segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

As edificações líquidas

Se compararmos as atrações do Overdoze a um edifício veremos uma distribuição bem peculiar. Os que moram no térreo, por segurança, não ousam tanto e preferem os códigos da tradição seja esta velha ou renovada. Entre estes está o performer Djammal numa busca de junção de códigos urbanos aos números com malabares e de habilidades corporais. Vizinhos dele os palhaços Pimenta e o pequeno Baratinha trazem a harmonia das gerações no que há de mais simplificado, com jogos e troças tão previsíveis quanto engraçadas pela total falta de pretensão ou, como diria Pimenta, “total falta de absolutamente.”
Moradores de andares acima às vezes são pedantes, tem uma visão mais privilegiada e passam pela portaria sem dizer boa noite. A referência cabe a algumas cenas dos espetáculos de Gala.
No primeiro dirigido por Ângela de Castro somos surpreendidos com uma fileira de belíssimos palhaços a caminhar o passo errante deste tipo de personagem. A presença de Ângela surge como uma assinatura misteriosa junto a um texto em off, uma Hitchcock clown. Das apresentações coube à Intrépida Trupe a mais contagiante e a Ésio Magalhães do Barracão Teatro a mais carismática. Esses não dizem boa noite, mas sempre sorriem pro porteiro!
Já o grupo regido por Leris Colombaione seria daquele andar do prédio em que os vizinhos são marcadamente distintos em suas rotinas, juntos não dariam bom papo. Boas são as atrizes do Pé de Vento na absurda luta por espaço e os encantos mímicos do Etc e Tal. Os três integrantes do Namakaca sabem valorizar suas presenças, sustentam lindamente as habilidades. Por outro lado uma palhaça que entrava a fazer medidas e depois enfaixava seu corpo com fita adesiva fez do pior o pior ainda, sem sensibilidade e sem graça. A melhor coisa que aconteceu foi ser tirada de cena pelos cabelos. Enfim, o conjunto dessa sessão de Gala não foi bem arranjado.
Há finalmente os que moram na cobertura. Talvez não sejam ricos, podem ter ganhado uma herança, mas moram lá por merecimento. Maku Jarrak é violentamente viva! Desperta a todos para o espaço que estamos, somos todos elementos da cena e devemos estar acordados para que o comodismo não nos pegue. Assim ela é habilidosa com corpo, com objetos, com a comunicação e com o repertório diverso que talha em seu picadeiro. Não importa o que os vizinhos falam, o fato é que todos querem conhecê-la.
É claro que num prédio não se conhece todo mundo mas ouvimos comentários: “Você não viu a Carroça dos Mamulengos?”; “Ei, aquele cortejo de palhaços, ali.”
Pelo Passeio Público víamos também a beleza das árvores que ali residem faz tempo e não abrem a boca pra nada, apenas testemunham essa gente miúda que tudo faz pra se agigantar. Exibição de vídeos de outros universos artísticos como o instigante trabalho de Loco Brusca. E muita gente, muito trabalho, morando nesta edificação de anjos que zelam pelo melhor do humor.
A noite seguiu. Uns desligaram as luzes mais cedo... outros acordaram o sol.

Maria de Souza
Atriz, Palhaça,Mestranda em Artes Cênicas PPGAC-UFBA.

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