentos a que nos submetemos. E, quero acrescentar, o quanto é bem vinda a digníssima idéia de incluir novos “centros” desta cidade no circuito de eventos culturais deste porte .
Após o pequeno tour, a estranheza da figura homem-boneco de Pipistrello nos exige um recolocar dos sentidos. Ora mergulhamos no boneco, ora mergulhamos no artista, no técnico, no homem. Ganha o boneco! Isso se evidencia pela habilidade detalhada com que ritmos corporais, jogos de repetição e estruturas de números tradicionais são perfilados para revelar a personagem e seu jeito de ser. Há momentos em que os sentidos da platéia são ordenados como se ele quisesse que as emoções fossem por aqui ou por ali.
Risos vibrantes; sons de espanto; uma partner “surpresa” (naqueles truques de parecer alguém da platéia) e detalhes como um brilho de purpurina deixado cair em cena no meio do espetáculo e que fica a brilhar no centro até seu final, são algumas das imagens desses Seres de Luz que inauguraram este Encontro.

Anônimos em dia célebre

Seguiu-se para a praça, domínio do povo. Apesar da estrutura física clamar por números acrobáticos o público foi surpreendido com algo mais que isso. O Teatro de Anônimo mostra os personagens do circo em seu lado tosco, permeado de erros. A arte que os caracteriza é, surpreendentemente, o real conhecimento destas técnicas. Eles fazem como não o soubessem fazer. Mostram que são belos em figuras feias. Pedem o partido da platéia, dialogam com esta e são, nesta aproximação corporal e verbal, figuras que geram uma identidade onde o espetacular pode se tornar familiar, mesmo sendo um membro torto da família, daqueles que temos vergonha, ou até mesmo daqueles que em nós esmagamos. Neste contexto até um cachorro apareceu e contribuiu com o célebre número de tentar morder o próprio rabo. Em alguns momentos o bichinho tentou até entrar nos bastidores, queria mesmo se engajar!
Como um exemplar de “maior espetáculo da terra” esse circo teatralizado trouxe elementos de magia; equilíbrio; luta de boxe, e - similar às grandes formações circenses - incluiu uma atração da expressão local: o passista de samba e seu número com chapéu coco. Singular no elenco destas figuras, ali se revelou, neste tipo de brasileiro, que estar no centro do picadeiro é mérito de todo aquele capaz de sustentar a força e graça de sua arte. E se eles são anônimos, na memória e no sentimento de quem assistiu ao espetáculo não mais o serão.




Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

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