domingo, 9 de dezembro de 2012

Inesquecível Tortell


Quem assistiu a participação de Tortell Poltrona ontem na Noite Cômica dos Anjos do Picadeiro, na Lona Crescer e Viver, na Praça XI, testemunhou um momento inesquecível!



O artista exibe a vitalidade de um tipo de palhaçaria (poderia se dizer clássica ou tradicional) que foi conservada durante séculos sob as tendas de circos de todo o mundo e cuja origem seja possivelmente mais longínqua. E como ela permanece atual e surpreende o público! Deve ser porque a humanidade sempre foi a mesma, e se o homem é o homem desde sempre, talvez ele permaneça afetado pelos mesmos mecanismos da graça, de novo e de novo, como uma piada engraçada que permanece engraçada quantas vezes for repetida.

E a grande graça da brincadeira (as crianças que o digam) é: de novo! Fazer de novo, rir de novo, fazer de novo o que já foi feito, repetir, atualizar o passado, de novo, fazer do antigo uma novidade... O palhaço mostrado por Tortell encontra sua dimensão arquetípica quando une o passado e o futuro, e faz do presente aquele momento único, inesquecível, que vai ficar na memória de quem esteve por lá.

Pelas minhas contas, já faz mais de dez anos que o palhaço catalão não pisa no festival internacional de palhaços no Rio de Janeiro. E nem por isso a apresentação que ele fez deixou de habitar a memória dos aficionados da palhaçaria, os mesmos que ficariam ansiosos para assisti-lo novamente no Teatro Nelson Rodrigues, na última quarta.

A ambição de habitar a memória do espectador não deixa de ser um resíduo daquele antigo desejo de imortalidade. Se Tortell ficará para sempre em nossas lembranças, é porque ele evoca um personagem que o transcende e é maior do que ele (diríamos assim), despertando no público um estado originário e alegre do ser, resgatado e disponibilizado para ser vivido no agora. Tem a ver com aquele palhaço que habita os nossos sonhos, que em algum momento tivemos um mágico contato, e que no fundo é uma projeção da gente mesmo, no estado mais límpido da graça, de bobeira, de rir por rir, porque é engraçado, porque todo o momento em essência é poético (é apenas uma questão do olhar, como diria Borges). 

Fernando Gasparini - do Observatório dos Anjos do Picadeiro

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Anjos da Picagrossa


           O título resume os últimos dias do Anjos. E se a coisa é pica dura, pouca merda não sai.
Se antes as mesas discutiram a função política – nos diversos níveis do entendimento da palavra política – da figura do palhaço em um nível intelectual, vemos agora as potências sendo empregadas nas ruas e nos palcos.
            Começando pela palhaceata que atravessou as estreitas vias públicas, interrompendo os fluxos, gerando curiosidade, aborrecimento – para aqueles que não têm mais tempo para brincar – e alegria – para os que ainda se permitem abrir espaços – em plena tarde de quarta-feira. No fim do dia, tivemos a apresentação do palhaço Tortell Poltrona, trazendo sensibilidade, transgressão e técnica capazes de emocionar o público. No dia seguinte, mais um espetáculo de tirar o fôlego com o ator Heinz Limaverde, misturando autobiografia, stand-up e palhaçaria.
            Na rua ou no teatro, o palhaço surge como uma figura potente, instigante, trazendo uma injeção de sensibilidade aplicada diretamente no glúteo esquerdo. Não há pensamento crítico, há compreensão sensível. Sejam os arrombos de uma passeata brincante, o equilíbrio de dez cadeiras ou a história de um artista errante. Nas praças, o palhaço atrai a atenção sem fazer o menor esforço, ele gera uma interrupção no tempo-espaço dos passantes, uma outra lógica na vida daqueles que vivem correndo ou dos que dormem nas ruas de concreto. A grande potência política do palhaço é dar maleabilidade aos espíritos endurecidos, seja aborrecendo, seja fazendo sorrir ou chorar em qualquer momento do dia.
            Claro, é necessário muito trabalho, muita técnica, muito saber, muito viagra. Esses souberam em diferentes escalas e de diferentes formas, e outros também. Cada um tem sua forma de seduzir, de praticar seu freelovinho e, quando você menos esperar, te cutucará profundamente.

Julio Castro, do Observatório Anjos do Picadeiro

Não se trata de fazer rir para pensar, mas de pensar para fazer rir

O palhaço sempre teve a função de fazer rir, comover e fazer pensar. Esse fazer rir, esse comover e esse fazer pensar – sua função de crítica social – alcançam o outro por meio de sua arte. É em cena que ele pode exercer sua função, seja no palco, no picadeiro ou na rua.

A questão é: sua atitude política se torna visível pelos materiais (o uso da tradição, o próprio discurso, a escolha do que dizer com os números que escolhe fazer) reunidos em sua apresentação, ou seja, em sua ação, em seu mostrar-se ao público.

Seu corpo e sua fala são sua porção política quando ele sabe, entende, o que está fazendo diante do seu público. Se ele não entende, nnao sabe porque faz o que faz, ele é um palhaço inocente, ingênuo (e não por opção) ou, ao contrário, um palhaço que apenas quer tirar proveito de um lugar que ocupa sem consciência: a profissão de palhaço, neste caso, ocupa o mesmo sentido da de vendedor.

Se tirarmos do palhaço o lugar da apresentação pública (de números, de gags, de espetáculo) o que sobra do palhaço? Sobra um SER em relação com o mundo. Como sou eu, como é qualquer pessoa que não estudou as ferramentas, não treinou e não desejou ser palhaço.

Quando há uma defesa do palhaço sem número, sem cena, temos aí uma mudança de definição do palhaço ou um testemunho de uma mudança na própria história social. Por que digo isso? Porque também na literatura há essa necessidade de ser escritor, de ser poeta, sem ter livros, sem escrever. Interessa mais a figura pública (o ser alguma coisa) do que o trabalho em si. “Trabalhar cansa...”, como já disse Césare Pavese.

Há também uma necessidade de se justificar a pesquisa sobre o palhaço ou a ação mesma do palhaço num edital ou num projeto de pesquisa na capes ou no cnpq, agências financiadoras das tão desejadas bolsas de pesquisa. Como dizer que o projeto visa ao financiamento de uma pesquisa que só tem interesse no campo individual do pesquisador de aprender o palhaço ou de mantê-lo vivo, alimentado por mais um ano? É mais fácil ganhar bolsa ou edital dizendo que o projeto vai beneficiar outras pessoas...

Se aparece tanto a figura do palhaço sem número, do palhaço que faz o discurso do coração, deve ser porque há uma necessidade de ajudar-se e de ajudar o outro num mundo doente, num mundo sem ideais, sem utopias grandes. Mas será preciso ser palhaço para ajudar o outro? Será preciso que o palhaço ajude o outro dando aquilo que ele acha que o outro quer? Quais são as formas que o palhaço poderia inventar para ajudar-se e ao outro? Não será um vício fácil o discurso da ajuda? O palhaço só pode ajudar quando sabe como fazer rir, comover, tocar etc. Então, primeiro a construção, o trabalho, e depois ele estará pronto para ajudar. Não?

 Ieda Magri, do Observatório Anjos do Picadeiro